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A Origem da Obra de Arte (dissertação)

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como hermenêutica, move-se na própria abertura ontológica da arte, seu espaço de 
jogo; como esclarece Nunes: “Sem abertura não há Hermenêutica. Dependente da essência da verdade, o 
princípio de toda interpretação é a essência do ser, que sempre acontece (west) no velamento, no claro-escuro 
de suas manifestações. Esse jogo originário atribuído à arte, e graças ao qual a obra é obra, é o mesmo de que 
a interpretação heideggeriana participa. Sirva-nos isso para assinalar a continuidade do círculo hermenêutico, 
que mantém sempre um centro ontológico. Dentro desse círculo incidem as descrições fenomenológicas das 
obras de arte, que Heidegger nos apresenta, e que pressupõem a prévia neutralização da experiência estética, a 
historialidade da arte, a sua correlação com o mundo e o seu produzir-se não instrumental, num processo de 
conversão do relacionamento cotidiano entre nós e os utensílios. Pressupõem, mais ainda, além da admissão 
do papel privilegiado da experiência grega do ser na historialidade em geral e na criação artística em 
particular, o resgate da arte como modo de pensamento original, como lugar (tópos), a partir do qual se efetua 
uma nova leitura das coisas e do mundo” (NUNES 1992, p. 255). 
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estamos de saber da verdade, mostra-o o fato de que nunca temos a cada vez imediatamente 
a seguridade se o acobertamento é um ou o outro – recusa ou camuflagem. Pois 
 
o acobertar acoberta e camufla a si mesmo. Isso quer dizer: o lugar aberto no meio do ente, 
a clareira, nunca é um palco fixo com cortinas constantemente levantadas, no qual se joga o 
jogo do ente. Muito mais, a clareira acontece somente como esse acobertar de dupla face. O 
não-encobrimento do ente nunca é apenas um estado diante-da-mão, mas sim um 
acontecimento (ib., p. 52). 
 
Mas onde isso encontra a pergunta pela essência da verdade na obra de arte? 
Heidegger não dá apenas um desvio. Esse acobertar de dupla face não se mostra 
cotidianamente: a obra de arte, como instigação do combate entre mundo e terra, como 
essencialização da verdade que carrega consigo o acobertamento de dupla face, revela 
também a verdade do ente em meio a tal acobertamento. Que a obra seja originária, 
instaladora, elaboradora, diz de seu poder de decisão; o mundo que se instala junto à 
elaboração da natureza é um mundo em que se decide, a cada vez, “o que é sagrado e o que 
é profano, o que é grande e o que pequeno, o que bravio e o que covarde, o que nobre e o 
que vil, o que senhor e o que servo” (ib., p. 39, Heidegger cita Heráclito). O insuspeito que 
permeia o cotidiano a repousar em si é, no fundo, apenas insuspeitado, pois ele só repousa 
em si, como algo que já foi fundado, uma vez que foram postas para decisão as vias e 
relações em que se move um ser-aí historial. 
A essência da verdade é, assim, “o próprio arquicombate [Urstreit] no qual é 
logrado aquele meio aberto, no qual o ente se insere e a partir do qual ele em si mesmo 
novamente se recolhe” (ib., p. 53). Nesse momento Heidegger identifica a essência da 
verdade ao combate de clareira e acobertamento. É assim o combate de mundo e terra, o 
que por si ainda não significa, como já mencionamos, que o não-encobrimento equivale ao 
mundo e o encobrimento à terra, ou a clareira ao mundo e o acobertamento à terra: 
 
Ao aberto pertence um mundo e a terra. Mas o mundo não é simplesmente o aberto que 
corresponde à clareira, a terra não é o encerrado que corresponde ao acobertamento. Antes, 
o mundo é a clareira das vias essenciais pelas quais todo o decidir vem a ajuntar-se. Cada 
decisão, porém, funda-se em um não vencido, encoberto, desconcertante, senão não seria 
nunca decisão. A terra não é pura e simplesmente o encerrado, mas sim aquilo que irrompe 
como o que encerra a si. Mundo e terra são sempre em si e segundo sua essência 
combatentes e combativos. É apenas assim que entram no combate de clareira e 
acobertamento (ib., pp. 53-4). 
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Isso, ademais, ainda não significa que o combate de mundo e terra sobreponha-se 
conceitualmente de modo integral ao que Heidegger entende por combate de clareira e 
acobertamento, isto é, a essência da verdade. Na seqüência, Heidegger deixa isso claro: 
 
Terra se ergue atravessando mundo, mundo funda-se sobre a terra, apenas na medida em 
que acontece a verdade como o arquicombate de clareira e acobertamento. Mas como 
acontece verdade? Respondemos: acontece de umas poucas maneiras essenciais. Uma 
dessas maneiras como a verdade acontece é o ser-obra da obra. Instalando um mundo e 
elaborando a terra, a obra é a disputa daquele combate no qual o não-encobrimento do ente 
no todo, a verdade, é batalhado (ib., p. 54). 
 
Ao pôr-se a verdade em obra na obra, o ser que se encobre vem a aclarar-se. A obra 
possui uma maneira própria de essencialização da verdade: “A luz assim formada ajunta 
seu brilho na obra. O brilho ajuntado na obra é o belo. Beleza é a maneira como a verdade 
como não-encobrimento se essencializa” (ib., p. 55). Heidegger cita outras formas como a 
verdade acontece, a saber: o ato de fundação de um Estado, a proximidade do mundo, o 
sacrifício essencial, por fim a pergunta do pensador, que “designa como pensamento do ser 
a este em sua dignidade de pergunta” (ib., p. 62). Podemos, contudo, notar uma espécie de 
privilégio no tocante à essencialização pela obra, se tivermos em mente o envolvimento 
entre mundo e terra que se dá nela por excelência e o sentido poético de tal envolvimento, 
sentido que tomará uma dimensão ainda maior no transcorrer de seu pensamento 
posterior.48 
 
48
 Da idéia de várias maneiras de acontecimento da verdade poderia brotar o espanto de se pensar que só há 
mundo e terra uma vez que verdade se dá como clareira e acobertamento, como se mundo e terra pudessem 
não ser e, contudo, a verdade mesma continuar sendo. Contudo, se Heidegger não chega a explicitar e 
consolidar uma resposta a essa questão, que ao que tudo indica não estava suficientemente clara para ele no 
momento, por outro lado seu texto não chega a permitir que esse espanto se converta em uma conclusão 
definitiva. Pois certamente não se trata aqui de uma verdade como gênero e de modos de ser da verdade como 
espécies desse gênero mais amplo; a variedade de ser da verdade tem de ser pensada de outra maneira. É 
nesse sentido que vale sugerir que o combate de mundo e terra é algo assim como a forma essencial da 
essência da verdade, ou, nas palavras de W. Marx, o seu “conteúdo”. A questão seria, então, de que forma 
esse “conteúdo” se dá nas outras ocasiões da essencialização da verdade, considerando que a obra de arte é 
apenas uma delas. Julian Young considera a afirmação de Heidegger sobre as três formas de essencialização 
da verdade como uma aparente séria confusão que só se soluciona nos termos mais finais do texto de 
Heidegger, quando ele aborda a Dichtung, a composição, em um sentido tão amplo que não apenas todas as 
artes (dentre as quais também a arte poética) lhe pertencem, mas todos os eventos que Young chama de 
“carismáticos” – como a fundação de um Estado – e que pertencem à composição na medida em que 
composição é integralmente sinônimo de acontecimento da verdade. Segundo o comentador, pensar no 
acontecimento da verdade fora das obras seria desconcertante num primeiro momento por duas razões: “a 
primeira é que, uma vez que as definições devem prover condições necessárias e suficientes para identificar 
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Heidegger conclui “A obra e a verdade” novamente reformulando a questão do 
ensaio. Ele pergunta agora: “em que medida se dá a arte?”, uma vez que na essência da 
verdade “há um rasgo para algo como uma obra”, e o pôr-em-obra da verdade fora 
determinado como a essência da arte. O rumo do texto se modifica, não mais obras 
determinadas serão o ponto de partida, mas uma análise do próprio vir-à-frente