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História das Relações Públicas

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Buscou-se, portanto, através destes investimentos em Comunicação – e em 
Relações Públicas, responsáveis pelo estabelecimento desta ponte – uma 
aproximação do presidente com as camadas populares. Nada mais necessário 
em tempos de manifestações, bem como em função do pouco carisma de que 
Figueiredo era dotado. Ele próprio fora dono de frases célebres, como a em que 
confessa preferir cheiro de cavalo a cheiro de povo... Tal posicionamento da 
revista, bem como de outros órgãos de imprensa, chegam a incentivar suspeitas 
de que, na época, ainda continuavam sendo feitos controles de informações, ou 
mesmo cerceamento à liberdade de informação. 
A criação da Secretaria provoca calorosos debates. Em texto publicado, na 
ocasião, pela revista Veja, são dispostas algumas das opiniões a respeito, onde 
são feitas comparações do SECOM com o DIP, antigo órgão regulador da 
imprensa e da propaganda no Brasil e representante do temido cerceamento das 
 
tutela duas empresas de economia mista, a Radiobrás e a Agência Nacional, esta transformada 
em Empresa Brasileira de Notícias”. (Revista Veja, São Paulo, Abril, 9 de maio de 1979, p.27) 
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liberdades. A revista aponta o posicionamento de Alceu de Amoroso Lima frente 
à questão, indicando concordar com a comparação feita pela oposição quanto 
aos dois departamentos. Ainda que a SECOM não dispusesse do mesmo poder 
do DIP, em se tratando de um momento histórico de abertura política, Lima 
enfatiza que o governo terá poder econômico em suas mãos: “A pressão 
econômica é igual ou pior que a pressão direta”.86 A publicação ressalta que 
 
Órgãos de imprensa que querem ou aceitam viver às 
custas do governo jamais precisariam de Secoms para se 
alimentar do erário. Da mesma forma, continuarão tão 
independentes como sempre foram os órgãos que nunca 
admitiram subordinar sem noticiário às verbas publicitárias 
do governo87. 
 
Farhat, titular da SECOM, rebate as acusações feitas à Secretaria, 
argumentando sobre o papel por ela exercido: “o novo órgão é um instrumento da 
política de abertura do governo Figueiredo”.88 
De acordo com José Faro, a SECOM, apesar das repercussões em torno 
de sua criação, teria sido responsável por um salto significativo no campo de 
Relações Públicas: 
 
Foi no campo de relações públicas que a SECOM adquiriu 
projeção. (...) Tratava-se, nesse âmbito, da construção de 
uma nova imagem para o presidente e da promoção de 
eventos cívicos e atividades culturais que fizessem aflorar a 
mística popular em torno do governante (FARO Apud 
KUNSCH, 1997, p.30-31). 
 
Justamente por investir em imagem, o campo de Relações Públicas, 
associado ao SECOM, pode ser um dos responsáveis pela construção de uma 
imagem positiva do presidente. Dentre as abordagens feitas pela imprensa, uma 
das maiores repercussões foi dada à questão da Anistia, aprovada em agosto de 
1979. A medida permitia a volta segura dos exilados do país, onde estavam 
 
85 BRASIL. Lei nº 6301 de 15 de dezembro de 1975. Presidência da República: Casa Civil. 
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil/LEIS/L6301.htm> Acesso em 10 de abril de 
2008. 
86 Nasce a Secom: desde já com críticas em várias frentes. Revista Veja, São Paulo, Abril, 9 de 
maio de 1979, p.27. 
87 Idem. 
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envolvidos músicos, artistas, intelectuais brasileiros, perseguidos desde 1964, 
ano do golpe cívico-militar. A lei da anistia abrangia ainda presos políticos e 
parlamentares cassados durante o governo dos militares. 
Em julho de 1979, ao reservar amplo espaço para falar do processo de 
Anistia, a revista Veja constrói a imagem de um presidente emocionado, que 
estaria por realizar um sonho de todos os brasileiros: 
 
Exultante, entre lágrimas e um sorriso afetuoso, o 
presidente João Baptista Figueiredo abraçou o irmão, o 
teatrólogo Guilherme Figueiredo: ‘Eu não disse que fazia? 
Eu não disse que fazia? E vou fazer mais!’ No salão leste 
do Palácio do Planalto, ocupado por três centenas de 
convidados, o presidente comemorava a promessa 
cumprida. ‘É o dia mais feliz da minha vida’, festejava. Era, 
por certo, uma data histórica.89 
 
Apesar do conturbado contexto brasileiro de 1979, no mesmo ano a 
Revista Veja retoma o slogan da ditadura militar, apostando no novo Brasil e no 
entusiasmo da presidência, como sendo um país que quer ir pra frente: 
 
 
88 Idem. Ainda segundo Farhat, “o governo apenas pretende arrumar e dar eficiência a um setor 
que há décadas vive na desordem – e não vai adquirir, por isso, mais poder econômico do que o 
que sempre teve”. 
89 A festa da anistia. Revista Veja, São Paulo, Abril, 4 de julho de 1979, p.14. 
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Figura 1: Anúncio publicitário revista Veja. 
Fonte: Revista Veja, São Paulo, Abril, 1979. 
 
Em reportagem publicada em 25 de julho de 1979, intitulada Rasgando a 
fantasia: o palácio do Planalto descobre que um general pode se transformar num 
presidente popular: Figueiredo consegue o que ninguém tentou, ressalta-se a 
mudança de imagem de Figueiredo, desde quando participava do governo Geisel 
até assumir o posto de chefe da nação. Neste sentido, a própria questão da 
imagem está associada à profissão de Relações Públicas. Exemplo dessa 
transformação está na fala da revista: “Com esse sorriso, encerra-se a fase dos 
presidentes sisudos. No estilo pessoal, Figueiredo distancia-se do general e 
retoma a vertente dos presidentes populistas, interessados em disputar a 
simpatia do povo”.90 
 
90 Revista Veja, São Paulo, Abril, 25 de julho de 1979, p.20. 
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A mudança de imagem de Figueiredo é tratada ironicamente na charge a 
seguir, que ressalta, em primeiro lugar, o sisudo general apaixonado por seu 
cavalo, dando lugar ao Superfiga, que buscaria salvar o país de problemas 
crônicos e as polêmicas instaladas em seu governo: 
 
 
 
 
 
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Figura 2: Superfiga. 
Fonte: Revista Veja, 25 de julho de 1979, p.21 a 25. 
 
A movimentação política foi garantida pela volta ao Multipartidarismo, 
também ocorrida em 1979. Com a implantação do regime militar a política 
brasileira passou a ser debatida entre dois partidos: a Arena (Aliança Renovadora 
Nacional), enquanto representante dos próprios militares, e o MDB (Movimento 
Democrático Brasileiro), enquanto movimento de oposição. Este momento de 
mudanças também alavancou polêmicas. Grupos de apoio à ditadura 
promoveram atentados contra bancas que vendiam jornais de esquerda. Bancas 
incendiadas e a explosão de cartas-bomba, tais qual a que fora enviada à OAB 
(Ordem dos Advogados do Brasil) sinalizam a instabilidade do momento e a 
necessidade de investimento em relações públicas do governo, como tentativa de 
manter a ordem e preservar a imagem da presidência. Episódios como estes que 
culminaram na explosão de duas bombas no Riocentro, no Rio de Janeiro, em 
1981, colaboraram para levar o governo a uma crise instaurada a repercussão 
pública.