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História das Relações Públicas

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Outros fatores agravam a situação. Como conseqüência da crise 
econômica e da inflação, ao mesmo tempo em que indicam o rumo para uma 
abertura democrática, estouram as grandes greves. Um dos exemplos mais 
Cláudia Peixoto de Moura (Organizadora) 
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significativos deste processo é a greve dos metalúrgicos do ABC paulista, 
liderados por Luis Inácio Lula da Silva. Exemplo da movimentação grevista do 
momento é ilustrado em índices publicados em 1979: 
 
Greves do Governo Figueiredo 
 
INDÚSTRIA Nº de greves Homens / dia parados Nº de grevistas 
Metalúrgicos 6 2.780.000 200.000 
Outros* 3 10.000 10.000 
Total 9 2.790.000 210.000 
 
SERVIÇOS 
Motoristas e 
cobradores 
8 223.000 120.000 
Professores 13 9.035.000 400.000 
Médicos e 
Residentes 
9 370.000 15.000 
Lixeiros 4 5.400 2.200 
Jornalistas 1 12.000 2.000 
Outros ** 2 34.000 15.000 
Total 37 9.679.400 544.200 
 
Total geral 46 12.469.400 754.200 
* Trabalhadores em frigoríficos, fábricas de borracha e numa indústria têxtil. 
** Funcionários do Jockey Club de São Paulo e dos postos de gasolina do Rio. 
Fonte: Revista Veja, 11 de julho de 1979, p.34. 
 
O conturbado contexto vivido é que salienta a possibilidade de atuação do 
SECOM, bem como de Relações Públicas, junto à construção da imagem do 
presidente. A suspeita era de que Figueiredo era produto de uma fábrica de 
imagem. Entretanto, Farhat afirmava sobre Figueiredo: ele é o que é. 91 
Figueiredo já começava a contar com bom Ibope, o que motiva o SECOM a 
encomendar pesquisas de opinião deste instituto. A imprensa passa a 
 
91 Revista Veja, São Paulo, Abril, 25 de julho de 1979, p.23. 
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acompanhar os passos do presidente pelo Brasil, dando especial atenção à 
receptividade conferida ao governante. 
A partir de 1979, ano marcado pelas atividades do SECOM e pelo 
investimento na imagem da presidência, nota-se um crescimento das atividades 
de Relações Públicas, conforme salienta Kunsch: “o final do regime militar 
obrigou as empresas e outras organizações a buscarem um aumento de sua 
transparência e de seu diálogo com os diversos segmentos da sociedade” 
(KUNSCH (Org.), 2001, p. IX). 
No mesmo ano realizou-se em São Paulo a XIV Conferência 
Interamericana de Relações Públicas, cujo tema geral foi “Análise das Relações 
Públicas nas Américas em face do Acordo do México”.92 
A criação do SECOM, conforme Kunsch (1997), teve influência nas 
organizações, que foram levadas a renomear seus departamentos de Relações 
Públicas e, a partir daí, uma tentativa de elaborar uma comunicação integrada. 
Como exemplo temos a Rhodia, com sua Gerência de Comunicação Social, que 
era formada pelas divisões de imprensa e que englobavam a assessoria de 
imprensa e publicações, a divisão de relações públicas, que englobava os 
projetos institucionais e comunitários e a divisão de marketing social, que 
englobava a publicidade, a valorização do consumidor e a pesquisa de mercado: 
 
Foi nos anos 80 que a Rhodia assumiu uma nova postura 
no País. De empresa fechada e desconhecida do grande 
público, transformou-se em uma organização de "portas 
abertas", adotando um Plano de Comunicação Social que 
revolucionou a relação empresa-sociedade. Como 
decorrência disso, a empresa implantou o DVC - 
Departamento de Valorização do Consumidor - em todas as 
áreas de atuação e criou a figura - até então inédita - do 
ombudsman93. 
 
Conforme salientamos anteriormente, um país em tempos de mudança 
necessitava de modificações também no campo profissional, de forma a 
acompanhar o processo de modernização. De acordo com o que aponta Kunsch: 
 
92 Através do Acordo do México foi elaborada a definição operacional da atividade de relações 
públicas: “O exercício da profissão de relações públicas requer ação planejada, com apoio da 
pesquisa, comunicação sistemática e participação programada, para elevar o nível de 
entendimento, solidariedade e colaboração entre uma entidade, pública ou privada, e os grupos 
sociais a ela ligados, em um processo de integração de interesses legítimos, para promover seu 
desenvolvimento recíproco e da comunidade a que pertencem” (KUNSCH, 1997, p. 50). 
Cláudia Peixoto de Moura (Organizadora) 
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Tratava-se, em síntese, de reconhecer que a antiga 
estrutura de relações públicas não correspondia mais às 
necessidades e aos anseios da sociedade e das próprias 
empresas, que passaram a postular atividades e programas 
integrados de comunicação (KUNSCH, 1997, p. 33). 
 
Em 1980 a SECOM é extinta, sendo criada uma secretaria de Relações 
Públicas, que também é extinta pouco tempo depois, em 1981. O Presidente da 
República sancionou o Decreto nº 85.630, de 7 de janeiro de 1981, instituindo no 
Gabinete Civil da Presidência da República, a Secretaria de Relações Públicas e 
a Secretaria de Imprensa. O artigo 2º do Decreto estabelecia que “à Secretaria de 
Relações Públicas incumbe exercer as atividades de órgão central do Sistema de 
Comunicação Social do Poder Executivo, reorganizado pelo Decreto nº 83.539, 
de 4 de julho de 1979”. O Presidente da República sancionou o Decreto nº 
85.795, de 9 de março, extinguindo a Secretaria de Relações Públicas e a 
Secretaria de Imprensa e criando, no Gabinete Civil, a Secretaria de Imprensa e 
Divulgação (GURGEL, 1985, 3. ed., p. 66). Neste ano, instala-se o Sindicato dos 
Trabalhadores de Relações Públicas do Rio Grande do Sul. 
Porém, as relações públicas perderam parte do seu espaço por falta de 
uma visão estratégica, até que passaram a repensar as necessidades das 
organizações e começaram a se desenvolver no âmbito das relações públicas 
comunitárias. Com isso, foi possível mostrar que a área não poderia estar apenas 
ligada ao governo e às empresas, mas sim abranger também os movimentos 
sociais. Este fato foi percebido ainda em 1980, com a criação do Prêmio Opinião 
Pública, pelo Conrerp da 2º Região – São Paulo e Paraná, na gestão de 
Nemércio Nogueira. No regulamento do prêmio foram incluídas as categorias de 
projetos institucionais de entidades sem fins lucrativos e de projetos institucionais 
para associações e entidades. A fase final do governo dos militares seria 
justamente marcada por uma onda de movimentos sociais, em função da volta à 
liberdade de expressão e à liberdade democrática, de que as Relações Públicas 
fariam parte. 
 
Até a pouco tempo, as relações públicas eram vistas 
apenas como uma atividade empresarial ou governamental. 
 
93 RHODIA. Disponível em: < http://www.br.rhodia.com> Acesso em 10 de abril de 2008. 
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Os currículos das faculdades de Comunicação Social e 
mesmo a literatura existente eram mais direcionadas nessa 
linha. Hoje as relações públicas já começam a ser 
aplicadas também em outros campos como, por exemplo, 
no meio rural, nas entidades de classe, em organizações 
sm fins lucrativos etc. São novas alternativas que estão 
propiciando grandes perspectivas de trabalho para o futuro 
e constituem mesmo um desafio para os profissionais do 
setor (TORQUATO Apud TEIXEIRA, 2002, p.61). 
 
O crescimento do campo profissional de Relações Públicas é assinalado 
por sua rápida trajetória a partir do governo Figueiredo. Enquanto o Brasil fazia 
movimentos em prol do retorno à normalidade democrática, tais como o 
movimento Diretas Já, de 1984, reivindicando a volta das eleições diretas para 
presidente,