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HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

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seja o sermão um gênero literário, e haja de fazer parte da história
da literatura, parece incontestável que só o será e só caberá nela quando tenha sido posto por escrito. Sem isto pertenceria
quando muito à literatura oral, e desta não há história.30
O sermão, porém, teve no passado uma importância, mesmo literária, muito grande, muito maior do que tem hoje.
Social ou mundanamente foi um divertimento, um espetáculo que, conforme o pregador, podia despertar interesse e atrair
concurso tão alvoroçado ou numeroso de ouvintes como outros quaisquer do tempo: um auto de fé, uma corrida de touros,
um jogo de canas, uma representação teatral ou alguma solenidade da Corte. Mas, como espetáculo gratuito e aberto ao
povo, era mais concorrido do que estes, só a abastados ou favorecidos acessíveis. Tanto mais que não constituía o sermão só
por si o espetáculo, mas era apenas um “número” nos que a igreja oferece aos seus fiéis, com a prodigalidade, a pompa, a
encenação semipagã das suas pitorescas cerimônias. Ajudava, pois, o sermão a sociabilidade de uma gente de natureza
retraída e triste, qual a portuguesa, em tempo em que à sociabilidade se deparavam poucos ensejos de exercer-se. Servia de
elemento de instrução pela discussão de problemas morais e noções de toda a ordem, que ao redor deles forçosamente
surgiam, e mais pela forma de os expor. De um ou de outro modo, excitavam as inteligências, punham e resolviam questões,
assentavam ou retificavam opiniões, suscitavam emoções e forneciam, como os discursos acadêmicos ou parlamentares de
hoje, temas às conversações. Foi a sua repetição importuna e corriqueira, a sua vulgarização, a trivialidade dessaborida e
fatigante dos seus processos, dos seus estilos, dos seus “truques” a inópia do pensamento, invariavelmente o mesmo, que o
alimentava, e da língua constantemente a mesma que falava, com o mesmo arranjo e corte do assunto, o mesmo aparelho de
erudição, idênticos recursos retóricos, e até iguais entonações e gestos no orador, que acabaram com o sermão, como gênero
literário estimável. Prejudicou-o também a sua cada vez mais crescente incoerência com os tempos. Foi um grande expediente
de propaganda e edificação religiosa, e ainda moral, não só quando as almas eram mais sensíveis a tal recurso de lição oral
bradada de cima de um púlpito, mas quando, sendo pouco vulgar a imprensa, e menos ainda a capacidade de leitura,
encontrava o sermão nas massas analfabetas ou pouco lidas, ou ainda com poucas facilidades de ler, ouvintes numerosos e
de boa vontade. Com a multiplicação dos livros, mesmo religiosos, à literatura parenética oral se foi substituindo a literatura
piedosa escrita. Ceci tuera cela. E a decadência do sermão acompanhada com grande avanço pela da oratória sagrada, não
diminuiu apenas a importância do gênero; teve ainda uma influência retrospectiva. Amesquinhou lançou no olvido os produtos
do seu bom tempo.
Na língua portuguesa o único orador sagrado que porventura ainda tem leitores é o padre Antônio Vieira. Tem-nos aliás
antes como clássico muito apreciado da língua, como exemplar de escrita vernácula e numerosa, que como professor de
religião ou moral. Nem há já, mesmo entre as pessoas piedosas, se não são de todo ignaras, quem lhe sofra a filosofia
inconsistente ou a ciência e erudição atrasadíssimas ainda para o seu tempo, além dos obsoletos e até ridículos processos
retóricos. Na língua francesa também não há mais de três oradores sagrados com leitores. Bossuet, Massillon e Bourdaloue.
Destes mesmo o que mais se lê, quiçá o único ainda em verdade lido, é Bossuet. Nenhum deles é, aliás, como também não
foi Vieira, apenas orador sagrado. Foram personagens consideráveis no seu tempo, e, além de ações memoráveis, deixaram
obras literárias pelas quais se recomendam e à sua obra oratória. São justamente tais ações, o papel que desempenharam e a
influência que tiveram na sua época os dois maiores deles, Bossuet e Vieira, que mais que os seus méritos literários lhes
fazem viver os sermões.
Nenhum dos sermonistas brasileiros coloniais exerceu no seu meio e tempo ação ou influência que se lhes refletisse nos
sermões, dando-lhes a vida e emoção que ainda descobrimos nos de Vieira. Nenhum, também, em que pese aos seus excessivos
elogiadores, possui qualidades essenciais ou formais que lhe dessem aos sermões publicados, — que os inéditos esses de
todo não pertencem à literatura — aquilo que lhes não pôde emprestar a sua existência obscura.
Desses o que, parece, teve mais talento, melhor língua estilo e mais força oratória foi o padre Antônio de Sá (1620-
1678), jesuíta, natural do Rio de Janeiro. Exerceu o Ministério do púlpito no Brasil e em Portugal e, parece, também
ocasionalmente em Roma, ao mesmo tempo em que ilustrava o púlpito português o padre Vieira. Deste foi, como acontecia
com todos os pregadores da época, discípulo e seguidor. Dos seus sermões, avulsamente publicados ainda em sua vida, e
depois coligidos em 1750,31 se verifica que por alguns aspectos o foi superiormente. Para o nosso gosto atual, talvez
sobrelevando ao mestre e êmulo no estilo nimiamente ornado e culto do tempo, e notavelmente de Vieira, com quem o nosso
bairrismo literário o tem querido emparelhar. Nem pela cópia, número e mais excelência de linguagem, nem pelo teso,
vigoroso e pessoal do estilo, nem pelo arrojo, riqueza e variedade da imaginação e dos tropos acompanha Antônio de Sá a
Vieira, do qual é, ainda com valor próprio que se lhe não pode negar, pálido reflexo. Mas também o não acompanha no
gongorismo, no abuso dos trocadilhos e menos no atrevimento e despejo de conceitos e comparações com que o celebrado
orador português, no seu materialismo religioso, roça não raro pela chocarrice e pela indecência, senão pela blasfêmia.32
Não obstante os seus reais méritos, a boa qualidade da sua língua e estilo, mesmo o talento que revela em seus sermões,
Antônio de Sá é apenas um nome que se encontra nas antologias didáticas e cuja obra, fora dos curtos trechos destas,
ninguém mais lê e quase todos ignoram inteiramente.
É que de fato, a despeito do nosso catolicismo consuetudinário, os sentimentos que o inspiraram não têm mais a virtude
de interessar-nos e comover-nos. E só vive a obra literária cuja emoção geradora persiste apesar do tempo, sempre capaz de
provocar em nós emoção idêntica. Isto é que o sermão, quando se não misturam nele, como nos de Bossuet ou Vieira,
interesses verdadeiramente humanos, ou bocados da nossa vida e das nossas paixões, quando é apenas expediente de edificação
religiosa, não mais consegue. Perdeu, pois, o essencial dos atributos literários: o dom da emoção.
Numerosos nomes de pregadores podem, no período colonial, juntar-se ao do padre Antônio de Sá e os nossos historiadores
literários não se têm poupado a fazê-lo. Uns viram as suas obras publicadas, as de outros o foram posteriormente. Alguns são
apenas mencionados por noticiadores, às vezes posteriores de um século, o que não impediu fossem por aqueles julgados e
elogiados, como se os houveram conhecido mais que por vagas notícias. Nem há como verificar as versões que uma vez
inventadas vão sendo repetidas sem crítica por quantos do assunto têm escrito. Se o maior deles, como parece ter sido
Antônio de Sá, sumiu-se de todo no recesso escuro de alguma livraria pública, onde apenas lhe freqüentem a obra insetos
bibliófagos, e não há descobrir-lhes o influxo na mentalidade do seu tempo na sua literatura, parece inútil, ou vão alarde de
facílima erudição, nomear os outros.
A oratória sagrada no Brasil foi sem dúvida, no período colonial e no início do nacional, uma revelação e porventura um
estimulante, em estreitos limites aliás, da cultura do momento. Era uma das formas por que se manifestava a inteligência e
cultura brasileira, principalmente eclesiástica. Mas como outras dessas formas