A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
185 pág.
HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

Pré-visualização | Página 26 de 50

e além da feição por assim dizer oficial da sua composição, é perluxa,
enfática e inchada de pensamento e linguagem. Justamente o excessivo floreio de estilo com que foi intencionalmente
escrita, e que no-la torna desagradável, fazia-a no seu tempo estimável e foi, não de todo sem razão, estimada.
Escrita em estilo de prosa poética, como se fora um poema em louvor do Brasil, com mais entusiasmo e arroubo de
sentimento patriótico do que com a serenidade e o bom juízo da história, marca justamente a transição da poesia a que quase
exclusivamente se reduzia a nossa produção literária para a prosa em que íamos começar a mais freqüentemente exprimir-
nos. Os seus censores oficiais, sujeitos dos mais doutos do tempo, cobriram-na de louvores, não só à sua composição, mas
ao seu merecimento de obra histórica. Gostava-se então do que ora nos despraz. A frase de Rocha Pita acham-na eles
“verdadeiramente portuguesa, desafetada, pura, concisa e conceituosa”. Afora o casticismo, aliás de mau cunho, não pode a
crítica hoje senão verificar-lhe as qualidades opostas, isto é, a prolixidade, a afetação, o inchado do frasear e o abuso de
conceitos corriqueiros ou rebuscados. De seu valor histórico disseram os censores cousas justas e boas, se bem prejudicadas
pelo seu tom hiperbólico, aliás consoante com o do livro.
O mérito incontestável da História de Rocha Pita, ainda com as restrições que do ponto de vista das exigências da
história se lhe possam fazer, o de ser a mais completa publicada, como lhe reconheceram os censores oficiais, não o era só
para os portugueses que assim podiam melhor informar-se dos sucessos da sua grande colônia. Aos brasileiros, o livro do
historiador baiano, escrito num estilo que lhes seria muito grato ao paladar literário e sentimento nativista, ensinava-lhes a
história da sua terra, sublimando-a por tal forma, que eles se ufanariam de serem seus filhos.
A velha tendência de apreço e gabo da terra, primeiro vagido do nosso brasileirismo, gosto e louvor não artificial e de
estudo, mas natural e espontâneo, por inspirá-lo realmente a grandeza e opulência dela, tendência manifesta, como temos
visto, desde os primeiros representantes espirituais do povo aqui em formação, aparecia agora na obra de Rocha Pita como
que raciocinada, sistematizada na prosa túmida e florida do seu primeiro historiador publicado. E desde então esse feitio
empolado e hiperbólico de dizer da nossa pátria (casando-se aliás perfeitamente com o excesso de detratação ela) seria um
rasgo notável do nosso sentimento nacional, manifestando-se literariamente. Apenas haverá d’ora avante poeta ou prosador
que não a celebre e cante com os arroubos líricos do seu historiador Rocha Pita. Graças à sua influência, tão consoante com
o nosso próprio gênio, será ela magnificada sobre posse, a exata noção da sua natureza deturpada, a sua geografia falsificada,
as suas verdadeiras feições escondidas ou desfiguradas sob postiços e arrebiques de patriotismo convencional ou simplório.
Das nossas mofinas montanhas, pouco mais que colinas comparadas com as do antigo continente, ou com as de outras
regiões do nosso, não teve Rocha Pita pudor de escrever que “umas parecem ter os ombros no céu, outras penetrá-lo com a
cabeça”. E os demais aspectos naturais do Brasil são assim por ele engrandecidos.
Ufana-se e embevece-se na enumeração hiperbólica da nossa fauna e flora, e no seu ingênuo entusiasmado aceita e
propala as noções errôneas que ainda viciam a nossa história natural popular com a existência de feras temíveis, de gados
que se alimentam de terra, cobras que trituram o “maior touro” e o devoram. Muitas das nossas abusões e enganos da
opulência e feracidade da nossa terra, ilusões umas porventura auspiciosas, outras certamente funestas, vieram de Rocha
Pita e de sua influência.
Em meio onde a história era apenas um tema literário e até retórico, sem disciplina científica ou rigoroso método de
investigação e crítica, não era despicienda a obra do escritor brasileiro. Compendiava e ordenava não sem capacidade e num
estilo ao sabor da época, as dispersas e desconcertadas noções da história do país e vulgarizava-as em forma acessível e
simpática. Os seus defeitos e falhas não seriam aos contemporâneos tão patentes quanto avultam para nós.
Poder-se-ia incluir aqui, e não deixaram de fazê-lo os historiadores da nossa literatura, um outro brasileiro, o padre
Francisco de Souza, natural da ilha de Itaparica, na Bahia, onde nasceu em 1628, falecido em Goa, na Índia portuguesa, em
1713. Em Lisboa publicou ele em 1710 o seu grosso livro Oriente conquistado a Jesus Cristo pelos padres da Companhia
de Jesus na província de Goa, notável exemplar da historiografia e da linguagem e estilo do tempo. Tendo vivido mais de 80
anos, dos quais a máxima parte em Portugal e na Ásia, e escrito de cousas de todo estranhas ao Brasil e segundo o espírito
e a maneira portuguesa, esse nosso patrício apenas o é pelo acidente do nascimento. Literariamente ainda nos pertence
menos que Gabriel Soares ou o autor dos Diálogos das grandezas.
Da mesquinheza poética da maior parte do século XVIII, surde entretanto, pelo seu último terço, uma por todos os
títulos considerável produção poética. Também, ao menos pelo número e mérito particular de informação, aparecem trabalhos
históricos que constituem contribuição notável à prosa brasileira. No momento assinalado, uma plêiade de poetas brasileiros
entram a concorrer dignamente com os poetas portugueses contemporâneos, a fazerem-se bem aceitos da literatura mãe.
Mais brasileiros que nenhuns outros até aí, por mais vivo sentimento da terra natal ou adotiva, ao qual já porventura podemos
chamar de nacional, estabelecem esses poetas a transição da fase puramente portuguesa da nossa literatura para a sua fase
brasileira. Esta, iniciada pelo romantismo ao cabo do primeiro terço do seguinte século, terá nalguns deles os seus inconscientes
precursores.
São em suma esses poetas, reunidos sob a denominação, a meu ver imprópria, de “escola mineira”, quando apenas
formam um grupo literário, sem algum rasgo característico que coletivamente os distinga, os que enchem esse período de
transição e o constituem. Com a criação das academias literárias, o crescimento da população, o seu desenvolvimento
mental e econômico e mais o das comunicações da colônia com o Reino, aumentou consideravelmente o número de
versejadores, cujos nomes constam de repertórios e livros de consulta especiais. Da multidão desses sobressaem, com
qualidades que lhes asseguram um lugar à parte, aqueles a quem, não obstante não passarem de seis, me proponho a chamar
englobadamente de plêiade mineira: Santa Rita Durão, Cláudio Manoel da Costa, Basílio da Gama, Alvarenga Peixoto,
Tomás Gonzaga e Silva Alvarenga. Estes merecem lugar separado nesta História.
Outros contemporâneos seus, Domingos Caldas Barbosa (1740-1800), Antônio Mendes Bordalo (1750-1806), Domingos
Vidal de Barbosa (1760-1793?), Bartolomeu Antônio Cordovil (1746-1810?), Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha (1769-
1811), e que tais versejadores que impertinentemente têm sido anexados à chamada escola mineira, de todo não pertencem
ao grupo de poetas com que indiscretamente a formaram. Alguns lhe não pertencem sequer cronologicamente, como Tenreiro
Aranha, nascido quando este grupo já ia em adiantada formação. São demais tão insignificantes que podemos dispensar-nos
de os levar em conta no estudo da nossa evolução literária. Deles é um dos de melhor engenho o mulato ou crioulo Caldas
Barbosa. Nasceu no Rio de Janeiro por volta de 1740 ou nesse ano, e faleceu em Lisboa em 1800. Passou o maior tempo da
sua vida em Portugal, como familiar, parasita, quase fâmulo dos condes de Pombeiro, capelão e poeta mercenário dessa
família fidalga e generosa. Não tem nenhuma superioridade, porém apenas valerá menos que