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HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

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toda a cultura. Nas festividades feitas em Mariana, em 1748, por ocasião da ereção do bispado e posse do
seu primeiro prelado, nos outeiros e academias realizadas como partes das festas, numerosos versejadores e letrados recitaram,
além de discursos congratulatórios e sermões penegíricos, grávidos de erudição latina e hidrópicos de hipérboles, dúzias de
poemas, curtos e longos, décimas, sonetos, elegias, acrósticos, cantos heróicos, glosas, silvas, epigramas, em latim e em
português.69 Da lição e cultura da capitania podemos fazer idéia pelas livrarias particulares nela àquele tempo existentes.
Dão-nos informação a respeito os autos de seqüestros feitos nos bens dos implicados na chamada Conjuração Mineira. Além
dos livros profissionais de estudo e consulta, constituíam-nas geralmente os melhores autores latinos no original e gregos no
original e em traduções latinas, e mais os franceses Descartes, Condillac, Corneille, Racine, Bossuet, Montesquieu, Voltaire,
tratados e dicionários de história e erudição, as décadas de Barros e Couto, os poetas clássicos portugueses, e também Tasso,
Milton, Metastásio, Quevedo, afora dicionários de várias línguas, obras de matemáticas, ciências naturais e físicas e outras.70
Ainda em antes de findar o primeiro quartel do século, começaram a manifestar-se em Minas sintomas de descontentamento
da metrópole e de hostilidades aos seus propostos à governança da capitania. Contam-se desde então alguns alvorotos e
motins, pomposa e impropriamente apelidados de revoltas e até de revoluções pelos historiadores indígenas, contra o governo
colonial. Reprimidos alguns com a bruta violência com que em todos os tempos todos os governos presumem impedir o
natural levante contra os seus desmandos, a sua repressão apenas serviu para desenvolver ou acirrar a animadversão do
brasileiro contra o reinol. Dos governadores da capitania os houve fidalgos da melhor nobreza portuguesa, homens de corte
e de sociedade, talvez com os vícios e defeitos nessas comuns, mas em todo caso com as prendas que eram o apanágio de sua
classe. Acompanhavam-nos outros gentis-homens, que com os filhos da terra mais graduados por educação, haveres, famílias
e postos, faziam em Vila Rica, a pitoresca capital de Minas, uma pequena corte. Festas de igreja, freqüentes e pomposas,
cavalhadas, canas e outros divertimentos do Reino para aqui, a que acudiam os vizinhos desde Diamantina, Mariana e mais
longe, e animavam.
Mais numerosa e mais densa que nenhuma outra do Brasil, a população de Minas, aquela ao menos que tinha Vila Rica
por centro imediato, sentia-se melhor o contacto recíproco, criador da solidariedade. Sendo a mais rica, era também a mais
isenta, a mais desvanecida de suas possibilidades. Este desvanecimento bairrista tinha-o Tiradentes em sumo grau. O espírito
localista, feição congênita dos mineiros, oriundos das condições físicas e morais do desenvolvimento da capitania, fortificava
ali o nativismo ou nacionalismo regional. O sentimento da liberdade e da independência, atribuído geralmente aos montanheses,
parece ter em Minas mais uma vez justificado o conceito. Foi este meio que produziu a floração de poetas que é a plêiade
mineira. Em qualquer outro do Brasil o seu aparecimento se não compreenderia.
Esses poetas são: Santa Rita Durão (17...-1784), Cláudio da Costa (1729-1780), Basílio da Gama (1741-1795), Al-
varenga Peixoto (1744-1793), Tomás Gonzaga (1744-1807?), Silva Alvarenga (1749-1814). Estes são os que formam o
grupo até aqui impropriamente chamado de escola mineira, e que chamaremos, porventura, com mais propriedade, a plêiade
mineira. Além destes, e pelo mesmo tempo, produziu Minas muitos outros poetas, somenos a este, meros versejadores
ocasionais, como sempre os houve aqui, dos quais nenhum ultrapassou a fama local contemporânea. Os mais miúdos
noticiadores nomeiam: Joaquim Inácio de Seixas Brandão, Joaquim José Lisboa, Antônio Caetano Vilas Boas da Gama,
irmão de Basílio, Diogo Pereira Ribeiro de Vasconcelos, Francisco Gregório Pires Monteiro Bandeira, Miguel Eugênio da
Silva Mascarenhas, Silvério Ribeiro de Carvalho, Francisco e Domingos Barbosa, Matias Alves de Oliveira. São nomes sem
outra significação e valia que o de servirem para atestar a existência em Minas de forças poéticas que ajudam a explicar a
formação daquela plêiade.
Mas a só influência deste meio, onde nasceram e se criaram, não bastaria a explicar-lhes o estro e surto poético, e menos
a atividade literária. A esse primeiro influxo pátrio juntou-se preponderantemente o de sua longa permanência na Europa, do
seu convívio em um ambiente social e literário mais estimulante dos seus dons nativos do que seria a sua terra e o meio, em
suma acanhado, em que se haviam criado. O contrário aliás passou com Tomás Gonzaga, do grupo o único que não era
brasileiro, e o único de quem se pode dizer que foi o Brasil que o fez poeta. Não se conhece com efeito nenhuma produção
anterior às liras de Marília de Dirceu, e estas resultaram de seus amores malfadados com uma brasileira, e, concomitantemente,
de sucessos em que se achou envolvido no Brasil, que aos seus louros de poeta juntaram a coroa de mártir da liberdade.
I — OS LÍRICOS
Quando se lhes formou o espírito aos poetas mineiros ou começavam eles a poetar, viçava em Portugal o arcadismo,
movimento propositadamente iniciado ali por meados do mesmo século XVIII contra o gongorismo do século antecedente.
O arcadismo, porém, foi mais que uma escola, um estilo literário. Ao contrário dos seus manifestos intuitos não conseguiu,
se não muito parcialmente, nem desbancar o seiscentismo, nem fazer regressar as letras portuguesas, como era o seu propósito,
à natureza e ao natural, à nobre simplicidade, à pureza da frase, à verossimilhança dos pensamentos. Aliás estas virtudes
nunca foram comuns nessas letras. E no arcadismo ficaram ainda ressaibos demasiados do sescentismo contra o qual se
organizara.
Os poetas mineiros, como os demais poetas brasileiros da mesma época, nenhum benemérito de menção particular, são
antes de tudo Arcades, ainda quando não pertencem efetivamente a alguma das Arcádias do Reino. No Brasil nenhuma
houve com existência real de sociedade organizada de poetas. As de que se fala não passaram de imaginações e fingimentos
seus. Como Árcades portugueses, eles não foram somente ao geral dos seus contemporâneos da metrópole, antes, como
reconheceu Garrett e o têm verificado outros historiadores da literatura portuguesa, contribuíram para lhe avultar e enriquecer
a poesia naquela época. O que decididamente os sobreleva àqueles e os torna mais notáveis e, para nós ao menos, mais
interessantes, são as suas novas contribuições à poesia portuguesa, com as quais também entra a nossa a se distinguir dela.
Introduzem um novo elemento de emoção, o seu nativismo comovido, o seu patriotismo particular; um novo assunto, a gente
e a natureza americana, e com isto, e resultante disto, novos sentimentos e sensações, indefiníveis talvez mais sensíveis, que
o meio novo de que eram, do qual ou no qual cantavam, lhes influía nas almas. Escapando, pelo seu mesmo exotismo ao
predomínio absoluto das tradições literárias portuguesas, ao rigor da moda poética então na metrópole vigente, puderam ser
e foram mais naturais, mais isentos dos defeitos e vícios em que se desmanda ali essa moda. São, em suma, menos gongóricos
que os portugueses, sacrificam muito menos à mitologia e ao trem clássico do que eles.
Segundo a ordem cronológica de sua manifestação, Cláudio da Costa é o primeiro destes poetas. Nasceu no Sítio da
Vargem, distrito da cidade de Mariana, aos 5 de junho de 1729, de João Gonçalves da Costa, português, e Teresa Ribeiro de
Alvarenga, mineira. Seu pai ocupava-se de mineração e lavoura. Por parte de pai, seus avós eram portugueses, e de mãe
brasileiros, de São Paulo e de boa