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HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

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e publicista ou sabedor e escritor de questões públicas, políticas e administrativas,
do que como literato, se bem tenha sido o visconde de Cairu um dos brasileiros de mais vasta literatura. Contemporâneo de
Adam Smith, o criador da economia política, parece foi o nosso patrício o primeiro que nas línguas neolatinas escreveu
dessa nova ciência, divulgando desde 1798 as idéias do pensador inglês. As três principais obras de Silva Lisboa sobre a
matéria são Princípios de direito mercantil (1798-1803), Princípios de economia política (1804) e Estudos de bem comum
(1819-1820). Conta-se que Monte Alverne, mais que seu adversário teórico, seu inimigo pessoal e inimigo rancoroso como
saía ser, entrando na sua aula de filosofia do seminário de S. José no dia da morte de Cairu, com um gesto desabrido, com
que acaso escondia o sentimento, declarara “que não dava aula porque morrera um grande homem, apesar de que a sua
cabeça não passava de uma gaveta de sapateiro”. Também a antipatia, em que pese a Carlyle, aguça a inteligência e facilita
a compreensão. A frase atribuída ao soberbo frade90 traduz na sua vulgaridade uma impressão exata da copiosa, desigual e
disforme obra do douto e laboriosíssimo escritor que foi Cairu. Consta-lhe a produção impressa ou manuscrita de setenta e
sete números de obras maiores ou menores de direito, economia política ou social, história, questões do dia e públicas,
didascálica, jornalismo, polêmica, pedagogia, moral.91 Como composição, fatura, estilo, esta produção é irregular, desigual
e ainda extravagante e disparatada, revendo à pressa e até à precipitação do trabalho, a excitação ou a paixão do momento,
o produto de ocasião. A literatura dela só podia aproveitar pequeníssima parte, a História dos principais sucessos políticos
do Brasil por exemplo, a Vida de Wellington e pouco mais. Esta mesma, porém, carece de predicados literários que a
recomendem à nossa estima. Em todos os gêneros produtos das circunstâncias, as obras de Cairu não sobrevivem às que as
produziram.
Mariano José Pereira da Fonseca, quase somente conhecido pelo seu título de marquês de Maricá, vinha do tempo dos
últimos vice-reis do Brasil, um dos quais o Conde de Resende, sob a inculpação de inconfidente, o teve preso por mais de
dois anos. No vice-reinado de Luís de Vasconcelos fundaram alguns homens de estudo e letras do Rio de Janeiro, o doutor
Manoel Inácio da Silva Alvarenga, mestre régio de retórica e conhecido poeta da plêiade mineira, João Marques Pinto,
mestre régio de grego, o médico Jacinto José da Silva, o nosso Mariano José Pereira da Fonseca e outros letrados, uma
sociedade literária. As reuniões periódicas destes homens de letras, em tempos em que ainda estava fresca a lembrança da
chamada Conjuração Mineira, cujos sócios eram em maioria também homens de letras, foram havidas por suspeitas, dissolvida
a sociedade e presos e processados os seus membros.
Mariano da Fonseca nasceu no Rio de Janeiro em 1773, e na mesma cidade faleceu em 1848. Formou-se em matemática
e filosofia em Coimbra, o que correspondia à profissão de engenheiro. Como aconteceu geralmente a todos os brasileiros de
instrução e mérito da época da Independência, teve importante situação política e social no primeiro reinado, distinções
honoríficas e altos cargos, senador, conselheiro de Estado. Aos quarenta ou quarenta e um anos começou a publicar no
Patriota, de Araújo Guimarães, as suas Máximas, pensamentos e reflexões, sob o pseudônimo de Um brasileiro. Porventura
para lhes dar o peso da autoridade de maior experiência, mais tarde, em nova edição que delas fez, declarou havê-las escrito
dos sessenta aos setenta e três. Norberto lhe reparou no equívoco e o corrigiu com razão.92 De 1837 a 1841 publicou, já sob
o título de marquês de Maricá, as suas Máximas, pensamentos e reflexões em três partes respectivamente, distribuindo-as
gratuitamente. Como ele tenha depois facultado a todos a reimpressão das suas obras, devemos crer que esta rara generosidade
obedecia a um pensamento de interesse pela doutrinação moral dos seus patrícios. O marquês de Maricá, como La
Rochefoucauld, com quem mui indevidamente o comparou uma crítica mais patriótica que esclarecida, não escreveu em sua
vida senão máximas. Ele próprio as computou, na última coleção que delas imprimiu, em 1845. É, pois, segundo a qualificação
moderníssima e depois do autor do Compêndio do peregrino da América e de Matias Aires, o primeiro moralista da nossa
literatura. Não tinha, porém, uma filosofia sua ou sequer alheia afeiçoada pela sua própria experiência e meditação. Repete
os lugares comuns da ética contemporânea, mistura de cristianismo sentimental e de liberalismo político. A sua psicologia,
escolástica e vulgar, jamais vai ao fundo das cousas, nem descobre na alma humana novidades ou aspectos recônditos ou
inéditos. À sua observação falta finura e penetração, ou originalidade. Faz parte da vulgar sabedoria comum e ele não a
soube relevar pelos dons singulares de expressão que o gênero requer, e que são porventura o principal mérito dos seus
grandes modelos franceses. Máximas e pensamentos, valem talvez principalmente pela forma que revestem. São o imprevisto,
o ressalto, junto à concisão e à justeza desta que os valoriza. O escolho do gênero é a banalidade, clara ou mascarada com
o paradoxo ou a singularidade. Neste escolho bateu freqüentemente o marquês de Maricá. Nem por isso perdem as suas
Máximas a importância que lhe assinalei de primeiro exemplar do moralismo leigo e literário em a nossa literatura. E para
o comum dos leitores que dispensam no assunto refinamentos, sutilezas de idéias e expressão, podem ser leitura agradável
e proveitosa, porque o essencial é são e a forma escorreita, sem rebusca indiscreta de purismo e já do nosso tempo e gosto.
José Feliciano Fernandes Pinheiro, visconde de S. Leopoldo, nascido em Santos (S. Paulo) em 1774 e falecido em Porto
Alegre (Rio Grande do Sul) em 1847, foi sujeito considerável pela sua ilustração e alta situação social e política no reinado
do primeiro imperador. Formado em direito pela Universidade de Coimbra, em Portugal fez os seus primeiros trabalhos
literários, traduções e compilações de assuntos de imediata utilidade prática, ali publicados de 1799 a 1801. No Brasil, após
haver exercido diversas comissões de serviço público, foi eleito em 1821, deputado às Cortes da nação portuguesa quando
da reforma governamental por que esta passou, e como tal tornou a Portugal. Espírito conservador e moderado, foi dos
poucos deputados brasileiros que juraram a constituição por elas feita. De volta ao Brasil em seguida à declaração da
Independência, foi aqui deputado geral, presidente de província, ministro do Império, senador e ocasionalmente encarregado
de uma missão de caráter diplomático. Por estes serviços teve o título de visconde de S. Leopoldo, nome por que ficou quase
exclusivamente conhecido. Além de memórias biográficas de compatriotas ilustres ou sobre limites do Brasil e ainda
monografias interessantes para a nossa história literária,93 escreveu uma obra notável para o tempo e ainda hoje estimável,
Anais da Capitania de S. Pedro.94 Como livro, quero dizer, sob o puro aspecto bibliográfico, o mais bem feito dessa época,
o mais perfeito de composição e estrutura. Não obstante algumas incorreções de linguagem, galicismos e alguns mais graves
defeitos de estilo, a sua redação revê o homem educado em Portugal e a leitura dos portugueses. A língua é geralmente
melhor do que aqui comumente escrita. Como historiador distingue-se já o visconde de S. Leopoldo por bom critério
histórico, aptidões críticas, capacidade de apurar os sucessos nos documentos autênticos de preferência originais ou inéditos,
informação segura das fontes ou informes impressos do assunto ou a ele aproveitáveis, arte de dispor e referir os fatos