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HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

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e,
notavelmente, menos prolixidade como era, e continuou a ser, de costume. As suas Memórias, publicadas postumamente na
Revista do Instituto Histórico (tomos 37-38), conquanto lhes falte o interesse das revelações inéditas e mesmo das indiscrições,
que principalmente dão relevo e pico a este gênero de literatura, sem que lho levante também um estilo mais literário, são
todavia, até pela raridade delas nas nossas letras, estimáveis.
Todos os mais autores de prosa desta mesma fase ainda menos consideráveis são. Nenhum é um escritor que se faça
todavia ler com aprazimento.
Capítulo VIII
O ROMANTISMO E A PRIMEIRA GERAÇÃO ROMÂNTICA
TIVESSE O PRÍNCIPE regente de Portugal, logo depois rei D. João VI, o propósito de preparar o Brasil para a independência,
não haveria porventura procedido tão atilada e eficazmente. Por uma série de medidas econômicas e políticas, mal chegado
ao Brasil havia ele começado a reforma completa do velho regime colonial, naquilo justamente que mais devia concorrer
para despertar nos brasileiros o sentimento da sua personalidade e importância e lhes acoroçoar veleidades porventura
latentes de autonomia e emancipação. A autonomia nos dera de fato a transplantação da realeza para cá, a elevação do Brasil
a reino e a ereção do Rio de Janeiro em capital da monarquia portuguesa. A emancipação surgiria do conflito dessa autonomia
com a insensata contrariedade que lhe criou a reação recolonizadora portuguesa.
Da geração que testemunhou, acompanhou e até fomentou ou promoveu os sucessos da nossa independência política,
surgiu um seleto grupo de homens de estudo e letras que lhe completaram o feito insigne, dando à recente nação o abono
indispensável da sua capacidade de cultura. É esse grupo que, sob o aspecto literário, chamo a primeira geração romântica,
quero dizer os escritores que, influenciados pelo Romantismo europeu e seguindo-lhe aqui os ditames, apareceram de 1836
em diante e cuja atividade se dilatou por um quarto de século.
Além de Monte Alverne (1784-1858), que foi de algum modo um precursor do movimento como o mais escutado
preceptor filosófico dos seus principais fautores, e de Magalhães, o seu iniciador, mormente constituem essa geração intelectual,
Porto Alegre (1806-1879), amigo e êmulo de Magalhães; Teixeira e Sousa (1812-1861); Pereira da Silva (1817-1898);
Varnhagen (1819-1882); Norberto da Silva (1820-1891) e, o maior deles, Gonçalves Dias (1823-1864). Outros nomes
podiam alongar esta lista, nenhum, porém, com a significação e importância de quaisquer destes.
Distingue-se esta geração pela versatilidade dos talentos, variedade da obra e propósito patriótico da sua atividade
mental. Quase todos eles, senão todos, são poetas, dramaturgos, novelistas, eruditos, críticos, publicistas, e Porto Alegre
será demais pintor e arquiteto. No seu ardor pelos créditos intelectuais de sua pátria, parecia quererem completa a sua
literatura; que se não limitasse, como até então, quase exclusivamente à poesia.
Quando todos eles se faziam homens, o cônego Januário da Cunha Barbosa, que com grandes créditos de literato e
orador sagrado vinha da geração anterior, zeloso dos interesses mentais da novel pátria, fundou com outros letrados e
homens de boa vontade o Instituto histórico, geográfico e etnográfico brasileiro. Com a publicação do Parnaso Brasileiro
(1829), foi este o melhor serviço prestado por Januário Barbosa, não só às nossas letras, mas à nossa cultura. Teve o Instituto
histórico, em verdade, o papel de uma Academia que, sem restrições de especialidades, se abrisse a todos as capacidades
nacionais e a todos as lucubrações por pouco que interessassem ao Brasil. E assim, de propósito ou não, deu ao movimento
espiritual que se aqui operava uma base racional no estudo da história, da geografia e da etnografia do país, compreendidas
todas largamente. Os principais românticos foram todos seus sócios conspícuos e colaboradores da Revista que desde 1839
começou o Instituto histórico a publicar trimensalmente. A todos os literatos brasileiros do tempo serviu esta instituição de
traço de união e confraternidade literária e de estímulo.
Além de patriótica, ostensivamente patriótica, a primeira geração romântica é religiosa e moralizante. Estas feições
fazem que seja triste, como aliás será a segunda. Somente a tristeza desta é a do ceticismo, do desalento e fastio da vida,
segundo Byron, Musset, Espronceda e quejandos mestres seus. A melancolia de Magalhães e seus parceiros é a tristeza de
que penetrou a alma humana o sombrio catolicismo medieval. Na alma portuguesa, donde deriva a nossa, aumentou-a a
forçada beataria popular, sob o terror da Inquisição e o jugo, acaso pior, do jesuitismo. Rematava-a o descontentamento
criado nesses brasileiros pela desconformidade entre as suas ambições intelectuais e o meio. Já em prosa, já em verso, todos
eles lastimam-se da pouca estima e mesquinha recompensa do gênio que, parece, acreditavam ter e do desapreço do seu
trabalho literário. Não tinha aliás razão. Era inconsiderado pretender que um povo em suma inculto, e de mais a mais
ocupado com a questão política, a organização da Monarquia, a manutenção da ordem, de 1817 a 1848 alterada por todo o
país, cuidasse de seus poetas e literatos. Não é, todavia, exato que, apesar disso, os descurasse por completo. O povo amava
esses seus patrícios talentosos e sabidos, revia-se gostosamente neles, acatava desvanecido os louvores que mereciam aos
que acreditava mais capazes de os apreciar. Supria-lhe esta capacidade, o sentimento patriótico restante dos tempos ainda
próximos da Independência, e a ingênua vaidade nacional com ela nascida. O imperador começou então o seu mecenato,
nem sempre esclarecido, mas sempre cordial, em favor dessa geração que lhe vinha ilustrar o reinado. D. Pedro II, que por
tantos anos devia ser a única opinião pública que jamais houve no Brasil, iniciou por esse tempo a sua ação, ao cabo
utilíssima, na vida intelectual da nação. Prezando-se de literato e douto, apreciou pelo seu povo incapaz de fazê-lo, e
acoroçoou e premiou esses seus representantes intelectuais. Se não todos, a maioria da primeira geração romântica, com
muitos outros depois dela, em todo o reinado, mereceram-lhe decidido patrocínio. Revestia este não só a forma de sua
amizade pessoal, que aliás nunca chegava ao valimento, porém a mais concreta e prestadia de empregos, comissões, honrarias.
E, louvados sejam, não lhe foram ingratos. As principais obras em todos os gêneros dessa época são-lhe dedicadas, em
termos que revêem o reconhecimento da munificência imperial. Todos eles foram fervorosos e sinceros monarquistas,
menos aliás por amor do princípio que do monarca. E se não pode malsinar-lhes ou sequer suspeitar-lhes a dedicação,
sabendo-se quão escrupuloso era o imperante nos seus favores e quão parco era deles. Mas a vaidade, infalível estigma
profissional, destes literatos, se não contentava desta alta estima; quisera mais, quisera o impossível, que, como nas principais
nações literárias da Europa, dessem às letras aqui consideração, glória e fortuna. Foi esse, aliás, um dos rasgos do Romantismo,
o exagero da vaidade nos homens de letras e artistas, revendo a intensidade do descomedido individualismo da escola. Os
dessa geração, porém, ainda tiveram pudor de não aludir sequer à feição material das suas ambições, pudor que, passado o
Romantismo, desapareceria de todo, principalmente depois da emigração de literatos estrangeiros, industriais das letras, e
da invasão do jornalismo pela literatura ou da literatura pelo jornalismo. A desconformidade entre aqueles nossos primeiros
homens de letras e o meio, essa, porém, era real, continuou e acaso tem aumentado com o tempo. E basta para, com a
mofineza sentimental que, sobre ser muito nossa, era também da época, explicar o matiz de tristeza da