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HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

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outro exemplo na poesia da nossa língua, magnificências de descrições
verdadeiramente primorosas, revelando no poeta o artista plástico, um nobre intuito quase sempre felizmente realizado de
pensamento, correção quase impecável de versificação, vernaculidade estreme, engenhosas audácias de criação e de expressão,
e outras qualidades que o fazem uma das mais excelentes tentativas para reviver na nossa língua, se não nas literaturas
contemporâneas, essa espécie de poemas. Mas os gêneros ou formas literárias valem também por sua conformidade com o
tempo que os produziu. O poema de Porto Alegre vinha já de todo obsoleto e inoportunamente, com um maquinismo poético
apenas suportável na pura lenda e não em uma epopéia de fundo histórico. Representa um em todo caso nobre esforço de
vontade de uma inspiração que não podia ser natural e espontânea, por desconforme com tudo quanto constitui a mentalidade
e estimula o estro do poeta. O leitor pode admirar o meio sucesso desse ingente esforço. Mas não lhe sente emoção capaz de
comovê-lo até lhe fazer aceitar essa nova criação épica. O Colombo é uma obra mais de razão e de inteligência que de
instinto e sentimento, como foram os monumentos poéticos que ele anacronicamente procurava continuar.
II — TEIXEIRA E SOUSA
Fluminense, como a maior parte dos primeiros românticos, Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa nasceu em Cabo Frio
aos 28 de março de 1812 e faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 1.º de dezembro de 1861. Teve algo de romântica a vida
do criador do romance brasileiro. Filho legítimo de um português com uma preta, apenas fazia os seus primeiros estudos
quando se viu obrigado, pela precária situação econômica da família, a abandoná-los e adotar uma profissão mecânica, a de
carpinteiro. Por alguns anos exerceu este ofício no Rio de Janeiro, para onde viera de Itaboraí com o fim de nele aperfeiçoar-
se. Cinco anos depois regressou à terra natal. Tinham-lhe morrido os quatro irmãos mais velhos. Aos vinte anos achou-se só
no mundo, com escassíssimos bens que lhe herdara o pai. Senhor de si, voltou aos estudos com o mesmo antigo ardor e o
mesmo mestre, o cirurgião Inácio Cardoso da Silva, professor régio em Cabo Frio, e também poeta, cujos versos Teixeira e
Sousa mais tarde piedosamente reuniu e publicou. Em 1840 voltou ao Rio de Janeiro, onde a simpatia de cor, de engenho
poético e de amor às letras facilmente o ligou a Paula Brito.
Francisco Paula Brito (1809-1861) é, na sua situação secundária, uma das figuras mais curiosas e mais simpáticas dessa
época literária. Nascido no Rio de Janeiro, de gente de cor e humilde, chegou-lhe a puberdade e juventude em pleno
movimento da Independência e estabelecimento da monarquia, e dessa época conservou o ardor patriótico e o desvanecido
nacionalismo que a assinalou. De quase nenhumas letras, mas inteligente e curioso, despertou-se-lhe o gosto por aquelas e
pelos seus cultores no trato de umas e outros, no exercício do seu ofício de tipógrafo. Mais tarde montou uma imprensa de
conta própria, à qual anexou uma loja de livros. Como fosse muito caroável de literatos, a quem com periódicos que fundou,
como a Marmota (1849-1861), oferecia a satisfação de se verem publicados e louvados, a sua loja, no antigo Largo do
Rossio, tornou-se o prazo dado da mocidade literária do tempo, e, como era igualmente patriota ardente e chefe político de
bairro, freqüentavam-no também homens públicos notáveis, doutores e outros letrados. Por ser a sua loja um centro de
notícias, palestras e novidades da vida urbana que não seriam sempre de extrema veracidade e antes facilmente mentirosas,
deu-lhe o povo a alcunha de “A Petalógica”. Foram seus habituados todos os nossos primeiros e ainda muitos dos segundos
românticos, de todas as graduações. Desse comércio com letrados, a inteligência aberta e pronta de mestiço de Paula Brito
tirou o melhor proveito. Ele também se fez escritor e poeta. Aliás o foi em tudo mediocremente, revelando apenas um
generoso esforço e excelentes intenções de servir as letras nacionais, e a mesma sociedade, com publicações de caráter
educativo, moralizador e patriótico, edições de obras brasileiras e também com as suas produções em prosa e verso. Mais
rico de boa vontade que de bens de fortuna, não só acolheu, apresentou, protegeu os jovens de vocação literária que o
procuravam, como festejou, celebrou, preconizou os literados já feitos, mecenas quase tão pobre e desvalido como os seus
protegidos, e sequer sem idoneidade para mentor literário, teve entretanto o amável Paula Brito ação apreciável e frutuosa
no momento em que a sua loja, se não ele, era o centro da vida literária no Rio de Janeiro.
Teixeira e Sousa foi simultaneamente empregado e colaborador literário de Paula Brito, em cuja célebre loja conheceu,
imagina-se com que cândida admiração, os sujeitos mais afamados em letras, a roda literária, habituada da Petalógica. Aí
repartia o tempo que lhe deixava a freguesia entre ouvir aqueles personagens e escrever os seus primeiros versos. Começou
por composições dramáticas, mas como se lhe não abrissem as portas do teatro, e na doce ilusão de ganhar mais alguma
cousa do que lhe podia dar o patrão e amigo, fez romances. Escusa dizer que nem versos nem romances lhe deram fortuna.
Era, porém, uma real vocação literária, desajudada embora de gênio e de cultura. Não só não desanimou, mas na constância
do engano que lhe acalentava a ambição, e vendo a proteção que recebiam alguns letrados, imaginou compor um poema que
lha atraísse. E o compôs numa improvisação rápida, em doze cantos de oitava rima, à moda de Camões. Escritos os seis
primeiros, foi com eles, como carta de recomendação, ao ministro da Fazenda solicitar-lhe um emprego. Deu-lhe o prócere
o de guarda da Alfândega com 400 mil-réis anuais, o que para o tempo e situação do poeta não seria tão mau como figurou
Norberto na biografia de Teixeira e Sousa. O poema é A independência do Brasil, mais um dos muitos pecos rebentos da
árvore camoniana, e este de todo mofino.102 A crítica, com Gonçalves Dias à frente, foi-lhe impiedosa. À vista, porém, da sua
condescendência habitual com não melhores frutos da musa indígena contemporânea, é lícito supor que a humildade de
condição do poeta fosse parte na justiça que lhe faziam. Desse péssimo poema salvou-se o autor com um verso que, como
aquele também único verso da tragédia troçada por Pailleron, é bom, e ficaria proverbial:
Em nobre empresa a mesma queda é nobre.
Magalhães o citaria, sem nomear o autor, no seu prefácio dos Fatos do espírito humano, deturpando-o. Um escritor
português, com a incoercível antipatia com que quase sempre olharam os escritores seus patrícios para os nossos, chamou-
lhe de Camões africano. Esquecia que Camões como Teixeira e Sousa os tem havido em barda na sua terra, como lhe não
lembrava que desde o século XV havia uma numerosíssima escravaria negra em Portugal... Auxiliado por amigos e associado
a Paula Brito, abandonando o mesquinho emprego, abriu uma oficina tipográfica conjuntamente loja de objetos de escritório.
Casou, fez família e maus negócios, fechou a loja e aceitou para viver o lugar de mestre-escola do Engenho Velho com casa
e 800 mil-réis anuais, nomeado pelo marquês de Monte Alegre. Sem jeito nem gosto pela ingrata profissão de mestre de
meninos, pediu ao Ministro Nabuco lhe desse a escrivania vaga de Macaé. Nabuco fez melhor, nomeou-o para uma escrivania
da Corte, o que era para ele quase a abastança: escrivão da Primeira Vara do Juízo do Comércio do Rio de Janeiro. Foi isto
em 1855. Mal passados seis anos morria Teixeira e Sousa com 49 anos de idade. Fora carpinteiro, tipógrafo, caixeiro,
revisor de provas, guarda da Alfândega, editor, mestre-escola e por fim escrivão do Foro. Mas sobretudo foi, com mal
empregada e malograda vocação, homem de letras. E não as tinha de