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um 
integrante de um rebanho e vai seguindo um caminho que ele não traça, que não escolhe, um 
caminho que ele não sabe qual é, que ele segue apenas dentro de um mecanismos de massa, 
diríamos nós hoje. Ele diz, não, é preciso, a palavra é de origem grega, é preciso ser de alguma 
maneira autêntico, voltar a si mesmo, ser autêntico, voltar à sua própria natureza, à sua própria 
naturalidade, talvez a gente devesse dizer. 
 
 Jogo e Memória 
 
E mais ainda, o homem é capaz de um outro recurso extraordinário porque ele é desviante, 
porque ele só é livre na medida em que ele desvia, ele pode através do seu equipamento interior, 
das suas imagens interiores, ele que está tentando sobreviver na construção do seu trabalho 
interior apenas por recursos próprios, ele tem que fazer uma seleção dentro do seu imaginário 
pessoal, do seu acervo de lembranças, ele tem que fazer um jogo de imagens. Se a sensação 
imediata é terrível, como Epicuro sofrendo com cálculos na bexiga, ele pode naquele momento 
em que a dor é aguda, a dor física é aguda, ele pode substituir, numa técnica que ele é o primeiro 
a ensinar, substituir essa sensação imediata e dolorosa por uma lembrança prazerosa de alguma 
sensação passada positiva, ou seja, se nós conseguirmos, é a proposta dele, fazer com que nós 
fossemos nós mesmos os manipuladores, os diretores do nosso próprio imaginário, se nós 
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conseguíssemos montar o nosso filme interior como sendo um filme, não só da nossa autoria, mas 
da nossa direção, se nós pudéssemos selecionar as nossas imagens nós poderíamos o tempo todo 
buscar em nós as imagens positivas e contrabalançar com as imagens positivas as sensações 
imediatas, escravizantes e dolorosas. 
 
A nossa realidade não se mede e não se constrói apenas a cada instante com aquilo que o mundo 
é a cada instante. A cada instante do mundo corresponde em nós uma multiplicidade, uma 
infinidade de instantes presentes, passados e futuros, ou seja, a temporalidade que é típica da 
consciência, a temporalidade dá uma elasticidade interior ao homem e é usando isso 
adequadamente que o homem consegue livrar-se da adversidade imediata que parece ser um 
fatalismo e recolher-se à riqueza maior do seu arsenal de imagens e aí, como ele é senhor de si 
mesmo, ou deve ser senhor de si mesmo, aí onde não existe nenhum Alexandre, aí onde não 
existe nenhum tirano, onde só ele pode ser o senhor ou o escravo, se ele mesmo se escravizar, é aí 
que ele vai poder ter a autonomia de viver o instante que ele quer viver, a forma de viver cada 
instante depende não apenas do instante, digamos assim que lhe é imposto de fora, mas 
dependendo de como ele usa essas lembranças, esse acervo, esse tesouro de imagens para ver se 
ele dá uma adesão restrita àquilo que vem de fora, e se for negativa ele está escravizado a dor, ou 
se ele diante de uma coisa negativa que vem de fora, ele porque tem uma flexibilidade temporal 
maior de consciência com memória, mas também com esperança, com passado, mas também com 
expectativa no futuro, ele vai podendo então contrapor-se, ele não é apenas um reflexo das 
circunstancias. 
 
Não há adversidade externa que decida do nosso projeto ético pessoal. Em qualquer circunstância 
política, social e econômica, não importa, a dimensão pessoal de felicidade, a dimensão pessoal 
do prazer, a dimensão pessoal da busca do bem, a dimensão pessoal da busca da serenidade, é 
uma tarefa exclusivamente subjetiva, intransferível e que só pode ser feita por cada um, só que no 
apoio dos que se aproximam do mesmo ideal e dos que se propõem, juntos no jardim, buscar esse 
tipo de vida, criar esse tipo de existência. 
 
Tetraphármakon 
 
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Nós podemos perceber bem o significado da ética em Epicuro a partir de um fato que ocorreu no 
século passado. Certos arqueólogos decobriram no território da Turquia, em Enoanda, os restos, 
as ruínas de uma muralha onde há uma inscrição. Essa inscrição é curiosa, é estranha porque na 
verdade são frases de teor filosófico, na verdade, são trechos de um texto de Epicuro, que o 
epicurista de Enoanda, Diógenes, teria escrito, teria gravado na muralha justamente para que essa 
mensagem epicurista pudesse estar ao alcance de qualquer um. Qualquer um que passasse por ali, 
indiscriminadamente, seja homem, mulher, criança, de qualquer nacionalidade pudesse ler aquilo 
que era uma espécie de resumo da suprema sabedoria humana. Quatro frases podem resumir essa 
sabedoria e estão nas inscrições de Enoanda. A primeira: não há nada a temer quanto aos deuses. 
A segunda: não há necessidade de temer a morte. A terceira: a felicidade é possível. A quarta: 
podemos escapar à dor. Na verdade isso é um resumo, como se fosse uma medicação, como se 
fosse uma receita, da ética de Epicuro. 
 
O modelo da questão da saúde que é uma das imagens mais recorrentes do vocabulário ético 
aparece aí com toda a clareza. O que Diógenes de Enoanda esta procurando transmitir a qualquer 
pessoa que passasse nas muralhas da sua cidade é uma espécie de receita, uma espécie de 
indicação médica de um grande médico da alma que foi seu mestre Epicuro. Esse remédio é um 
tetraphámakon e é bom lembrar que a palavra, a linguagem é dita pelos gregos sempre como um 
phármakon, como uma substância que tanto pode ser uma substância que cura, quanto uma 
substância que envenena, dependendo da dose, dependendo da forma com que ela é transmitida. 
Aí a receita médica desse médico de almas que é Epicuro, chega através de uma cadeia afetiva de 
amizade e tende a ser entregue a qualquer um que passe, mostrando exatamente toda a dimensão 
dessa mensagem ética. 
 
A felicidade não é alguma coisa natural, espontânea, a felicidade é uma conquista, é um direito de 
todo e qualquer um. Ninguém nasceu impedido de ser feliz, ao contrário, todos podem e devem 
buscar o bem, o prazer, a serenidade e a felicidade e não importando que seja homem, mulher, 
criança, adulto, estrangeiro, grego, turco, brasileiro, não importa, ele é sempre alguém que nasceu 
para a felicidade, só que essa felicidade jamais lhe será outorgada ou transmitida, ou doada por 
uma divindade, por um ser superior. Ela é o resultado de uma labuta, de uma luta, incessante luta 
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de auto domínio e de auto liberação, de criação do espaço da sua autonomia e de busca 
permanente do seu prazer, do seu prazer sábio, sereno. 
 
Onde é território humano, é só humano e ali só depende de nós a conquista do bem, da alegria, do 
prazer e da felicidade. 
 
A Culpa dos Reis 
 
Antônio Cândido 
 
Eu creio que em uma série sobre a Ética é interessante nós termos alguns exemplos das ações 
históricas concretas. E talvez também de grandes obras literárias que descrevem num sentido 
simbólico essas ações históricas. 
 
Ricardo II 
 
Eu acho que caberia muito no caso uma peça como Ricardo II, de Shakespeare. Porque temos 
nessa peça um rei que manda e é obedecido e um rei que e depois é assassinado. Nós temos, 
portanto, problemas éticos muito graves que são problemas de fidelidade, de obediência, de 
legitimidade, de amizade, de transgressão, tudo isso entra no Ricardo II. 
 
O importante aí, mais do que o enredo, o importante são os princípios que estão em jogo. 
Inicialmente, o princípio que chama mais a nossa atenção é o princípio da legitimidade. Porque é 
a legitimidade que vai assegurar um sistema de relacionamento na sociedade. O que é bem, o que 
é mal, o que é certo e o que é errado se organiza em torno da legitimidade, porque se organiza em 
torno da obediência, ou da desobediência ao rei. É uma peça em que nós temos o conflito da 
obediência com a desobediência, em outras palavras, o mando com a transgressão. Isso vai 
assumir nessa peça, Shakespeare