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direito divino puro porque ele é um príncipe afastado na ordem da sucessão, mas ele tem 
eficiência. À medida em que ele tem eficiência ele é um rei que satisfaz as necessidades 
imediatas do governo. Ele assume o poder na base da sua capacidade e não na base da sua 
legitimidade e essa capacidade vai legitimá-lo. Nós estamos, portanto, chegando em uma era da 
história em que a fonte de legitimação do poder vai mudar, vai ser a capacidade da promoção do 
bem público, a capacidade prática de realizar as tarefas necessárias para o bem público, é isso que 
Henrique representa. 
 
Do Divino ao Humano 
 
Em Ricardo II, em toda a peça, ele se compara sempre com coisas de ordem alegórica, mítica. 
Por exemplo, ele diz que é o sol, eu sou o sol, aliás, na história o símbolo dele se tornou como 
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símbolo náutico, o sol. Na cena no meio da peça, numa cena importantíssima, quando ele volta da 
Irlanda, cheio de esperança. A esperança dele está baseada no fato dele ter a força do sol na 
natureza. A Inglaterra estava mergulhada em trevas, porque Henrique Bolembroock representava 
a negação do direito, o mal. Ele é o bem porque ele é o sol, o sol dá vida às plantas. O sol, 
portanto dará vida a Inglaterra, o rei sol dará vida ao Estado. Enquanto que Henrique 
Bolembroock não. Henrique Bolembroock em nenhum momento faz qualquer comparação 
metafórica consigo mesmo, ele só se baseia na eficiência de suas ações, ele provoca ações, ele 
aproveita das ações. Nós temos aí, portanto, um rei antigo, um rei cuja parte mitológica é decisiva 
e nós passamos para um rei que é moderno, um rei eficiente, que depende da política que ele 
exercer e, a parte mitológica, a parte sagrada diminui e fica meramente virtual. 
 
Então nós temos a abdicação e há duas imagens fundamentais, belíssimas. Uma ele diz ao primo 
usurpador: o reino, essa coroa que eu estou te dando é como um poço, e nós dois somos como 
dois baldes que sobem e descem do poço, pela roldana. Eu sou o balde que desce para o fundo 
carregado de lágrimas, e você é o que sobe triunfante para ser coroado. Mas eu quero uma coisa, 
tenho um capricho, eu quero um espelho, traga-me um espelho! Então esta, ao meu ver, é a 
imagem psicologicamente fundamental da peça. Porque é o rei e o homem em presença, são o rei 
e o homem em presença. Porque, vejam bem, quando a pessoa exerce o mando é ele e o outro, 
qualquer um de nós pode fazer a experiência disso. Um chefe de equipe de televisão, ele é ele, o 
fulano, e ele é o homem que tem a responsabilidade de fazer o programa funcionar. Então ele é 
obrigado a inclusive fazer atos que ele não faria espontaneamente, ele pode demitir um 
funcionário, ele pode dar uma punição por um erro, de modo que há sempre no exercício do 
mando o eu e o outro. Ora, essa cena do espelho, é a cena que projeta literariamente e 
psicologicamente essa divisão entre o eu e o outro na estrutura do mando. Ele pede o espelho. 
Quando ele pega o espelho tem dois, o rei e o homem Ricardo. Então tem um diálogo admirável 
em que ele fala sobre a queda dele e quebra o espelho. Quando ele quebrou o espelho, quebrou o 
rei, restou apenas o homem. Agora não sobra mais nada pra ele. 
 
Mas vejam bem, são imagens materiais, é o poço, são os baldes, é o espelho, é a manufatura. 
Acabou o sol, acabou o sangue, acabou a seiva, acabou o jardim. Nós estamos agora na escala 
miúda da humanidade, o homem se destacou do rei. Então, no ato quinto, há uma tentativa de 
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rebelião sufocada e o rei diz, mas será que não vou ter sossego? Será que não há alguém pra me 
livrar desse pesadelo? O adulador diz, escuta isso, vai a onde o rei esta preso e mata o rei. Aí 
acabou realmente a supressão física, que é muito bonito, do ponto-de-vista de uma certa filosofia 
do mando, não ficando impunemente, porque o mando pode inclusive levar ao crime. O rei pra 
poder mandar ele teve que mandar matar o primo, então eu diria que a morte é o limite do mando. 
Quer dizer, o mando vai desde da admoestação amena até a execução, até a privação de vida. É, 
portanto, um processo extramente complexo, é um processo que envolve a nossa humanidade a 
fundo, e é o processo que no Ricardo II, está simbolizado, alegorizado de uma maneira realmente 
extraordinária. 
 
Maquiavel e O Príncipe 
 
Alfredo Bosi 
 
Eu gostaria de dizer alguma coisa sobre Maquiavel, que é sem dúvida o fundador da ciência 
política. No “O Príncipe”, no seu pequeno livro que ele chamava, o seu livrinho, que ele escreveu 
no exílio, “O Príncipe”, há uma relação não mais de transcendência, isto é, o Estado não precisa 
realizar aquelas virtudes que levam ao céu, que seria realmente uma posição medieval, com 
inspiração platônica. 
 
O Estado precisa realizar os projetos específicos do príncipe, que por sua vez, no caso de 
Maquiavel, tem como finalidade assegurar a unidade italiana. Então vejam, agora, são motivos 
históricos concretos, motivos históricos próximos, que movimentam, que estimulam a ação do 
governante. O governante será bom se ele for eficaz, se ele conseguir unificar a Itália, portanto 
submeter os outros príncipes mais frágeis, uma política de poder, de Florência em relação às 
demais comunas. Se ele conseguir essa unificação, em nome da gloriosa Itália, que já estava 
esfacelada nessa época do Renascimento. Se ele conseguir perpetuar-se no poder, a idéia de que o 
poder deve ter uma continuidade e que a habilidade do príncipe é agradar a uns, submeter a 
outros para que se conserve a estabilidade do Estado. 
 
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Maquiavel, tantos anos depois, na mesma Florença, lutará para criação da política como uma 
ciência, uma técnica independentemente de uma ética transcendente. Aí realmente, com 
Maquiavel, nós entramos na modernidade, no sentido amplo do que eu possa chamar de 
modernidade, tudo o que veio depois com o Renascimento italiano, com a Reforma Protestante. 
 
 
Moral/Política 
 Antônio Cândido 
 
Maquiavel foi o primeiro pensador que mostrou que a esfera da moral é separada da esfera da 
política. Não é que a esfera da moral não exista, se eu estou na esfera da moral eu tenho que 
cumprir os preceitos. Maquiavel não era contra as normas éticas, só que ele diz o domínio da 
política é um domínio separado, a política é uma técnica social, nós diríamos hoje, é uma técnica 
social, portanto, a política permite coisas que a moral não permite. E o grande dirigente é aquele 
que é capaz de violar inclusive sua consciência a favor de sua missão política. Isto é, mesmo 
quem não leve este texto de Maquiavel, é uma verdade, isto é uma verdade. É um governante, por 
exemplo, que manda prender, manda matar o seu filho que traiu. O cônsul Julio Bruttus na 
República Romana, o filho traiu, ele manda matar. Como pai, é uma suntuosidade, como cônsul, 
é uma obrigação dele. É isso que Maquiavel quer dizer, não é dizer que a política acaba com a 
moral. São duas esferas e cada uma tem suas exigências próprias. 
 
Fins/Meios 
 
Então surgiu a famosa idéia de que os fins justificam os meios. Eu não aceito essa afirmação. Eu 
tenho uma visão dialética, eu acho que fins e meios são termos de um processo muito complexo, 
que estão sempre em jogo. Você nunca tem só fins e você nunca tem só meios. Você tem sempre 
um jogo dos fins e dos meios que você tem que harmonizar pra ser o mais ético possível, com o 
máximo de eficiência possível, portanto eu não aceito essa idéia e nem creio que Maquiavel 
aceitasse. Maquiavel não falaria de dialética naquele tempo, mas se eu formulasse isso pra ele era 
capaz dele dizer “se non evero, be nem trovato”. Ele poderia aceitar porque eu acho que é isso. 
 
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Deus e o Diabo 
 
Renato Janine Ribeiro 
 
A política moderna é também