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na esfera pública, for 
capaz de tratar os fins políticos através de meios não violentos, isto é, não tratando seres humanos 
como coisa, o sujeito como objeto, nós temos uma política ética. 
 
Segundo critério: embora a ética se realize no campo da vida privada, o que a ética busca nessa 
esfera que lhe é própria é a idéia de que nenhuma autoridade é legítima se ela for despótica, se ela 
for arbitrária, se ela se realizar como expressão da vontade individual e injustificada de alguém. 
Nesse caso é a política que vai ajudar a ética, na medida em que o próprio da esfera pública é 
afastar a autoridade despótica, isto é, aquela autoridade que se exerce como uma vontade pessoal, 
individual, arbitrária, acima de todas as outras. Assim, agora, a relação vem da política para a 
ética, em que a política auxilia a ética na luta contra as formas arbitrárias da autoridade no 
interior da vida privada significa, por exemplo, que a posição do pai, da mãe, do avô, da avó, do 
patrão, do chefe não é tão simples, que não basta a vontade dele pra que a autoridade dele seja 
eticamente legítima. A política, portanto, nos ajuda a melhorar a própria ética. 
 
E o terceiro critério: é o critério que vai, que pode valer pra ética e pra política, que é a 
redefinição da idéia mesmo de liberdade. Invés de nós pensarmos a liberdade como direito de 
escolha, vale a pena pensar a liberdade como o poder de criar o possível, ou seja, a liberdade é 
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essa capacidade dos seres humanos de fazer existir o que não existia, de inventar o possível, de 
inventar o novo. E, se a liberdade for pensada dessa maneira, a relação entre a ética e a política 
pode-se dar com a criação histórica na esfera privada e na esfera pública. 
 
O Poder de Criar o Possível 
 
Estou convencida de que há uma única forma da política compatível com a ética e uma única 
modalidade da ética compatível com a política. A forma política é a democracia, e essa forma 
ética é a liberdade através dos direitos. Então, como a democracia é o campo da criação dos 
direitos e, como a ética é a afirmação dos direitos, através do direito fundamental que é o direito à 
vida e a liberdade, a compatibilidade entre a ética e a política só pode ocorrer quando o campo da 
política permite o tratamento dos conflitos e quando o campo da ética permite a divulgação dos 
seus princípios. Então, eu diria que é a possibilidade de dar a ética um conteúdo público e dar a 
política um conteúdo moral, que ocorre na democracia. Eu acho que não foi por acaso, pra ir lá 
no meu ponto de partida, não foi por acaso, que os inventores da política, os gregos, 
considerassem que era só na política que a ética se realizava. E por política eles entendiam a 
democracia como a igualdade perante as leis, que é a isonomia; e o direito a expor, discutir e 
votar a opinião em público, que é a isegoria. Então se nós considerarmos que o campo da ética é 
o campo da liberdade, e o campo da política é também o campo da liberdade, só uma forma 
política na qual esse princípio possa se realizar é que torna viável uma relação entre a ética e a 
política. O que significa que o ideal ético da visibilidade só pode se realizar na prática política da 
democracia e vice e versa. Evidentemente, isso seria um ponto de partida, isso não é uma 
conclusão, pelo contrário. Se assim for, nós temos que começar tudo de novo, porque nós temos 
que recomeçar a discutir a desigualdade, a violência, a mentira, a corrupção, a privatização e a 
oficialização estatal das nossas vidas. 
 
Ética, Informação e Recorte 
 
José Miguel Wisnik 
 
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Toda imagem é um recorte, se apresenta como um recorte da realidade. Na verdade ela retira uma 
porção de realidade do seu contexto original e transfere essa imagem pra um outro contexto, onde 
ela vai ganhar uma nova significação necessariamente. 
 
A imagem, mesmo que ela seja uma reprodução do real, ela é sempre, de algum modo, uma 
violenta interpretação do ponto de partida, do seu ponto de partida. Porque a imagem é tirada do 
seu lugar de origem e ela é montada num outro lugar, num outro contexto. 
 
Jornalismo e Literatura 
 
Nós podemos dizer que essa questão da representação ela é central pra representação literária e 
pra representação jornalística. Mas, na representação literária, nós podemos dizer que quando nós 
começamos a ler uma história, nós sabemos que aquela história de saída está nos propondo uma 
situação imaginária, uma situação ficcional e, portanto, o contexto é dado pela própria história, 
ou seja, a própria história que vai criar as regras pra que a gente leia os acontecimentos que se 
dão ali. Então, nós podemos começar a ler uma história em que nós vemos que nessa história 
podem acontecer coisas sobrenaturais. Como as pessoas podem voar, os objetos podem se 
transformar magicamente, nós podemos andar de tapete mágico, ou as pessoas podem se 
transformar em bicho e os bichos em pessoas, mas a história nos mostra que essas são as regras 
que vão comandar aquele imaginário e, portanto, as regras que comandam o sentido, o que faz 
aquelas imagens verossímeis. Elas se tornam, mesmo que elas não sejam reais mas imaginárias, 
porque elas nos parecem verossímeis, elas fazem sentido dentro daquele contexto que a própria 
narrativa está criando. 
 
No entanto, uma representação jornalística, uma reportagem, ela expõe um outro problema. 
Porque ela não nos propõe a idéia de que ela está criando uma situação imaginária, mas que ela 
está reportando um fato real. 
 
Quando lemos um jornal nós estamos tomando contato com a realidade através de uma 
representação que ele nos oferece. No entanto, uma coisa que a gente não costuma pensar, a gente 
não costuma ter consciência no momento em que estamos lendo o jornal, é que o jornal nos 
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apresenta uma realidade que foi tirada do contexto original, de um contexto de realidade, através 
de uma representação dela, e o jornal cria um outro contexto. 
 
Então nós temos uma situação que está localizada no seu mundo de relações, no seu mundo de 
referências, onde ela faz um sentido, e a toda reportagem, a toda representação dessa realidade 
necessariamente recorta uma posição, uma parte, um fragmento dessa realidade e transfere para 
um outro contexto, que agora vem a ser o universo do próprio jornal, onde nós estamos tomando 
contato, digamos, com aquele fato ali reportado. 
 
Balsac e As Ilusões Perdidas 
 
Entre 1835 e 1843 Balsac escreveu um romance chamado “As Ilusões Perdidas” que tem como 
núcleo central a questão do jornalismo e, eu diria que, mais do que especificamente, o jornal, 
Balsac estava tratando as relações que eram historicamente muito novas, entre jornalismo e 
literatura. Porque o jornal era um fenômeno recente, o jornal de massas, em grande quantidade, o 
jornal com assinante, com matéria paga. A quem diga que nesse momento, a introdução do 
anúncio pago nos jornais em sistema de assinatura, significou para a literatura de massas e o 
jornal, inclusive, ou seja, o fenômeno da literatura de massa e do jornalismo significou algo como 
a introdução da máquina a vapor na indústria, ou seja, ela transformou completamente o quadro, 
a situação da literatura e criou o fenômeno moderno do jornalismo. 
 
Nesse romance, Balsac trata, a partir de um personagem, que é um jovem escritor que se 
transforma em jornalista, ele trata desse tema, da imbricação entre o jornal e a literatura, que aliás 
conviveu no mesmo meio. Porque os romances eram publicados freqüentemente como folhetins 
no próprio jornal, de tal modo que nós tínhamos lado a lado a narrativa literária ficcional e as 
reportagens ou as matérias que tratavam diretamente da realidade. 
 
E o que nós temos nesse romance é uma