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na 
esfera pública de práticas políticas com características fisiológicas e clientelísticas, o descrédito 
política, o relativismo na avaliação dos projetos e práticas políticas, a instrumentalização política 
das organizações da sociedade civil etc . 
A ação política deve se desvencilhar também do chamado “realismo político”. Originada 
da legitima busca da conquista da autonomia e especificidade da esfera Política em face das 
outras esferas (Moral, Direito etc), bem como protegê-la dos caprichos pessoais e destituído de 
compromisso e responsabilidade social de quem governa e/ou dirigi, tende a dar lugar ao 
chamado realismo político (ou política realista), qual seja, assegurar certos objetivos sociais a 
qualquer preço, sejam quais forem os meios necessários para tanto. O realismo político, portanto, 
remete os compromissos morais para a esfera puramente privada, em contraste com a Política, 
que seria da esfera puramente pública e sem interdependência direta com a Moral. 
O realismo político subtrai dos atos políticos qualquer avaliação moral, visto que os fins 
lhe imporia iniciativas socialmente necessárias e os resultados concretos lhe emprestariam a 
legitimidade política (não necessariamente Moral). Todavia, esta atitude não permite que a 
Política possa adquirir eficácia, visto que para tanto ele deve adquirir legitimidade ou, em plano 
mais profundo, consenso em um sentido Ético. As suas formas podem ser a centralização e o 
autoritarismo político, a carência de publicidade na prática política etc. 
Legitimidade e consenso em um sentido Ético implica reconhecer e tratar todo indivíduo 
como ser humano, que portanto pode e deve saber e decidir, e não simplesmente sofrer ações 
definidas em uma esfera alheia à sua participação e controle, ainda que pretensamente endereçada 
ao seu próprio bem. De fato, ainda que uma iniciativa política redundasse em um bem às custas 
da transparência, da justiça, da liberdade, da moral, seria tão somente um bem superficial e 
momentâneo que configuraria um prejuízo profundo e estratégico para a liberdade, justiça e a 
igualdade, isto é, para a realização da Ética no mundo. 
A Política e a Moral como esferas distintas da vida social podem e devem assumir uma 
relação que respeite a autonomia e a especificidade de cada uma. Todavia, deve ser uma relação 
de complementaridade. A ação política não pode prescindir-se da Moral. A Moral vigente 
configura expectativas nos sujeitos sociais que, quando contrariadas profundamente, dificilmente 
permitirá à política legitimidade. De outro lado, quando a Política submete-se à Moral vigente, 
perde em grande medida o seu poder transgressor, visto que esta Moral expressa, legitima e 
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justifica uma determinada hegemonia social. A Moral não pode prescindir-se da Política, sem a 
qual dificilmente adquirirá uma dimensão social mais flexível à mudanças e maior tolerância. 
O segundo desafio para a conquista de uma Política Ética é a conquista de um conteúdo 
político transformador das relações sociais. Conteúdo político que dê conta de superar o 
conservadorismo, o progressismo formal e o revolucionarismo. 
A Política em uma dimensão Ética deve possuir um conteúdo de transgressão da ordem 
social de opressão vigente. A política não pode ser concebida como sendo puramente útil para a 
tomada de medidas que assegurem a ordem, a coesão e a paz social. Política concebida como 
tomada de medidas voltadas para viabilizar o progresso econômico e social da sociedade, isto é, 
como campo da prática social dos operadores políticos (governos, partidos políticos, burocratas 
etc), para a condução de reordenamentos institucionais, de forma vertical, que poderiam 
readequar o Estado, o governo ou as instituições às necessidades de uma sociedade em constante 
evolução. 
A Política assim concebida expressa o cinismo conservador dos detentores do poder. Uma 
concepção de Política cumprisse de uma defesa do status quo, sob o manto retórico de 
ordenamento, de progressismo e de competência 
A Política em uma dimensão Ética deve possuir uma dimensão concreta, social e 
histórica. A Política não pode ser concebida como sendo puramente útil para a conquista da 
justiça social e da cidadania para todos. Conquista concebida como fundada na reversão do 
fenômeno da pobreza sócio-econômica, isto é, da carência material, e da pobreza política, isto é, 
da carência de organização, de liberdade e de democracia. 
A Política assim concebida expressa o formalismo progressista burguês. Uma concepção 
de Política valorizadora da autonomização do indivíduo constituído de direitos formais, mas sob 
uma dinâmica social que o esmaga em favor dos imperativos do mercado e do capital. 
A Política em uma dimensão Ética deve ser radicalmente democrática e libertária. A 
Política não pode ser concebida como sendo puramente útil apenas para a construção/organização 
do mundo do trabalho em uma perspectiva de transformação da sociedade capitalista e burguesa, 
mas permeada de práticas burocráticas, intervencionistas e aparelhistas no âmbito dos partidos, 
na relação destes com os movimentos sociais e entidades da sociedade civil e na estruturação 
sociedades revolucionárias e pós-revolucionárias. 
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A Política assim concebida expressa o revolucionarismo socialista de feição dogmática, 
autoritária e hegemonista, crítico inquisitorial das macro-estruturas de dominação social, mas que 
realiza um recuo crítico frente às continuidades destas mesmas macro-estruturas nos 
amesquinhamentos dos indivíduos nas suas próprias estruturas organizativas partidárias e nas 
instâncias de intervenção social. Construção/organização esta que teria que se dar a partir do 
mundo do trabalho e de forma radical, isto é, do horizonte utópico de uma nova ordem social na 
qual o homem esteja no centro da sociedade. 
Estas concepções expressão o cinismo conservador dos detentores do poder, o formalismo 
progressista burguês e o revolucionarismo socialista de feição dogmática. A Política em uma 
dimensão Ética deve identificar as bases do poder (político, econômico e ideológico) sobre os 
quais se reproduz a sociedade, ultrapassar a redução do sentido e da luta pelos direitos humanos a 
uma dimensão formal e fundar um espírito e prática verdadeiramente libertária nas organizações 
sociais e políticas. Todavia, não se esgota nesta orientação. 
 
4.3. Instrumentos para uma Política Ética 
 
 A Política em uma dimensão Ética depende de instrumentos para a sua materialização. O 
primeiro é a necessária a construção de uma conscientização política a respeito da injustiça 
social. A construção desta consciência por parte de amplos setores sociais pode circunscrever-se 
nos limites da sociedade capitalista e burguesa, isto é, expressar-se enquanto consciência de 
direitos sociais dos quais uma parcela da sociedade encontra-se impedida, de forma a reconhecer 
a pobreza sócio-econômica como injustiça e a pobreza política como repressão. 
 A construção da consciência política da injustiça social pode, ainda, ultrapassar os limites 
da sociedade capitalista e burguesa. Amplos setores sociais podem compreender a pobreza sócio-
econômica e a pobreza política como decorrência dos fundamentos de um modo de produção que 
gera, de um lado, o desperdício, a subtilização das forças produtivas, a distribuição regressiva da 
riqueza e propriedade, a exaustão dos recursos naturais, e de outro, o domínio político, a opressão 
ideológica, a pasteurização das identidades culturais. Uma consciência que se faz libertária e 
igualitária. 
Efetivar a universalização da educação pública, gratuita e de qualidade e conquistar os 
espaços de educação (escola, universidades, etc) do Estado e do capital são passos necessários