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para a construção da conscientização política contra a injustiça social. De um lado, porque a 
educação permite a aquisição, desde instrumentações primeiras para a conscientização política 
como ler, escrever, informar, interpretar, analisar, até o acesso ao conhecimento científico e 
tecnológico desenvolvido pela humanidade. De outro, porque a conquista dos espaços da 
educação e sua transformação em sociedade civil organizada, permite que sejam orientados para 
formar o mundo do trabalho para a liberdade, não para o capital, na medida em que poderão ser 
criados projetos de educação alternativa e impulsionar projetos sociais alternativos tendo a 
educação e o espaço em que ela ocorre como instrumentos desse processo. 
 É necessário preservar ou mesmo reconstruir as identidades culturais comunitárias. A 
condição de classes e grupos sociais atuando como sujeitos sociais e políticos possui como 
fundamento a cultura de cada povo. Esta necessidade torna-se urgente quando os centros de poder 
do capital aciona poderosas forças pasteurizadoras e homogeneizadoras da cultura, a exemplo das 
novas mídias, dos oligopólios de informação, dos novos kits culturais. 
 Por fim, as classes, grupos e indivíduos sociais necessitam se organizar e se defender. 
Operar redefinições no Estado e limites na economia de mercado, ou mesmo colocar em questão 
as bases sobre as quais a sociedade atual se articula, no atual período de luta de classes, somente 
será possível por meio da construção de uma vasta organização da sociedade civil do mundo do 
trabalho. É necessário libertar organizações tradicionais da sociedade civil do mundo do trabalho, 
a exemplo dos sindicatos e dos partidos políticos, do imobilismo burocrático, do favorecimento 
material de grupos políticos encastelados na sua estrutura e da tradição vertical e autoritária de 
relação com os grupos representados, os movimentos e as entidades de base (comissão de fábrica, 
agremiações estudantis etc). É necessário, ainda, impulsionar a criação de organizações novas da 
sociedade civil do mundo do trabalho, como ONGs, movimentos de ambientalistas, de sem-teto, 
de minoria, etc, mas de forma a não submeter a uma lógica de substituição de funções e 
obrigações públicas, bem como rebaixar o significado da idéia de transformação social a um 
mero processo de atenuação da crise social. 
 
4.4. Elementos de Orientação para uma Política Ética 
 
 A Política em uma dimensão Ética deve, necessariamente, ser orientada por determinados 
princípios. O homem deve ser reconhecido como um ser que busca a igualdade, a justiça e a 
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liberdade, somente possível por meio da democracia e ao longo do qual se humaniza 
verdadeiramente. 
 
O Homem como Ser e como Fim 
 
 A Política em uma dimensão Ética concebe o homem como ser humano. As estruturas de 
poder vigente e a política tradicional, por sua vez, concebem o homem como coisa ou como um 
número. Buscam suprimir a individualidade e a autonomia do sujeito e enclausurá-lo em 
esquemas políticos nos quais participa formalmente, mas que deles se aliena efetivamente. Esse 
processo de coisificação humana é um processo de violência obliteradora da liberdade, que pode 
combinar violência indireta e dissimulada ou direta e aberta. 
O homem deve ser reconhecido em seus dramas, vícios e potencialidades que se 
constroem (ou não) socialmente. O processo de humanização do homem, isto é, a sua 
desbrutalização por meio dos bens culturais (da educação, da cultura, do lazer etc) e dos bens 
materiais (do trabalho, da renda, da terra etc) necessários, tem como ponto de partida o 
reconhecimento político de que em cada homem há um ser humano; que a humanização deste 
homem depende do curso político fruto das escolhas, opções e desfechos dos processos sociais; 
que o curso político não pode ser caracterizado pela violência; e que este mesmo curso político 
deve ser a realização da liberdade, tanto na dimensão da superação da carência dos bens 
materiais, como na dimensão da superação da desinformação, da ignorância e da alienação. 
 A Política Ética concebe o homem como o fim. As estruturas de poder vigente e a política 
tradicional concebem-no, por sua vez, como meio. Reduzem o homem à condição de eleitor, de 
“instrumento” manipulado em favor de projetos políticos pessoais ou partidários, de meio-
trampolim para a ocupação e assalto da esfera pública, como massa de manobra para a 
preservação do estado de desordem social etc. 
O homem deve ser reconhecido como o fim da Política. Fim que se identifica com a 
liberdade, a igualdade e a justiça, e que se realiza por meio de iniciativas calcadas na 
transparência, na participação e na conquista da vida boa. A Política Ética orientará os 
indivíduos, objetivamente, para a construção de uma esfera privada e para a construção de uma 
esfera pública que concorra para a criação das condições sociais para a conquista da felicidade 
por parte de cada homem. 
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Equivalência entre Igualdade e Diferença 
 
A Política em uma dimensão Ética deve reconhecer a equivalência entre os princípios da 
igualdade e da diferença, isto é, que a igualdade formal e/ou artificial, socialmente niveladora dos 
homens, por não integrar a diferença no seu âmbito enquanto especificidade, reproduz e oculta a 
desigualdade. Reconhecer, ainda, que a igualdade e a homogeneidade formais tende a se 
transformar em violência (direta e indireta; material e cultural) excludente. 
 A conquista da igualdade que reconheça as diferenças permite veicular dimensões 
alternativas de emancipação social para os diversos grupos sociais. Dessa forma será possível que 
cada grupo social identifique claramente o grau de convergência e de hibridagem a que estão 
dispostos a estabelecer no âmbito de pautas, processos e lutas políticas e de bases sociais mais 
amplas. 
Dimensões alternativas de emancipação social é de fato pré-condição política e social para 
emancipação social. Da diversidade e da diferença poderá ser possível a verdadeira igualdade 
social. 
 A articulação entre os princípios da igualdade e da diferença por meio da Política em uma 
dimensão Ética deve assumir uma nova direção. Esta direção pode ser sintetizada na forma da 
pauta, processo e luta pelos direitos humanos. 
 
Pauta, Processo e Luta pelos Direitos Humanos 
 
pauta, processo e luta pelos direitos humanos deve assumir um sentido integral. Não a 
pauta, processo e luta pelos direitos humanos que o liberalismo político formalista e socialmente 
conservador, pressionado pela ação transgressora do mundo trabalho, incorporou. Pauta, processo 
e luta que se desmembrou em direitos civis (séculos XVIII e XIX), direitos políticos (séculos 
XIX e XX) e direitos sócio-econômicos (século XX), em uma clara dinâmica de atenuação do seu 
conteúdo transgressor e de construção da idéia de que os referidos direitos decorreriam da 
mecânica institucional da sociedade liberal-democrática. 
pauta, processo e luta pelos direitos humanos como expressão de uma política em uma 
dimensão Ética deve superar a divisão e/ou separação dos direitos em civis, políticos e sócio-
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econômicos, bem como superar o formalismo liberal-burguês na sua implementação. Os direitos 
humanos devem integrar-se em um movimento único de diferenciação e complementaridade, em 
bases sociais concretas. Toda e qualquer pauta, processo e luta, ainda que em função da sua 
origem e propostos imediatos venha a privilegiar um eixo específico, deve trazer articulado a ela 
todos os demais. 
Pauta, processo e luta pelos Direitos humanos deve incorporar: 
 
• O direito à terra e aos financiamentos e preços agropecuários, de forma a 
assegurar uma renda da terra justa aos pequenos proprietários