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Apostila-Questionários-Textos Complementares de Dir. Penal II

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as penas privativas, como 
dito, isoladamente para cada um dos crimes, houver a 
substituição por penas alternativas, estas serão cumpridas 
concomitantemente se compatíveis entre si ou sucessivamente se 
não compatíveis. 
 
4. CONCURSO FORMAL DE CRIMES: Trata-se de dois ou 
mais crimes idênticos ou não (homogêneo ou heterogêneo), praticados 
pelo agente mediante uma única ação, art. 70/CP. É o caso de quem 
querendo matar seu desafeto, usando arma de potente calibre e alto 
poder lesivo, não apenas causa a morte do oponente, mas provoca 
também a morte de um terceiro. Ou, p. ex., de quem, conduzindo 
veículo alcoolizado, em alta velocidade, na contramão direcional, 
provoca a morte ou lesão corporal de várias pessoas. Ou ainda de quem, 
querendo a morte de seu inimigo, usa de uma bomba, matando 
terceiros. Terá havido concurso formal – no primeiro caso entre 
homicídio doloso (na forma direta) e homicídio culposo ou doloso (na 
forma eventual) em relação ao terceiro; no segundo, vários homicídios 
ou lesões corporais dolosos (na forma eventual); no terceiro, homicídio 
doloso (na forma direta em relação ao inimigo) e vários homicídios 
dolosos (na forma eventual) no tocante às outras mortes. 
� CONCURSO FORMAL PRÓPRIO – Haverá 
concurso formal próprio ou perfeito 
quando o agente praticar apenas um 
crime doloso (dolo direto ou 
eventual), decorrendo os demais de 
culpa – imprudência, negligência ou 
imperícia, ou quando querendo cometer 
um crime doloso (dolo direto), derivam 
Eduardo Queiroz de Mello 38
os demais crimes do fato de ter o 
agente assumido o risco da produção 
dos resultados (dolo eventual), ou 
mesmo se todos os crimes ocorrerem por 
conta da assunção do risco dos 
resultados (dolo eventual), ou ainda 
quando todos os crimes forem culposos. 
Neste caso, adota-se o sistema da exasperação, ou seja, aplica-se 
na sentença condenatória a mais grave das penas previstas para os 
crimes cometidos (se distintas) ou uma única (se idênticas), 
sempre se desprezando as demais, mas em qualquer caso 
aumentando-se na terceira e última fase do critério trifásico de 
1/6 até a metade, levando-se em conta para dosar o aumento, 
principalmente, o número de vítimas ou de resultados. 
� CONCURSO FORMAL IMPRÓPRIO – Haverá 
concurso formal impróprio ou 
imperfeito quando o agente desejar 
praticar mais de um crime, tendo, 
portanto, consciência e vontade em 
relação a cada um deles, denominando-
se o que o CP chama de “desígnios 
autônomos”, havendo, pois unicidade de 
conduta e multiplicidade de vontades, 
pelo que serão todos os crimes dolosos 
(dolo direto), excluindo-se o dolo 
eventual. Nesse caso, tendo em vista a maior gravidade 
decorrente das vontades autônomas, o sistema adotado na 
aplicação das penas, é o do cúmulo material, ou seja, a soma das 
penas fixadas separadamente na sentença. 
� O CONCURSO FORMAL E O CÚMULO MATERIAL 
BENÉFICO – ART. 70, PARÁGRAFO ÚNICO DO CP – Há 
casos, entretanto, que o sistema da exasperação não é adotado no 
chamado concurso formal, por exceder a pena ao que seria 
cabível se se adotasse o cúmulo material. Por exemplo, cite-se o 
caso do agente que querendo matar seu oponente, usando de uma 
poderosa arma de fogo, atira, causando-lhe a morte, mas, por ter 
assumido o risco, provoca lesões corporais leves num terceiro. 
Haverá concurso formal (próprio) entre homicídio doloso – dolo 
Eduardo Queiroz de Mello 39
direto – (art. 121, caput) e lesões corporais simples – dolo 
eventual – (art. 129, caput), vez que praticados mediante uma 
única ação. Entendendo o Juiz por aplicar concretamente na 
sentença a pena mínima, pelo sistema da exasperação, deverá 
tomar a pena do crime mais grave, homicídio, fixando-a em seis 
anos, que aumentada de 1/6, totaliza sete anos, quando se 
aplicado o sistema do cúmulo material, a pena total somaria em 
reclusão de seis anos mais detenção de três meses. Ou do caso do 
agente que estupra mulher e ao mesmo tempo, embora não tendo 
certeza de que é portador de moléstia venérea, mas podendo saber 
em face das circunstâncias, exponha a vítima ao perigo de 
contágio. Haverá concurso formal (próprio) entre estupro (art. 
213/CP – dolo direto) e perigo de contágio de moléstia venérea 
(art. 130/CP – dolo eventual). Igualmente, se desejar o Juiz 
aplicar a pena mínima, pelo sistema da exasperação, deverá 
tomar a pena do estupro, mais grave, fixando-a em seis anos, 
aumentada de 1/6, totalizando em sete anos, quando se aplicado 
sistema do cúmulo material, a pena total somaria reclusão de 
seis anos mais detenção de três meses. 
� Nesses casos, deve o Juiz 
individualizar a pena para cada um dos 
crimes separadamente para, depois, ou 
adotar a regra do concurso formal, se 
forem mais favoráveis do que o cúmulo 
material, ou caso contrário, desprezar 
a exasperação, estabelecendo a pena 
pela regra do cúmulo material. A regra 
do concurso formal para aplicação da 
pena somente será aplicada se 
beneficiar o réu. 
 
 
Eduardo Queiroz de Mello 40
 TEXTO COMPLEMENTAR 02 
 CONCURSO DE CRIMES 
 CRIME CONTINUADO 
 
5. CRIME CONTINUADO: Conforme o disposto no art. 71/CP 
trata-se de dois ou mais crimes da mesma espécie praticados pelo 
agente mediante mais de uma ação ou omissão, havendo, portanto, 
pluralidade de condutas e pluralidade de crimes. Trata-se o crime 
continuado de uma ficção jurídica (TEORIA DA FICÇÃO 
JURÍDICA) concebida por razões de política criminal, que considera 
os crimes subseqüentes como continuação do primeiro, estabelecendo 
um tratamento unitário a uma pluralidade de crimes. As razões de 
política criminal se fundam na tentativa do legislador de evitar penas 
excessivamente longas, incompatíveis com a finalidade da 
ressocialização. A construção jurídica do crime continuado remonta ao 
século XIV, onde se pretendeu evitar que o autor do terceiro furto 
consecutivo pudesse escapar da pena de morte. 
� Caracteriza o crime continuado ou 
continuidade delitiva a prática, mediante 
mais de uma ação ou omissão, de dois ou mais 
crimes da mesma espécie – são os que violam 
o mesmo bem jurídico e que guardam entre si 
uma identidade (semelhança) decorrente de 
características objetivas e subjetivas 
presentes nos tipos penais descritivos. 
Assim o furto (art. 155/CP) e o roubo (art. 
157/CP), onde diferenciados pelo uso pelo 
agente de violência ou grave ameaça (roubo), 
caracterizam-se pela subtração de coisa 
alheia móvel, despossuindo a vítima de seus 
pertences, retirando-se dela a coisa, de 
modo que o conatus (vontade), em síntese, é 
a transferência da posse da coisa; roubo 
(art. 157/CP) e extorsão (art. 158/CP), onde 
a vítima se vê, mediante violência ou grave 
ameaça, coagida a entregar a coisa ao 
agente, tendo-se também que o conatus 
(vontade) é a transferência da posse da 
coisa das mãos da vítima para a do agente; 
Eduardo Queiroz de Mello 41
estupro (art. 213/CP) e atentado violento ao 
pudor (art. 214/CP), onde, através de 
violência ou grave ameaça, visa-se, 
fundamentalmente, a satisfação anormal dos 
instintos sexuais, embora no primeiro 
obrigatoriamente a vítima tenha que ser 
mulher e o sujeito ativo homem, havendo a 
conjunção carnal completa ou incompleta, e 
no segundo podendo os sujeitos ativo e 
passivo ser tanto homem quanto mulher, 
realizando-se ato libidinoso diverso da 
conjunção carnal; exposição ao perigo de 
contágio de moléstia venérea (art. 130/CP) e 
exposição ao perigo de contágio de moléstia 
grave (art. 131/CP), que se assemelham face 
bastar a vontade direcionada à exposição da 
vítima ao perigo de contágio de moléstia 
venérea ou grave, através o primeiro de 
relações sexuais, e o segundo por qualquer