hermeneutica   teoria constitucional
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hermeneutica teoria constitucional


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etc.), a fim de que uma abordagem normativa não perca o seu 
contato com a realidade, nem uma abordagem objetiva exclua qualquer aspecto normativo, mas permaneçam em 
tensão\u201d (CATTONI DE OLIVEIRA, 2002:36-37). 
49 Diferentemente do consenso, que se fundamenta em razões que todos podem aceitar do mesmo modo, um 
compromisso pode ser aceito por cada um por diferentes razões. Em sociedades complexas, onde as regulações 
normativas afetam interesses diversos de diferentes modos sem que se possa (moralmente) fundamentar um 
interesse que seja universalizável ou o predomínio (ético) de um valor, é necessária a prática da negociação que 
visa à formação de compromissos. A importância dos compromissos está em que, como esclarece Marcelo A. 
Cattoni de Oliveira (2000:77), \u201ccompromissos constituem a maior parte dos processos políticos, sob as 
condições políticas determinadas pelo pluralismo axiológico, cultural, religioso, dentre outras, nas atuais 
sociedades\u201d. Não obstante, os compromissos serão aceitos desde que espelhem uma negociação fair (cf. 
HABERMAS, 1998:233-234). 
50 Pela ação comunicativa \u201clos actores en el papel de hablantes y oyentes, tratan de negociar interpretaciones 
comunes de la situación y de sintonizar sus respectivos planes de acción a través de procesos de entendimiento, 
es decir, por vía de una persecución sin reservas de fines ilocucionários\u201d (HABERMAS, 1998:79-80). 
mesmos direitos (cf. OLIVEIRA, 1989:30). Um falante, ao pronunciar uma afirmação, levanta 
uma pretensão de verdade susceptível de crítica \u2014 pretensão esta que o falante deve poder 
fundamentar, se necessário. Quanto ao conteúdo (a validade) daquela afirmação, o ouvinte 
pode se posicionar afirmativamente (com um \u201csim\u201d) ou negativamente (com um \u201cnão\u201d). Caso 
se posicione negativamente, assume o ônus da respectiva fundamentação (cf. infra). 
 O risco de dissenso gerado por aquela tensão, isto é, pelo posicionamento de 
afirmações e negações frente a pretensões de validade (e pela própria instabilidade gerada 
pelo caráter contrafáctico dos pressupostos da comunicação, como vimos) pode ser em 
parte contornado com o conceito de \u201cmundo da vida\u201d (cf. HABERMAS, 1998:83ss e 
CARVALHO NETTO, 2003:151). É que se todas as pretensões de validade estiverem ao 
mesmo tempo em discussão, o provável dissenso daí advindo resultará mais em perda que 
em ganho discursivo, tornando improvável a comunicação e, logo, a integração social. 
Dessa forma, a ação comunicativa parte de um \u201chorizonte de convicciones comunes 
aproblemáticas\u201d (HABERMAS, 1998:83), em que a tensão entre facticidade e validade não 
existe, pois ambas dimensões encontram-se fundidas. Quando aquelas convicções não 
problemáticas deixam de ser óbvias, não mais pertencem ao mundo da vida e passam a 
tema da agenda pública de discussão51. Convicções até então compartilhadas, terão agora 
de ser sustentadas ou revisadas mediante razões (que são o meio através do qual se 
colocam pretensões de validade susceptíveis de crítica). 
 Nessas sociedades complexas de que fala Habermas, o aumento do dissenso, a 
pluralização das formas de vida e a individualização das biografias diminuem as zonas de 
convergência do Mundo da Vida. No processo de quebra com o paradigma convencional, a 
ação comunicativa fica livre de amarras tradicionais (religiosas, consuetudinárias, etc.). 
Tudo agora pode ser tematizado (cf. HABERMAS, 2003b:191)52. 
 O \u201cpermanecer aberto\u201d, próprio das sociedades complexas, significa predisposição 
ao risco do dissenso. Todavia, só se produz consenso a partir do dissenso, ao mesmo 
tempo em que todo consenso é apenas o primeiro passo para um dissenso futuro. Como 
acentua José E. de Faria (1978:32): \u201co dissenso é o ponto de partida para a conquista do 
consenso\u201d. Esse pluralismo é democraticamente inafastável. A partir do momento em que 
quaisquer temas podem adentrar à esfera pública de discussão \u2014 isto é, que não há um 
consenso substantivo de fundo acerca de um \u201csentimento de pertencimento\u201d ou do 
 
51 Quando o assentamento das questões básicas da comunidade jurídica começa a se agitar \u2014 quando aumenta a 
complexidade desta mesma sociedade \u2014 surgem novas expectativas de comportamento, a partir de novas 
biografias individuais. A partir do momento em que convicções de fundo começam a se chocar, a Ação 
Comunicativa toma seu papel na manutenção (ou na reformulação) da integridade social. 
52 No entanto, essa \u201cliberalização\u201d também significa que os indivíduos passam a poder agir na persecução de 
seus próprios interesses. Aí está um problema: \u201ccómo estabilizar la validez de un orden social en el que desde el 
punto de vista de los actores mismos se establece una clara diferenciación entre la acción comunicativa [que visa 
ao entendimento intersubjetivo], (...) y las interacciones de tipo estratégico\u201d (HABERMAS, 1998:87)? 
\u201creconhecimento mútuo entre cidadãos\u201d \u2014 percebe-se que não é razoavelmente possível 
\u201cesperar superar o pluralismo de visões conflitivas\u201d (cf. HABERMAS, 2003b:190), já que não 
há posições juridicamente privilegiadas face às demais. Para tentar lidar com o risco do 
dissenso Habermas aponta duas alternativas: limitar o campo de problematização dado aos 
participantes no seu agir discursivo, ou assumir que em sociedades complexas em que a 
Ação Comunicativa assume o papel de promover integração social, ela deve se valer de 
seus próprios recursos para \u201cdomesticar\u201d o risco aumentando-o, isto é, \u201cestableciendo 
duraderamente discursos\u201d (HABERMAS, 1998:99). Essa segunda alternativa é, 
paradoxalmente, a que parece melhor se conformar à atual condição da sociedade, pois 
soluciona o problema do risco sem eliminá-lo, mas, ao invés, o expõe à tematização pública. 
 As questões da integração social e do risco do dissenso, no Direito, estão na base da 
tensão entre a Facticidade da coerção estatal (externa) e a Validade da força de convicções 
internas. A tensão entre Facticidade e Validade aqui se mostra na tensão entre coerção 
fática e validade das normas. Tomando o conceito kantiano de normas como leis coercitivas 
e leis da liberdade, Habermas (1998:90ss) mostra a tensão entre coerção e liberdade no 
interior da própria \u201cvalidade\u201d do Direito Positivo: esta se desdobra em \u201cvalidez social\u201d 
(eficácia) e \u201clegitimidade\u201d das normas53. 
 A saída proposta por ele passa pelo reconhecimento da centralidade do Direito 
Positivo no contexto da integração social (HABERMAS, 1998:99ss). O Direito é o único 
sistema que na modernidade pode \u2014 operacional e legitimamente \u2014 promover essa forma 
de integração54. O Direito Positivo possui meios para operacionalizar aquelas duas 
alternativas acima expostas de afastamento do risco: a da limitação \u2014 porque estabiliza 
expectativas de comportamento, inclusive pelo uso de sanções \u2014 e a da deslimitação \u2014 já 
que, em princípio, todas as normas estão sujeitas à crítica através do processo legislativo (e 
também do controle de constitucionalidade)55. 
 Nesse contexto, apenas com a afirmação de que o destinatário da norma é também 
um seu feitor é que a imposição do Direito, inclusive através de sanções se pode justificar 
 
53 \u201cLa validez social de las normas jurídicas se determina por el grado de imposición, es decir, por la aceptación 
que cabe esperar en el círculo de los miembros de la comunidad jurídica de que se trate. (...) [E] la legitimidad 
de las reglas se mide por la desempeñabilidad o resolubilidad discursiva de su pretensión de validez normativa, y 
en última instancia atendiendo a se han sido producidas en un procedimiento legislativo que quepa considerar 
racional, o a si por lo menos hubieran podido ser justificadas desde puntos de vista pragmáticos, éticos y 
morales\u201d (HABERMAS,