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Jurisdição e Competência

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5.2.2. Conceito de foro e de juízo 
 
A palavra “foro” é equívoca, porque usada em mais de um significado. Em 
sentido amplo, indica a base territorial sobre a qual cada órgão judiciário exerce a sua 
jurisdição. O foro do STF e do STJ, bem como dos tribunais superiores das justiças 
especiais, é todo o território nacional. Já o dos tribunais de segundo grau de jurisdição é a 
soma dos âmbitos dos foros de todas as comarcas e varas a eles submetidas. O foro dos 
Tribunais de Justiça estaduais é o território do respectivo Estado; dos Tribunais Regionais 
Federais, é a soma de todas as varas que pertencem à região que lhe é afeta, havendo 
atualmente cinco regiões no Brasil, entre as quais se distribui a competência da justiça 
federal. 
Em primeira instância, foro é designação utilizada como sinônimo de comarca. 
Cada um dos Estados da Federação está dividido em comarcas, sobre as quais os juízes 
exercem sua jurisdição. Elas são o foro de jurisdição dos juízes estaduais, em primeiro 
grau de jurisdição. Não se pode confundir a expressão “foro”, no sentido dado pelo CPC, 
como sinônimo de comarca, com a utilizada frequentemente pelas leis de organização 
judiciária, que chamam “foro” às unidades administrativo-judiciárias de competência, 
dentro da mesma comarca. No Estado de São Paulo, por exemplo, a comarca da capital 
tem um foro central e diversos foros regionais. Esses foros, instituídos pela lei de 
organização judiciária, constituem unidades orgânico-administrativas, em que há o 
agrupamento de diversos juízos, com igual competência. 
A comarca da capital é, portanto, um único foro, no sentido que o CPC empresta 
a essa palavra. Mas, de acordo com a lei de organização judiciária estadual, ela está 
dividida em foro central e foros regionais. 
É preciso que se tenha sempre o cuidado, portanto, de averiguar em qual sentido 
a palavra foro está sendo empregada, se no da lei processual ou no da lei de organização 
judiciária, para que se evitem equívocos que podem decorrer de uma eventual confusão 
entre esses significados. 
Na justiça federal não há comarcas, mas seções judiciárias. De início, como só 
existiam varas federais nas capitais dos Estados, cada um deles e o Distrito Federal 
constituíam uma seção judiciária (CF, art. 110). 
No entanto, hoje existem varas federais em diversas cidades do Estado de São 
Paulo, por exemplo, de maneira que o foro (dimensão territorial da jurisdição) da capital 
não se estende mais a todo Estado, havendo diversos outros foros no interior. Na seção 
judiciária, que engloba o Estado todo, há o foro da capital e os foros das varas federais do 
interior, que são as respectivas porções territoriais por elas abrangidas. 
Com foro não se confundem os juízos. Cada um dos órgãos jurisdicionais é um 
juízo. Na justiça comum estadual o conceito de juízo coincide com o das varas: unidade 
judiciária, integrada por um juiz e respectivos auxiliares. 
Assim, sendo foro comarca, é comum que em uni mesmo foro existam vários 
juízos. Na capital de São Paulo eles são agrupados, de acordo com a lei de organização 
judiciária, em foro central e foros regionais. Do ponto de vista do CPC, estes nada mais 
são que agrupamentos de juízos, e não propriamente foros (comarcas). 
A questão é relevante, porque estão no CPC as normas que permitem apurar o 
foro (comarca) competente, mas estão na lei de organização judiciária as que versam 
sobre o juízo. Como foro central e foro regional são agrupamentos de juízos, e não 
comarcas, para apurar se a competência é de um ou de outro devem ser consultadas as 
normas de organização judiciária, e não as da lei processual. 
 
5.2.3. A competência de foro e de juízo 
 
A CF atribui à União competência para legislar sobre processo (art. 22, I), e aos 
Estados, para organizar a sua justiça (art. 96, II, d). Também outorga a estes competência 
supletiva para legislar sobre procedimento (art. 24 e parágrafos). É preciso não confundir 
as leis de processo com as de organização judiciária. As primeiras são todas aquelas que 
tratam da atividade jurisdicional. Como ensina Arruda Alvim, “tudo aquilo que diga 
respeito à tutela do direito invocado, à produção de provas que objetivem demonstrar 
esse direito, é matéria de processo”. A competência para elaborá-las é da União e, 
supletivamente, na forma da CF, art. 24 e parágrafos, do Estado. 
Todavia, a atribuição para editar normas de organização judiciária, aquelas que 
tratam da estruturação da justiça estadual e da regulamentação e constituição dos órgãos 
judiciários, é do Estado. 
No tema da competência, três verificações hão de ser feitas: primeiro, qual a 
justiça competente, se a comum ou as especiais. Para tanto, basta examinar a 
Constituição Federal. Depois, procura-se descobrir qual o foro competente (comarca). E o 
CPC que fornece as regras para essa busca. 
Apurada a comarca em que correrá a demanda, cumpre ainda verificar qual o 
órgão judiciário dentro dessa comarca (juízo) que deverá proceder o julgamento. Para 
tanto, não é mais o CPC que fornecerá as regras, mas as leis de organização judiciária 
estaduais. As normas federais permitirão que se apure até qual a comarca competente, 
mas, dentro dela, será preciso recorrer às normas estaduais de organização judiciária 
para apurar-se o juízo. 
 
5.2.4. Competência absoluta e relativa 
 
As regras de competência podem ser imperativas e cogentes ou apenas 
dispositivas. No primeiro caso, devem ser conhecidas pelo juiz, de ofício, e não podem 
ser objeto de derrogação pelas partes em nenhuma circunstância. Essas normas 
instituem a competência absoluta. Há, no entanto, aquelas de cunho dispositivo, que 
estão sujeitas ao exclusivo alvedrio das partes. São sujeitas a prorrogação e derrogação, 
porque a incompetência relativa não pode ser conhecida de ofício pelo juiz, devendo ser 
alegada pelo réu por meio de exceção, no prazo de contestação. Além disso, a 
competência relativa pode ser alterada pelas partes por meio da eleição de foro. 
O legislador distingue as situações de competência absoluta ou relativa, levando 
em conta critérios de ordem política. Há casos em que o interesse público recomenda a 
fixação de regras de competência que não podem ser alteradas, sob pena de grave 
prejuízo ao funcionamento do Judiciário; há outros em que razões imperativas dessa 
ordem não estão presentes, devendo ser preservadas a liberdade das partes e a 
comodidade de seu acesso à justiça. 
As principais diferenças entre as regras de competência absoluta e relativa são as 
seguintes: 
a) as causas de modificação de competência (prorrogação, derrogação, 
conexão e continência) só se aplicam à relativa, não à absoluta; 
b) incompetência absoluta constitui objeção, matéria de ordem pública que 
deve ser reconhecida e declarada pelo juiz a qualquer tempo. Pode ser conhecida em 
qualquer grau de jurisdição, exceto nas instâncias extraordinárias, em grau de recurso 
extraordinário ou especial, que exigem pré-questionamento. Até mesmo em embargos 
infringentes e em reexame necessário deve ser feita, de ofício, a sua verificação. O réu 
deve alegá-la como preliminar em contestação, mas, se não o fizer, a matéria não se 
tornará preclusa, podendo ser alegada posteriormente. O juiz que reconhecê-la deve 
determinar a remessa dos autos ao foro ou juízo competentes, sendo nulos os atos 
decisórios praticados até então. A sentença proferida por juízo absolutamente 
incompetente é nula e enseja a propositura de ação rescisória. 
A incompetência relativa, por não constituir matéria de ordem pública, não 
pode ser conhecida pelo juiz de ofício (Súmula 33 do STJ). Caberá ao réu alegá-la, 
opondo exceção no prazo de resposta, sob pena de haver prorrogação, caso em que o 
juiz, antes incompetente, tornar-se-á plenamente competente. 
A distinção entre competência absoluta e relativa só diz respeito à