Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)

Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)


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há mais de um século, a formulação bási­
ca da teoria da evolução resolvia diversos problemas da 
seguinte magnitude: estamos relacionados a outros organismos 
por vínculos genealógicos ou como itens num esquema orde­
nado por um criador divino? Parecemos tanto com os macacos 
porque compartilhamos um ancestral comum recente, ou por­
que a criação seguiu uma ordem linear e os macacos represen­
tam o degrau logo abaixo de nós? Outras questões, mais deta­
lhadas e mais sutis, permanecem sem resposta até hoje: por 
que uma parte tão grande de nosso material genético (o chama­
do \u201cDNA inútil\u201d) não tem nenhuma função aparente? O que 
provocou as extinções em massa que pontuaram a história da
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vida? (Sabemos muito bem que um corpo celeste provocou 
esse último evento ao se chocar contra a Terra há 65 milhões 
de anos, extinguindo os dinossauros e dando uma chance aos 
mamíferos, mas ainda não descobrimos as causas das outras 
quatro grandes extinções.)
Conforme expliquei no Preâmbulo, tais questões recaem 
sob o magistério de uma instituição a que chamamos \u201cciência\u201d 
- uma autoridade de ensino dedicada ao uso de métodos men­
tais e técnicas de observação validadas pelo sucesso e pela 
experiência e consideradas particularmente adequadas para 
descrever, e tentar explicar, a construção factual da natureza.
No entanto, o mesmo assunto de nossa relação com outros 
organismos também levanta uma série de questões cuja essên­
cia é inteiramente diferente: somos melhores do que as baratas 
ou as bactérias devido ao fato de termos desenvolvido uma neu­
rologia muito mais complexa? Em que condições (se é que 
existem) temos o direito de conduzir outras espécies à extinção 
ao eliminar seus hábitats naturais? Violamos algum código 
moral quando usamos a tecnologia genética para colocar o gene 
de uma criatura dentro do genoma de outra espécie? Tais ques­
tões - e poderiamos encher um grande livro com uma lista ape­
nas superficial - abordam o mesmo assunto, \u201cnós e eles\u201d, mas 
evocam preocupações diferentes que simplesmente não podem 
ser resolvidas, ou sequer muito esclarecidas, por meio de dados 
factuais de qualquer tipo. Nenhuma medida do poder mental 
dos seres humanos em relação ao das formigas resolverá a pri­
meira questão, e nenhum tratado sobre a tecnologia da transfe­
rência genética lateral proporcionará grande ajuda na última.
Essas questões se referem a problemas morais a respeito 
do valor e do significado da vida, tanto sob a forma humana 
como de maneira mais geral. Seu elaborado debate deve ser 
conduzido sob um magistério diferente, muito mais antigo do 
que a ciência (pelo menos como investigação formalizada) e 
dedicado à busca do consenso, ou ao menos de um esclarecí-
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mento de pressuposições e critérios, a respeito do \u201cdeve ser\u201d 
ético, mais do que uma busca de um \u201cé\u201d factual em relação à 
construção material do mundo natural.1 Esse magistério de dis­
cussão ética e de busca pelo significado inclui muitas disciplinas 
tradicionalmente reunidas na categoria humanidades - muito da 
filosofia e grande parte da literatura e da história, por exemplo. 
No entanto, as sociedades humanas geralmente concentraram o 
discurso desse magistério em uma instituição chamada \u201creli­
gião\u201d (que, apesar do nome único, manifesta uma diversidade de 
abordagens surpreendente, incluindo todas as crenças possíveis 
sobre a natureza, ou mesmo a existência, do poder divino; assim 
como todas as atitudes possíveis de liberdade de discurso versus 
obediência a textos ou doutrinas imutáveis).
Não estou de modo algum argumentando que pessoas éti­
cas devam validar seu discurso lançando abertamente mão da 
religião - pois nós damos nomes variados ao discurso moral 
desse magistério necessário e todos sabemos que os ateus po­
dem levar uma vida cheia de princípios, enquanto os hipócritas 
podem se enrolar em qualquer bandeira, incluindo (principal­
mente) a bandeira de Deus e a de seu país. Mas tomo a afirmar 
que a religião ocupou o centro desse magistério na tradição da 
maioria das culturas.
1 Peço desculpas a meus colegas filósofos e de outras áreas relacionadas por uma \u201csobre­
voada\u201d aparentemente tão displicente de um assunto antigo e difícil, ainda sujeito a mui­
tos debates, e que requer sutileza e consideráveis nuanças para abarcar suas complexas 
ramificações. Reconheço que essa defesa da separação do factual e do ético foi controver­
sa (e muito atacada) desde que David Hume fez uma distinção explícita entre \u201cé\u201d e \u201cdeve 
ser\u201d. (Certa vez até escrevi um texto universitário constrangedoramente tendencioso sobre 
a abordagem posterior dessa questão por G. E. Moore, em seu Principia Ethica de 1903, 
no qual ele se referia a ela como \u201ca falácia naturalista\u201d.) Reconheço o valor de algumas 
objeções clássicas à separação estrita - particularmente o fato de ser vazio afirmar \u201cdeve 
ser\u201d em relação a comportamentos que se provaram fisicamente impossíveis no \u201cé\u201d da 
natureza. Também reconheço que não tenho conhecimento dos detalhes atuais do debate 
acadêmico (embora tenha tentado me manter informado sobre os principais acontecimen­
tos). Finalmente, reconheço que se alguém fora do meio acadêmico fizesse um pronuncia­
mento igualmente sucinto sobre uma questão delicada e controversa na minha área da evo­
lução da paleontologia, eu ficaria irritado.
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Uma vez que cada um de nós deve tomar algumas decisões 
a respeito das regras que seguiremos ao conduzir nossas pró­
prias vidas (mesmo que nosso único compromisso seja com a 
doutrina incansável da autopromoção, não importa quais sejam 
seus custos para outras pessoas) - e já que acredito que nin­
guém pode ficar inteiramente indiferente ao funcionamento do 
mundo ao nosso redor (nem que seja para aprender o suficien­
te sobre a velocidade dos carros em movimento para não 
entrarmos em uma estrada de alta velocidade a cada vez que 
desejarmos atravessar a rua) todos os seres humanos devem 
prestar uma atenção ao menos rudimentar tanto ao magistério 
da religião quanto ao da ciência, não importando como dese­
jem chamar essas áreas de investigação ética e factual. A sim­
ples existência pode ser defendida pela preocupação mínima 
aqui caricaturada. Mas o sucesso genuíno - pelo menos no sen­
tido antigo de importância genuína - requer um compromisso 
sério com as questões profundas e difíceis dos dois magisté­
rios. Os dois magistérios não vão se fundir; portanto, cada um 
de nós deve integrar esses componentes distintos a uma visão
Ainda assim, gostaria de defender minha abordagem não como uma diminuição, 
nem como um desrespeito à complexidade de um assunto importante, mas como um reco­
nhecimento baseado no princípio de que a maioria das questões desse calibre exigem tra­
tamentos diferentes em vários níveis de investigação. Generalizações exageradas sempre 
incluem exceções e regiões duvidosas de \u201cde algum modo\u201d em suas fronteiras - sem inva­
lidar, nem sequer ferir, a irrefutabilidade da afirmação principal. (Na minha atividade de 
história natural, muitas vezes nos referimos a esse fenômeno como a regra do \u201crato de 
Michigan\u201d, em homenagem ao especialista em detalhes taxonômicos que sempre se levan­
ta no fundo da sala para contestar a afirmação de um palestrante sobre algum princípio evo­
lutivo: \u201cSim, mas existe um rato do Michigan que...\u201d) Entre os especialistas, a atenção se 
volta naturalmente para as exceções e os senões - pois esses são os detalhes interessantes 
que fornecem a matéria-prima para o estudo acadêmico de alto nível. (Por exemplo, meus 
colegas de teoria evolucionista estão hoje em dia envolvidos em um debate sobre se uma 
quantidade limitada de evolução lamarckiana pode estar ocorrendo em fenômenos especí­
ficos nas bactérias. Mesmo assim, o fascínio e a intensidade dessa questão não mudam a 
conclusão bem documentada de que os