Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)

Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)


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da devastadora Guerra dos Trinta Anos); o papa tinha um 
poder excepcional tanto como chefe secular de territórios espe­
cíficos quanto como, pelo menos, a autoridade espiritual titular 
de áreas muito maiores; a Corte papal era praticamente a única 
a não ter a estabilidade de sucessões dinásticas, pois os novos 
papas eram eleitos e podiam até mesmo ser recrutados em 
meios não-aristocráticos; finalmente, muitos papas chegavam 
ao cargo já idosos, o que fazia com que as sucessões fossem 
particularmente rápidas e poucos pontífices reinassem durante 
um tempo longo o bastante para consolidar um poder adequado.
Acrescente-se então a essa mistura um homem brilhante e 
temperamental que já havia causado problemas, e que agora 
desdenhava diretivas papais importantes (ou, pelo menos, 
havia sido deliberada e até insultuosamente provocador) apre­
sentando seu novo livro como um suposto diálogo entre defen­
sores iguais, e colocando os argumentos em defesa de uma 
Terra central, a posição oficial da Igreja, na boca de um perso-
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nagem cuja importância era equivalente a seu nome - 
Simplício. Urbano VIII deu um passo realmente errado segun­
do o julgamento da história posterior, mas não tenho dificulda­
des em entender como ele se sentiu ultrajado, e mesmo traído 
- e tais sentimentos tinham conseqüências previsíveis naquela 
época de sensibilidades muito diferentes e procedimentos uni­
versalmente aceitos.
O poder da história de Galileu continua a assombrar qual­
quer questão envolvendo a ciência e a autoridade papal, hoje 
mais do que nunca. Não vejo outro modo de compreender a 
enorme surpresa dos comentadores científicos e as enormes 
manchetes em todo o mundo ocidental quando o papa João 
Paulo II divulgou recentemente um pronunciamento que me 
pareceu inteiramente anódino e completamente de acordo com 
a longa defesa dos MNI pela Igreja Católica em geral e com as 
legítimas reivindicações da evolução humana como objeto de 
estudo em particular. Afinal, eu sabia que o mui conservador 
papa Pio XII havia defendido a evolução como um objeto legí­
timo de investigação na encíclica Humani Generis, publicada 
em 1950, e que fizera isso por meio de um recurso central e 
explícito dos MNI - ou seja, identificando o estudo da evolu­
ção física fora de seu magistério e ao mesmo tempo distinguin­
do esses conceitos darwinianos de um assunto muitas vezes 
confundido com alegações científicas, mas que na verdade 
pertence ao magistério da religião: a saber, a origem e a cons­
tituição da alma humana.
No entanto, depois de leitura e estudo mais cuidadosos, dei- 
me conta de que o pronunciamento de 1996 do papa João Paulo 
II havia acrescentado uma importante dimensão ao documento 
anterior de Pio, divulgado cerca de meio século antes. Os deta­
lhes desse contraste constituem meu exemplo favorito dos MNI 
usados e desenvolvidos por um líder religioso que geralmente 
não é visto como representante de uma vanguarda conciliatória 
dentro de seu próprio magistério. Se os MNI definem a opinião
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atual do descendente direto de Urbano VIII, então podemos 
desfrutar um consenso abrangente e bem-vindo.2
O Humani Generis de Pio XII (1950), um documento 
extremamente tradicional escrito por um homem profunda­
mente conservador, aborda todos os \u201cismos\u201d e descrenças que 
assolavam o pós-guerra e dava conta da luta para reconstruir a 
decência humana a partir das cinzas do Holocausto. A encícli- 
ca tem como subtítulo \u201ca respeito de algumas falsas opiniões 
que ameaçam abalar as bases da doutrina católica\u201d, e começa 
com uma afirmação de preparação para a luta:
O desacordo e o erro entre os homens em relação a assun­
tos morais e religiosos sempre foram motivo de profundo 
desgosto para todos os homens de bem, mas sobretudo 
para os verdadeiros e leais filhos da Igreja, especialmente 
hoje, quando vemos os princípios da cultura cristã serem 
atacados por todos os lados.
E Pio ataca, consecutivamente, vários inimigos externos 
da Igreja: o panteísmo, o existencialismo, o materialismo dia­
lético, o historicismo e, de maneira óbvia e preponderante, o 
comunismo. Ele então observa com tristeza que algumas pes­
soas bem-intencionadas dentro da Igreja foram vítimas de um 
relativismo perigoso - \u201cum pacifismo e igualitarismo teológi­
co segundo o qual todos os pontos de vista se tomam igual­
mente válidos\u201d - de modo a incluir aqueles que anseiam por 
abraçar a religião cristã, mas não desejam aceitar o magistério 
particularmente católico.
Da primeira vez que Pio menciona a evolução, é para 
denunciar seu uso equivocado e excessivamente abrangente 
por zelosos defensores dos temidos \u201cismos\u201d:
2 O restante dessa seção sobre as opiniões papais a respeito da evolução foi adaptado de 
um ensaio publicado anteriormente em Leonardo \u2019s Mountain of Clams and the Diet of 
Worms (Crown, 1998).
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Alguns imprudentes e indiscretos afirmam que a evolução... 
explica a origem de todas as coisas... Os comunistas apoiam 
alegremente esse ponto de vista de modo que, quando as 
almas dos homens forem privadas de qualquer idéia de um 
Deus pessoal, então eles possam defender e propagar seu 
materialismo dialético de maneira mais eficaz.
Pio apresenta sua principal afirmação sobre a evolução 
perto do final da encíclica, nos parágrafos 35 a 37. Ele aceita a 
explicação-padrão dos MNI, e começa reconhecendo que a 
evolução está localizada em um terreno complicado onde as
duas áreas estão muito perto uma da outra. \u201cAgora, resta a
\u2713
NOS falar sobre essas questões que, embora digam respeito às 
ciências positivas, estão no entanto mais ou menos relaciona­
das com as verdades da fé cristã.\u201d3
Pio escreve as palavras conhecidas que permitem aos cató­
licos aceitar a evolução do corpo humano (um fato que perten­
ce ao magistério da ciência), contanto que aceitem a criação 
divina e a origem da alma (uma noção teológica pertencente ao 
magistério da religião).
A Autoridade da Igreja não proíbe que, em conformidade 
com o atual estado das ciências humanas e da teologia
3 É interessante notar que o tema geral desses parágrafos não diz respeito à evolução em 
geral, mas à refutação de uma doutrina que Pio chama de \u201cpoligenismo\u201d, ou seja, a noção 
de que o homem tem ancestrais múltiplos - pois ele considera tal doutrina incompatível 
com a teoria do pecado original, \u201cque advém de um pecado realmente cometido por um 
indivíduo, Adão, e que, geração após geração, é passado a todos os demais, tomando-se 
também o seu pecado\u201d. Nesse caso, Pio pode estar transgredindo o princípio dos MNI - 
mas eu não sou capaz de julgar, pois não compreendo os detalhes da teologia católica e 
desconheço, portanto, de que maneira tal afirmação pode ser lida. Se Pio argumenta que 
não podemos defender uma teoria segundo a qual todos os seres humanos modernos têm 
origem numa população ancestral e não num indivíduo ancestral (um fato potencial), por­
que tal idéia questionaria a doutrina do pecado original (um construto teológico), então eu 
diria que ele está equivocado por deixar que o magistério da religião imponha uma conclu­
são ao magistério da ciência.
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sagrada, as pesquisas e debates conduzidos por indivíduos 
com experiência em ambas as áreas sejam feitas em rela­
ção à teoria da evolução, na medida em que esta investiga 
a origem do corpo humano a partir de uma matéria preexis­
tente e viva - pois a fé católica nos obriga a afirmar que as 
almas são diretamente criadas por Deus.
Até aqui eu não havia encontrado nada de surpreendente 
em Humani Generis, e nada que aliviasse meu estranhamento 
a respeito da novidade da afirmação de 1996 do papa João 
Paulo II. Mas li um pouco mais e dei-me conta de que o papa 
Pio havia dito algo mais sobre a evolução, algo que tomava a 
afirmação de João Paulo realmente muito