Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)

Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)


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interessante. Para 
resumir, Pio proclamara que, enquanto a evolução podia ser 
legítima em princípio, sua teoria, na verdade, não havia sido 
provada e podia muito bem estar totalmente errada. Além dis­
so, fica-se com a nítida impressão de que Pio estava caminhan­
do célere rumo a um veredicto de falsidade. Continuando dire­
tamente após a última citação, ele nos dá conselhos sobre o 
estudo correto da evolução:
No entanto, isso deve ser feito de tal maneira que as razões 
de ambas as opiniões, ou seja, as favoráveis e as desfavo­
ráveis à evolução, sejam pesadas e julgadas com a serieda­
de, moderação e justa medida necessárias... Algumas pes­
soas, no entanto, transgridem de forma violenta essa liber­
dade de discussão quando agem como se a origem do cor­
po humano a partir de matéria preexistente e viva já fosse 
algo completamente certo e provado pelos fatos descober­
tos até agora e pela reflexão sobre esses fatos, e como se 
não houvesse nada nas fontes da revelação divina que exi­
gisse grande moderação e cautela nessa questão.
Para resumir, Pio aceita o princípio dos MNI ao permitir 
aos católicos aceitar a hipótese da evolução do corpo humano,
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contanto que aceitem a infusão divina da alma. Mas ele então 
oferece um conselho paternal (e religioso) aos cientistas sobre 
o status da evolução como conceito científico: a idéia ainda 
não está provada e vocês devem ser especialmente cautelosos, 
pois a evolução levanta muitas questões perturbadoras bem na 
fronteira do meu magistério. Pode-se ler esse segundo conse­
lho de duas maneiras bastante diferentes: seja como uma incur­
são gratuita em um magistério diferente, seja como a opinião 
perspicaz de um forasteiro inteligente e preocupado.
De qualquer maneira, essa segunda afirmação, raramente 
citada (de que a evolução ainda não foi provada e é um pouco 
perigosa) - e não a primeira defesa dos MNI, mais familiar (de 
que os católicos podem aceitar a evolução do corpo contanto 
que aceitem a criação da alma) - , define a novidade e o interes­
se do recente pronunciamento de João Paulo.
João Paulo começa resumindo a antiga encíclica de Pio de 
1950, e particularmente reafirmando os MNI - nada de novo 
aqui e nenhum motivo para uma publicidade maior:
Em sua encíclica Humani Generis (1950), meu predeces- 
sor Pio XII já havia afirmado não haver oposição entre a 
evolução e a doutrina da fé no homem e em sua vocação.
A novidade e os novos valores do pronunciamento de João 
Paulo residem em sua profunda revisão da segunda e muito 
citada afirmação de Pio segundo a qual a evolução, mesmo que 
concebível em princípio e passível de conciliação com a reli­
gião, tem poucos argumentos persuasivos e pode muito bem 
ser falsa. João Paulo afirma - e posso apenas dizer amém e 
obrigado por perceber isso - que o meio século entre o estudo 
de Pio sobre as ruínas da Segunda Guerra Mundial e seu pró­
prio pontificado às portas de um novo milênio haviam teste­
munhado tamanha quantidade de informação e tamanho refi­
namento da teoria que a evolução não pode mais ser posta em 
dúvida por pessoas de boa índole e intelecto desenvolvido:
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Pio XII acrescentava... que esse ponto de vista (a evolu­
ção) não deveria ser adotado como se fosse uma doutrina 
certa, provada... Hoje, quase meio século depois da publi­
cação da encíclica, novos conhecimentos levaram ao reco­
nhecimento da teoria da evolução como mais do que uma 
hipótese. É de fato evidente que essa teoria foi progressi­
vamente aceita por pesquisadores, depois de uma série de 
descobertas em várias áreas de conhecimento. A conver­
gência, nem buscada nem fabricada, dos resultados de tra­
balhos realizados de forma independente é por si só um 
argumento significativo a favor da teoria.
Concluindo, Pio havia admitido a contragosto que a evolu­
ção era uma hipótese legítima que ele considerava apenas rudi­
mentarmente fundamentada e potencialmente (como ele decer­
to esperava que fosse) falsa. João Paulo, quase cinqüenta anos 
depois, reafirma a legitimidade da evolução sob o princípio 
dos MNI, mas então acrescenta que informações e teorias adi­
cionais colocaram a factualidade da evolução além de qualquer 
dúvida. Cristãos sinceros podem agora aceitar a evolução não 
como mera possibilidade plausível, mas também como fato efe­
tivamente provado. Em outras palavras, a opinião católica ofi­
cial sobre a evolução mudou de \u201cvamos dizer que não é verda­
de, mas podemos lidar com isso se formos obrigados\u201d (a opi­
nião contrariada de Pio em 1950) para a verdadeira aceitação de 
João Paulo: \u201cela foi provada; sempre poderemos celebrar a fac­
tualidade da natureza, e estamos ansiosos para ter interessantes 
discussões com implicações teológicas.\u201d Qualifico alegremen­
te essa mudança de opinião como evangelho - literalmente, 
boas novas. Represento o magistério da ciência, mas acolho 
com alegria o apoio de um líder importante do outro grande 
magistério de nossas vidas complexas. E lembro a sabedoria do 
rei Salomão: \u201cComo água fresca para uma alma sedenta, assim 
são as boas novas de um país distante\u201d (Provérbios, 25:25).
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2. O CLÉRIGO QUE FOI MAIS LONGE DO QUE NEWTON. Se OS
MNI não funcionassem e a religião realmente exigisse a 
supressão de dados factuais importantes que representassem 
pontos-chave da contradição com o dogma teológico, então 
como poderíam as fileiras da ciência incluir tantos clérigos 
ordenados e devotos em seus níveis mais respeitados e expe­
rientes - do bispo dominicano do século XIII Alberto Magno, 
professor de Tomás de Aquino e o mais convincente escritor 
medieval de assuntos científicos; a Nicholas Steno, que escre­
veu os trabalhos fundamentais de geologia do século XVII e 
também se tomou bispo; a Lazzaro Spallanzani, o fisiologista 
italiano do século XVIII que demoliu, por meio de experiên­
cias decisivas, os últimos argumentos sérios a favor da geração 
espontânea da vida; ao abade Breuil, o maior estudioso da arte 
das cavernas paleolíticas do século XX?
Na visão convencional da guerra entre os magistérios, a 
ciência deu início à sua inevitável expansão em detrimento da 
religião no final do século XVII, um período notável conheci­
do pelos historiadores como \u201ca revolução científica\u201d. Todos 
reverenciamos o principal símbolo da nova ordem, Isaac 
Newton, cujos feitos foram resumidos por seu contemporâneo 
Alexander Pope na mais incisiva de todas as epítomes:
A natureza e as leis da natureza se encontravam escondidas
na noite
Deus disse: \u201cFaça-se Newton\u201d, e tudo se tomou luz.
Muitas pessoas ainda ficam surpresas ao descobrir - 
embora o grande homem nunca tenha tentado esconder seus 
compromissos - que Newton (assim como todos os outros 
membros proeminentes de seu círculo) era um crente convicto. 
Ele passou muito mais tempo trabalhando em suas exegeses 
das profecias de Daniel e de João, e em sua tentativa de inte­
grar a cronologia bíblica às histórias de outros povos antigos, 
do que se dedicando à física.
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Cientistas com crenças teológicas fortes aceitaram os MNI 
de diversas maneiras - do argumento de \u201cDeus que dá corda no 
relógio\u201d, geralmente seguido pelos contemporâneos de New- 
ton, ao \u201cmaterialismo linha-dura\u201d da maioria dos cientistas 
religiosos atuais (que defendem que questões \u201cprofundas\u201d so­
bre significados maiores ficam de fora do domínio da ciência e 
caem sob a égide da investigação religiosa, enquanto os méto­
dos científicos, baseados na invariância espaço-temporal da lei 
natural, são aplicáveis a todas as questões potencialmente 
solucionáveis sobre os fatos da natureza). Contanto que as 
crenças religiosas não ditem respostas específicas a questões 
empíricas ou impeçam a aceitação de fatos documentados, os 
cientistas mais devotados à religião não deveríam ter proble­
mas para realizar