Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)

Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)


DisciplinaDivulgação Científica103 materiais86 seguidores
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e não o combate frontal à própria abstra­
ção (uma estratégia que raras vezes vai além de discursos ten­
denciosos se não for amparada por detalhes interessantes).1
Todos sabemos que os acadêmicos clássicos estabeleceram 
a esfericidade da Terra. A cosmologia de Aristóteles partia do
1 Grande parte do restante desta seção vem de um ensaio anterior, \u201cThe Late Birth of a Fiat 
Earth\u201d, publicado no livro Dinosaur in a Haystack (Harmony Books, 1995).
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pressuposto de que o planeta era esférico e Eratóstenes real­
mente mediu a circunferência da Terra no século III a.C. O 
mito da Terra plana argumenta que esse conhecimento foi pos­
teriormente perdido quando a escuridão eclesiástica se abateu 
sobre a Europa. Durante mil anos, praticamente todos os aca­
dêmicos sustentavam a crença de que a Terra devia ser plana - 
como o chão de uma tenda, sustentada pela cobertura do céu, 
para citar uma metáfora bíblica lida de maneira literal. Então o 
Renascimento redescobriu as noções clássicas de esfericidade, 
mas a obtenção de provas exigiu a coragem de Colombo e 
outros grandes exploradores que deveríam ter caído pelas bor­
das da Terra, mas (começando pela expedição de Magalhães) 
voltaram para casa da direção oposta depois de dar a volta toda.
A versão inspirada e infantil do mito é centrada na figura 
de Colombo, que supostamente superou a calúnia de um grupo 
de clérigos numa batalha épica em Salamanca entre a liberda­
de de pensamento e o dogmatismo religioso. Considerem essa 
versão da lenda extraída de um livro para crianças do ensino 
fundamental escrito em 1887, pouco depois da invenção do 
mito (mas pouco diferente de relatos lidos por mim quando 
criança, na década de 1950):
\u201cMas se a Terra é redonda\u201d, disse Colombo, \u201cnão é o 
Inferno que fica sob o mar bravio. Ali deve ficar a parte 
oriental da Ásia, o Catai de Marco Polo\u201d... Na entrada do 
convento estava reunido o imponente grupo - monges de 
cabeça raspada de batinas... cardeais de roupas verme­
lhas... \u201cO senhor acha que a Terra é redonda... O senhor 
não sabe que os sagrados pais da Igreja condenaram essa 
crença... Essa sua teoria parece herética!\u201d Colombo tinha 
razão em tremer diante da palavra heresia: pois havia uma 
nova Inquisição funcionando a todo vapor, com seu elabo­
rado sistema de quebrar ossos, arrancar pele, esmagar 
dedos, enforcar, queimar e mutilar hereges.
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(Algumas citações e grande parte da documentação desta 
seção são oriundas de um excelente livro do historiador J. B. 
Russell, Inventing the Fiat Earth, Praeger, 1991.)
Sem dúvida dramático, mas inteiramente fictício. Nunca 
houve um período de \u201cescuridão da Terra plana\u201d entre os aca­
dêmicos (não importa o número de pessoas pouco instruídas 
que possa ter conceitualizado nosso planeta dessa maneira, 
tanto naquela época quanto hoje). O conhecimento grego da 
esfericidade jamais foi esquecido, e todos os grandes pensado­
res religiosos medievais aceitavam o fato de a Terra ser redon­
da como um fato estabelecido da cosmologia. Ferdinando e 
Isabel transferiram o controle dos planos de Colombo para 
uma comissão real chefiada por Hemando de la Talavera, con­
fessor de Isabel e, depois da derrota para os mouros, arcebispo 
de Granada. Essa comissão, composta de consultores religio­
sos e leigos, costumava se reunir, entre outros lugares, em 
Salamanca. E verdade que eles fizeram algumas sérias obje- 
ções intelectuais a Colombo, mas ninguém questionou o fato 
de a Terra ser redonda. Sua principal crítica consistia no argu­
mento de que Colombo não podería chegar às índias no tempo 
que previa, porque a circunferência da Terra era grande de­
mais. Além disso, seus críticos estavam com toda a razão. Co­
lombo havia \u201cmanipulado\u201d seus números para fazer a Terra pa­
recer muito menor do que realmente era e para fazer as índias 
parecerem a seu alcance. E desnecessário dizer que ele não 
chegou e não podería ter chegado à Ásia, e os nativos da 
América ainda são chamados de índios devido a esse erro.
Praticamente todos os grandes pensadores cristãos afirma­
vam que nosso planeta era redondo. O venerável Bede se refe­
ria à Terra como orbis in medio totius mundi positus (uma esfe­
ra localizada no centro do universo) no século VIII. As tradu­
ções de muitos textos gregos e árabes para o latim no século 
XII contribuíram muito para propagar os conhecimentos gerais 
de ciência natural entre os pensadores, particularmente a astro-
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nomia - e as convicções sobre a esfericidade da Terra foram 
disseminadas e fortalecidas. Roger Bacon (1220-1292) e To­
más de Aquino (1225-1274) afirmavam a esfericidade fazendo 
referência a Aristóteles e seus comentadores árabes, assim 
como os maiores cientistas da alta Idade Média, incluindo Ni- 
cholas Oresme (1320-1382). Todos esses homens faziam parte 
de ordens religiosas.
Portanto, quem estava defendendo uma Terra plana, se 
todos os maiores pensadores acreditavam na esfericidade? 
Toda maldade tem seu vilão, e Russell mostra que o inglês 
William Whewell, grande filósofo da ciência, foi o primeiro a 
identificar os principais culpados em sua History o f the 
Inductive Sciences, publicada em 1837 - dois personagens 
muito menos significativos, incluindo o razoavelmente conhe­
cido padre da igreja Lactâncio (245-325) e o absolutamente 
anônimo Cosmas Indicopleustes, que escreveu sua Christian 
Topography em 547-549. Russell comenta: \u201cWhewell apontou 
os culpados... como a prova da crença medieval em uma Terra 
plana, e praticamente todos os historiadores posteriores o imi­
taram - já que não conseguiram encontrar outros exemplos.\u201d
Possuo um exemplar de Divinae institutiones (Preceitos 
divinos), de Lactâncio, publicado em Lyon em 1541. Essa obra 
de fato inclui um capítulo intitulado De antipodibus (Nos 
extremos), onde o autor ridiculariza a noção de uma Terra 
redonda com todos os argumentos sobre australianos de cabe­
ça para baixo etc., que eram tidos como piada quando eu esta­
va na escola. Lactâncio escreve: \u201cPoderá existir alguém tão 
inepto para acreditar que os homens que vivem nesses extre­
mos andam de ponta-cabeça [quorum vestigia sint superiora 
quam capita]... que as árvores crescem de cabeça para baixo e 
que a chuva e a neve e o granizo caem para cima em vez de para 
baixo [pluvias, et nives, et grandinem sursum versus cadere in 
terram/?\u201d E Cosmas realmente defendia uma visão literal de
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uma metáfora bíblica - a Terra como um chão plano para o 
arco retangular dos céus.
Os criadores do mito da Terra plana nunca puderam negar 
o testemunho claro de Bede, Bacon, Aquino e outros - então 
argumentavam que esses homens haviam agido como raras 
réstias de luz em meio a uma escuridão total. Mas considerem 
o absurdo de tal posição. Quem construiu o pensamento orto­
doxo representando esse consenso de ignorância? Duas figuras 
menores chamadas Lactâncio e Cosmas Indicopleustes? Bede, 
Bacon, Aquino e seus semelhantes não eram iconoclastas cora­
josos. Eles formavam o consenso, e suas convicções sobre a 
esfericidade da Terra eram tidas como cânones, enquanto 
Lactâncio e seus colegas continuavam marginais.
Portanto, onde e como surgiu o mito da crença medieval 
numa Terra plana? O trabalho historiográfico de Russell nos dá 
boas dicas sobre épocas e pessoas. Nenhum dos racionalistas 
anticlericais do século XVIII - Condillac, Condorcet, Diderot, 
Gibbon, Hume ou Benjamin Franklin - acusavam os primeiros 
pensadores cristãos de acreditar numa Terra plana, embora 
esses homens não pudessem esconder seu desprezo pelas ver­
sões medievais da cristandade. Washington Irving deu um gran­
de empurrão na história da Terra plana em sua história em gran­
de parte fictícia de Colombo, publicada em 1828 - mas sua ver­
são não sobreviveu. A lenda ganhou corpo no século XIX, mas