Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)

Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)


DisciplinaDivulgação Científica103 materiais85 seguidores
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os dois lados não podem ser cha­
mados de ciência e religião segundo o critério básico da prova 
empírica. Pois a grande maioria do clero profissional e dos 
pensadores religiosos estão do mesmo lado da grande maioria 
dos cientistas - ambos são defensores dos MNI e da Primeira 
Emenda, e ambos são contra a imposição de qualquer doutrina 
teológica específica nos currículos científicos das escolas pú­
blicas, especialmente quando se trata de um ponto de vista tão 
minoritário e parcial. Por exemplo, a longa lista de acusações 
oficiais que contestaram com sucesso o estatuto criacionista do 
Arkansas em 1981 incluía alguns cientistas e educadores, mas 
um número ainda maior de sacerdotes ordenados de todas as 
grandes religiões e de pensadores religiosos. 2
2. Essa controvérsia é tão tipicamente americana quanto a 
torta de maçã e o Tio Sam. Nenhuma outra nação ocidental 
enfrenta uma ameaça tão grave sob a forma de um movimento 
político sério (em vez de alguns fracos espasmos periféricos). 
O movimento para impor o criacionismo nos currículos cientí­
ficos das escolas públicas tem sua origem em uma série de 
contrastes tipicamente americanos, ou de generalidades ex­
pressas em um contexto tipicamente americano: Norte contra 
Sul, ricos contra pobres, controle local ou estatal contra pa-
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drões federais. Além disso, o criacionismo da Terra jovem só 
pode ser defendido por fundamentalistas que consideram a 
Bíblia literalmente verdadeira em todas as suas palavras - uma 
crença atualmente marginal em todas as grandes religiões oci­
dentais e desenvolvida apenas no contexto fundamentalmente 
americano do pluralismo da Igreja protestante. Essa perspecti­
va fundamentalista não faria sentido em uma nação preponde­
rantemente católica, onde nunca tenha existido uma tradição 
de leitura literal da Bíblia (nem sequer uma tradição forte de 
leitura da Bíblia de alguma espécie, aliás). As tradições judai­
cas, mesmo entre os ortodoxos, podem reverenciar a Torá 
como a palavra absolutamente exata de Deus, em que não se 
pode alterar um ponto ou um título sequer, mas poucos estu­
diosos pensariam em interpretar esse texto imutável de forma 
literal.2 2
2 Não sou um especialista na Bíblia nem tampouco um exegeta e realmente não posso 
abordar essa questão de forma séria. Mas devo dizer que simplesmente não compreendo o 
que pode significar uma leitura \u201cliteral\u201d da Bíblia, uma vez que seu texto, compilado de 
tantas fontes diferentes, contém contradições freqüentes e inevitáveis. Essas leituras variá­
veis não representam um problema para a grande maioria das pessoas religiosas que con­
sideram a Bíblia um instrumento inspirado repleto de verdade moral e não um relato pre­
ciso da história humana ou uma descrição perfeita da factualidade da natureza. Para citar 
o exemplo mais óbvio, como podem os \u201cliteralistas\u201d conciliar as histórias da criação radi­
calmente diferentes contidas no Gênesis I e II, que, segundo todos os estudiosos da Bíblia 
que já consultei, vêm claramente de fontes diferentes? No Gênesis I, mais conhecido, 
Deus cria o mundo em seis dias consecutivos, indo da luz à divisão das águas e do firma­
mento às terras e plantas, ao Sol e à Lua, e finalmente à vida animal cada vez mais com­
plexa. No sexto dia, cria os seres humanos, tanto macho quanto fêmea: \u201cEntão Deus criou 
o homem à sua imagem, à imagem de Deus Ele o criou; Ele criou macho e fêmea.\u201d No 
Gênesis II, Deus cria a Terra e o Céu e então cria o homem \u201ca partir do pó da terra\u201d. Ele 
então cria as plantas e animais, trazendo todos os animais até Adão, a quem dá o direito de 
escolher seus nomes. Mas Adão se sente só, e então Deus cria uma fêmea para ser sua 
companheira a partir de uma de suas costelas: \u201cE o Senhor Deus fez com que Adão caísse 
num sono profundo, e ele dormiu; e Ele então tomou uma de suas costelas, e fechou a feri­
da que ela havia criado; e da costela, que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez a 
mulher, e a trouxe até o homem. E Adão disse: Ela agora é osso do meu osso e carne da 
minha carne: ela se chamará Mulher.\u201d Nossa leitura tradicional junta essas duas histórias, 
tomando a sequência básica, que traz os seres humanos por último, do Gênesis I, mas 
tomando emprestado a história da costela da criação de Eva no Gênesis II. Muitas vezes 
provoco surpresa nas pessoas quando as faço observar essa contradição e mistura (pois
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O protestantismo sempre deu ênfase ao estudo pessoal da 
Bíblia, e à justificação pela fé, em vez de pelos santos ou pela 
interpretação dos padres - e a literalidade se toma compreensí­
vel em vista dessas práticas. No entanto, mais uma vez, a gran­
de maioria dos protestantes modernos não optariam por ler 
seus textos sagrados de maneira tão dogmática e livre - parti­
cularmente nas nações européias com uma diversidade limita­
da de estilos predominantemente liberais. Mas o protestantis­
mo americano se diversificou para tomar-se uma variada cole­
ção de seitas, exibindo todas as formas possíveis de devoção e 
crença. Obviamente, a grande maioria continua a adotar a mes­
ma forma de leitura alegórica e espiritual de seus vizinhos 
católicos e judeus, mas uns poucos grupos - em sua maioria 
sulistas, rurais e pobres, para citar as dicotomias características 
aqui mencionadas - combateram qualquer \u201cmodernismo\u201d com 
uma leitura literal que não admite mudanças, tampouco argu­
mentações: \u201cPrefiro a religião à moda antiga. Ela era boa o 
suficiente para meu avô e é boa o suficiente para mim.\u201d (Por 
motivos de ignorância pessoal, não considero aqui as tradições 
islâmicas e das religiões orientais.)
Para citar apenas um exemplo da base tipicamente ameri­
cana do fundamentalismo, e da surpresa causada pelo criacio- 
nismo no restante do mundo religioso, certa vez hospedei-me 
na Casa dei Clerico, em Roma, um hotel mantido pelo Vati­
cano, destinado sobretudo a padres itinerantes. Certo dia, no 
almoço, um grupo de jesuítas italianos e franceses me chamou. 
Eles pertenciam a um grupo de cientistas praticantes que esta­
va visitando Roma para participar de uma convenção sobre a 
ciência e a Igreja. Todos haviam lido a respeito do \u201ccriacionis-
mesmo as pessoas muito devotas raramente estudam a Bíblia nos dias de hoje). Elas pen­
sam que eu devo estar louco, ou tendo alucinações, então eu apenas as aconselho a verifi­
car (pelo menos a maioria das casas ainda tem as informações básicas, pouco importa que 
não tenham nenhum outro livro!) - e elas ficam ainda mais surpresas. Tenham sempre cui­
dado com aquilo sobre o que pensam ter certeza.
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mo científico\u201d na América e estavam muito confusos. Pensavam 
que a evolução havia sido adequadamente provada, e que com 
certeza não representava nenhuma ameaça para a religião (ha­
viam chegado a essa conclusão tanto por raciocínio próprio 
quanto por pronunciamentos do papa, discutidos nas páginas 63- 
69). O que, então, estava acontecendo chez moi, perguntaram? O 
criacionismo primário tinha realmente bons argumentos científi­
cos, desenvolvidos por fundamentalistas e não por cientistas 
profissionais? Seguiu-se uma deliciosa conversa poliglota que 
durou meia hora, em três línguas diferentes. Eu lhes disse que 
não havia nenhum argumento novo (nenhum argumento, na ver­
dade) e que essas questões eram a um só tempo inteiramente 
políticas e intrinsecamente americanas. Eles foram embora 
satisfeitos e talvez com uma noção melhor do grande problema 
que os Estados Unidos representam para o resto do mundo.
PROBLEMAS DENTRO DE CASA:
UMA BREVE HISTÓRIA LEGAL 
DE SCOPES A SCALIA
O movimento fundamentalista pode ser tão antigo quanto os 
Estados Unidos e sua oposição ao ensino da evolução pode ser 
tão antiga quanto Darwin. No entanto, esse movimento margi­
nal, sem conotações políticas e basicamente regional, não teve 
forças para provocar efeitos legislativos