Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)

Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)


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- a 
batalha legal envolvendo o criacionismo que se estendeu de 
Scopes em 1925 a Edwards vs. Aguillard em 1987. (O juiz 
Raulston não permitiu que os especialistas de Darrow testemu­
nhassem no julgamento de Scopes, e a lei da Louisiana foi anu­
lada por um julgamento sumário e nunca chegou ao tribunal; 
os argumentos apresentados diante da Suprema Corte duram 
apenas uma hora e não têm testemunhas.) Para mim, foi uma 
grande alegria e um grande privilégio poder participar minima­
mente de um momento histórico que envolveu personagens tão 
importantes quanto Bryan e Darrow.
O julgamento do Arkansas pode ter sido insignificante, 
mas muitos casos, tanto cômicos quanto sérios, ainda me pare­
cem reveladores ou instrutivos. Como reveladores, posso citar 
meus dois momentos favoritos do julgamento. Em primeiro 
lugar, lembro-me do testemunho de um professor do ensino 
fundamental descrevendo um exercício usado para ensinar aos 
estudantes a imensa idade da Terra: ele esticava um barbante 
de uma extremidade da sala à outra, e então posicionava as 
crianças em pontos apropriados para marcar a origem da vida,
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a morte dos dinossauros e o início da vida humana próximo à 
parede no final do barbante. Na reinquirição, o promotor geral 
assistente lhe fez uma pergunta da qual se arrependería: o que 
o senhor faria, sob a lei do tempo igual, se tivesse de apresen­
tar o ponto de vista alternativo segundo o qual a Terra tem ape­
nas 10 mil anos de idade? \u201cAcredito que teria de arrumar um 
barbante mais curto\u201d, respondeu o professor. O tribunal inteiro 
explodiu numa gargalhada, obviamente motivado pela mesma 
imagem que imediatamente me veio à mente: vinte alunos 
espremidos uns contra os outros em um milímetro de barbante.
Em um segundo momento-chave, o lado criacionista 
entendia tão pouco sobre o assunto da evolução que trouxe, do 
longínquo Sri Lanka, um bom cientista chamado Chandra 
Wickramasinghe, que por acaso discordava da teoria de Dar- 
win (mas que não era um antievolucionista, e certamente não 
era um criacionista da Terra jovem - distinções que pareciam 
incompreensíveis para os líderes intelectuais dos criacionis- 
tas). O advogado deles perguntou-lhe: \u201cO que o senhor pensa 
sobre a teoria de Darwin?\u201d, e Wickramasinghe respondeu, no 
inglês carregado de seu país natal: \u201cBobagem.\u201d Ao ser interro­
gado por nosso advogado, este lhe perguntou: \u201cE o que o 
senhor pensa da idéia de que a Terra tem apenas 10 mil anos de 
idade?\u201d \u201cBobagem pior ainda\u201d, respondeu ele, conciso.
No avião, voltando para casa, me levantei para esticar as 
pernas (tudo bem, eu estava indo fazer pipi), e um homem com 
um rosto familiar, sentado em uma poltrona do corredor na clas­
se econômica, me parou e disse com o sotaque da região: \u201cSr. 
Gould, eu gostaria de lhe agradecer por ter vindo até aqui e nos 
ajudado com nosso probleminha.\u201d \u201cFoi um prazer\u201d, respondi, 
\u201cmas qual é seu interesse particular no caso? O senhor é cientis­
ta?\u201d Ele riu e negou a sugestão. \u201cO senhor é um homem de negó­
cios?\u201d, continuei. \u201cNão, não\u201d, respondeu ele afinal. \u201cEu era o 
governador. Eu vetei esse projeto de lei.\u201d Eu estava conversan­
do com Bill Clinton. Numa estranha circunstância da história
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que permitiu que esse drama fosse até a Suprema Corte, Clinton 
havia se tomado um pouco acomodado demais como govema- 
dor-prodígio, e não fizera uma campanha forte o suficiente para 
ser reeleito em 1980 - um erro que nunca tomou a cometer até 
chegar à presidência. O projeto de lei do criacionismo, que ele 
certamente teria vetado, foi aprovado durante esse intervalo e 
assinado por um governador mais conservador.
Mas essas anedotas apenas serviram para contrabalançar 
os momentos sérios e tocantes do julgamento - nenhum tão 
comovente quanto a dignidade de professores corretos que dis­
seram não poder praticar sua profissão de forma honrada se a 
lei fosse mantida. Um dos professores apontou para um trecho 
de seu livro de química que atribuía uma grande idade aos 
combustíveis fósseis. Já que a lei do Arkansas incluía especifi­
camente \u201cuma idade da Terra relativamente recente\u201d entre as 
definições da ciência da criação sujeitas a um \u201ctratamento 
equilibrado\u201d, esse trecho deveria ser modificado. O professor 
alegava não saber como fazer tal alteração. Por que não?, re- 
torquiu o promotor geral assistente em seu interrogatório. 
Basta incluir uma frase simples: \u201cAlguns cientistas, no entan­
to, acreditam que os combustíveis fósseis são relativamente 
jovens.\u201d Então, na afirmação mais impressionante de todo o 
julgamento, o professor respondeu: \u201cEu poderia\u201d, argumentou 
ele, \u201cacrescentar tal frase para cumprir a lei de forma mecâni­
ca. Mas como um professor consciencioso não posso fazê-lo. 
Pois \u2018tratamento equilibrado\u2019 deve significar \u2018dignidade equi­
valente\u2019, e portanto eu teria de justificar o acréscimo. E isso eu 
não posso fazer, pois nunca ouvi argumentos válidos que de­
fendessem tal posição.\u201d
Outro professor falou de dilemas semelhantes para propor­
cionar um tratamento equilibrado de uma maneira conscien­
ciosa, em vez de mecânica. Então, perguntaram-lhe, o que ele 
faria se a lei fosse mantida? Ele levantou os olhos e disse, 
numa voz calma e digna: \u201cEu teria tendência a não acatá-la.
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Não sou um revolucionário ou um mártir. Mas tenho responsa­
bilidades para com meus alunos e não posso decepcioná-los.\u201d
E agora, influenciado por essa frase séria, me dou conta de 
que fui um pouco confiante nessa pequena viagem pelas ruas 
da memória. Sim, tivemos uma vitória difícil e pontual depois 
de sessenta anos de limitação: os criacionistas não podem mais 
ter esperanças de realizar seus objetivos por meio da legislação 
oficial. Mas isso não quer dizer que esses fanáticos bem guar­
necidos e partidários vão se render. Em vez disso, eles muda­
ram de tática, muitas vezes adotando estratégias eficientes que 
não podem ser juridicamente impedidas. (Mas nós também 
podemos contra-atacar - e o fizemos de maneira eficiente em 
muitas partes do país - fazendo com que as escolas rejeitem os 
livros didáticos que não tenham uma abordagem adequada 
desse tópico fundamental das ciências biológicas.) Eles pro­
movem agitações na frente de escolas locais ou apresentam 
seus próprios candidatos em eleições que raramente têm gran­
de número de participantes, e podem portanto ser controladas 
por minorias que conhecem seus próprios eleitores e os levam 
às umas. (Mas os cientistas também são pais, e \u201ctoda a política 
é local\u201d, como costumava dizer meu próprio antigo congressis­
ta de Cambridge, MA.)
Acima de tudo - numa tática eficiente, muito mais difícil 
de ser combatida por agir de maneira tão insidiosa e invisível - , 
eles só podem causar agitação do modo mais vociferante e até 
mesmo ligeiramente ameaçador. A maioria de nós, incluindo a 
maioria dos professores, não é particularmente corajosa, e não 
escolhe tomar-se mártir. Quem quer problemas? Se o pequeno 
Billy diz a seus pais que eu estou ensinando evolução, e eles 
então provocam uma esperada e enorme confusão pública 
(particularmente em lugares dos Estados Unidos onde o cria- 
cionismo é antigo e tradicional)... bem, então, o que acontece 
comigo, com minha família e com meu emprego? Então talvez 
eu simplesmente não ensine evolução este ano. Que diabos. 
Quem precisa dessa confusão?
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O que me leva a reiterar um ponto evidente e definitivo: 
nós identificamos os protagonistas dessa batalha da pior 
maneira possível quando pintamos a evolução contra o criacio- 
nismo como um conflito essencial numa guerra mais ampla 
entre a ciência e a religião. Praticamente todos os cientistas e 
quase todos os líderes religiosos juntaram forças do mesmo 
lado - contra os criacionistas. E o tema principal deste livro é 
o principal ponto em relação