Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)

Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)


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ao qual todos concordam - os 
MNI e a necessidade de um diálogo respeitoso e compreensivo 
entre dois magistérios distintos, cada um habitando uma esfera 
importante da vida humana e cada qual mantendo sua casa da 
melhor maneira possível enquanto admira a casa do outro e 
mantém com ele uma amizade sincera, repleta de visitas e dis­
cussões esclarecedoras.
Os criacionistas não representam o magistério da religião. 
Eles promovem de maneira zelosa uma doutrina particularmen­
te teológica - uma visão da religião intelectualmente maiginal e 
demografícamente minoritária que desejam impor ao mundo 
todo. E os professores do Arkansas representam muito mais do 
que a \u201cciência\u201d. Eles representam a tolerância, a competência 
profissional, a liberdade de pesquisa e o respeito pela Cons­
tituição dos Estados Unidos - um precioso conjunto de objetivos 
partilhado pela grande maioria dos cientistas e teólogos profis­
sionais dos Estados Unidos de hoje. O inimigo não é a religião, 
mas o dôgmatismo e a intolerância, uma tradição tão antiga 
quanto a espécie humana e impossível de ser extinta sem uma 
eterna vigilância, que é, como proclama uma famosa expressão, 
o preço da liberdade. Podemos rir de um movimento maiginal 
como o dos criacionistas que defendem uma Terra jovem, mas o 
risco é todo nosso - pois a história demonstra o princípio de que 
cavalos de corrida azarões, se não forem controlados, muitas 
vezes se transformam em poderosos campeões. Deixemos a últi­
ma palavra com Clarence Darrow, que afirmou em seu pronun­
ciamento final no julgamento de Scopes, em 1925:
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Se hoje podemos tomar algo como a evolução e tomar seu 
ensino nas escolas públicas um crime, amanhã poderemos 
tomar um crime seu ensino nas escolas particulares e no 
ano seguinte poderemos tomar um crime seu ensino nas 
assembléias ou na igreja. E na sessão seguinte podemos 
banir os livros e jornais... A ignorância e o fanatismo estão 
sempre ocupados e precisam de alimento. Estão sempre se 
alimentando e pedindo mais. Hoje são os professores das 
escolas públicas; amanhã, os das particulares. No dia 
seguinte, os pastores e palestrantes, as revistas, livros, jor­
nais. Depois de um tempo, Sua Excelência, será uma luta 
de homem contra homem e crença contra crença, até que, 
com bandeiras ao vento e tambores rufando, voltemos à 
época gloriosa do século XVI, quando crentes acendiam 
fogueiras para queimar os homens que ousassem trazer 
alguma inteligência, luz e cultura à mente humana.
A PAIXÃO E A COMPAIXÃO DE 
WILLIAM JENNENGS BRYAN:
O OUTRO LADO DOS MNI
A versão habitual e heróica da evolução contra o criacionismo 
nos Estados Unidos do século XX acaba aqui, com um relato 
de êxito jurídico, alguns avisos para uma diligência no futuro e 
uma reafirmação de princípios intelectuais. Mas eu devo con­
tinuar, pois um capítulo importante do outro lado, uma história 
pouco contada e pouco conhecida, pede atenção num livro 
dedicado ao princípio dos MNI.
O ponto de vista habitual de William Jennings Bryan3 - 
que perdeu três vezes a eleição presidencial e foi um orador
3 Grande parte do material desta seção é oriundo de meu ensaio \u201cA última campanha de 
William Jennings Bryan\u201d, publicado em Viva o brontossauro.
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proeminente e tolo - é um alvo fácil de ser ridicularizado, par­
ticularmente para aqueles dentre nós que representam aquilo 
que pode ser chamado de \u201cestablishment intelectual do 
Noroeste\u201d e que nunca aceitaram as tradições muito diferentes 
do populismo do Meio-Oeste representadas por Bryan, tam­
bém conhecido como \u201cO grande humilde\u201d. Vejam a ridiculari­
zação inclemente de H. L. Mencken, que observou Bryan em 
ação no julgamento de Scopes e escreveu:
Ele já teve um pé na Casa Branca e a nação tremeu ao 
som de suas palavras. Agora ele é um papa de araque 
no cinturão da Coca-Cola, irmão dos pastores esqueci­
dos que convencem ignorantes em tabemáculos de fer­
ro atrás dos pátios de estações de trem... Que tragédia, 
começar a vida como herói e terminá-la como bufão.
O julgamento severo de Mencken sugere um surpreenden­
te paradoxo. Bryan passou grande parte de sua carreira como 
um reformista corajoso, não um estúpido de idéias confusas. 
Como, então, esse homem, o maior populista dos Estadosü 
Unidos, pôde se tomar, no fim da vida, seu maior reacionário?
Pois foi Bryan quem, apenas um ano depois da idade míni­
ma de 35, venceu a escolha preliminar dos candidatos demo­
cratas à presidência em 1896 com seu grito populista a favor da 
abolição do padrão do ouro: \u201cNão colocarás sobre a cabeça do 
trabalho essa coroa de espinhos. Não crucificarás a raça huma­
na em uma cruz de ouro.\u201d Bryan, que concorrería ainda duas 
vezes, perdendo por causa de nobres campanhas reformistas, 
particularmente a favor da independência das Filipinas do 
imperialismo americano. Bryan, o pacifista que renunciou 
como secretário de Estado de Wilson porque buscava uma neu­
tralidade mais rígida durante a Primeira Guerra Mundial. 
Bryan, que esteve à frente das vitórias mais progressistas de 
sua época: o voto das mulheres, a eleição direta dos senadores, 
o imposto de renda progressivo (ninguém gosta dele, mas
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pode-se pensar num sistema mais justo?). Como esse homem 
pôde unir suas forças com o culto do literalismo bíblico, numa 
tentativa de eliminar toda a liberalidade da religião e de sufo­
car as mesmas idéias libertárias que havia defendido em mui­
tos outros contextos?
Esse paradoxo ainda tem conseqüências em nossos dias, 
pois Bryan deixou um legado vivo (conforme documentado na 
seção precedente) e não apenas uma questão perdida nas bru­
mas da história. Pois, sem Bryan, as leis antievolução nunca 
teriam existido, a questão nunca teria sido levantada nos dias 
de hoje e nunca teria havido uma decisão da Suprema Corte. 
Cada uma das vitórias progressistas de Bryan teria acontecido 
sem ele. Ele lutou com bravura e ajudou muito; ainda assim, as 
mulheres estariam votando hoje e estaríamos pagando mais 
imposto de renda se ele nunca tivesse nascido. Mas a tentativa 
legislativa de derrotar a evolução foi uma cria sua e ele a 
defendeu com toda sua legendária fúria demoníaca. Ninguém 
mais, no mal-organizado movimento fundamentalista, tinha a 
mesma inclinação, e certamente ninguém mais tinha a compe­
tência legal ou os aliados políticos para fazê-lo.
Esse aparente paradoxo de alianças móveis é um tema 
recorrente da literatura a respeito de Bryan. Sua biografia na 
Encyclopaedia Britannica, por exemplo, diz que o julgamento 
de Scopes \u201cdemonstrou ser incompatível com muitas das cau­
sas progressistas que ele havia defendido durante tanto tempo\u201d.
Duas soluções principais foram propostas. A primeira, 
obviamente majoritária, sustenta que a última batalha de Bryan 
foi de fato incompatível com toda a campanha populista ante­
rior. Quem disse que um homem deve manter uma ideologia 
inalterada durante toda a idade adulta; e que história da psico­
logia humana podería ser mais familiar do que a transição de 
jovem liberal para velho conservador? A maioria dos biógrafos 
trata o julgamento de Scopes como algo embaraçoso e incom­
preensível, um final triste e surpreendente. O título do último
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capítulo de quase todos os livros sobre Bryan contém as pala­
vras \u201cderrocada\u201d ou \u201cdeclínio\u201d.
O ponto de vista minoritário, que vem ganhando terreno 
em biografias recentes e, segundo meu julgamento, está clara­
mente correto, diz que Bryan nunca se transformou nem 
recuou, e que considerava sua última batalha contra a evolução 
uma extensão do pensamento populista que havia inspirado a 
obra de toda sua vida. Mas como pode um movimento para 
banir o ensino da evolução nas escolas públicas ser chamado 
de progressista e como Bryan conciliou seus esforços anterio­
res com essa nova