Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)

Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)


DisciplinaDivulgação Científica103 materiais86 seguidores
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talvez mais do que todos os 
outros (com poucas exceções, como a evolução, a paleontolo­
gia e o beisebol). Grande parte desse fascínio vem do surpreen­
dente paradoxo histórico de que, ao longo da história ociden­
tal, a religião gerou tanto os horrores mais inomináveis quanto 
os mais comoventes exemplos de bondade humana em face do 
perigo. (O mal, acredito, vem da freqüente associação da reli­
gião com o poder secular. A cristandade patrocinou seu qui­
nhão de horrores, das inquisições às guerras - mas apenas por­
que essa instituição teve imenso poder secular ao longo de tan­
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to tempo na história ocidental. Quando meus antepassados 
tinham esse poder, durante menos tempo e na época do Antigo 
Testamento, cometemos atrocidades similares usando os mes­
mos argumentos.)
Acredito, do fundo do coração, numa concórdia respeitosa, 
e até mesmo amorosa, entre os magistérios da ciência e da reli­
gião - o conceito de MNI. Os MNI representam uma posição 
de princípios baseada em conceitos morais e intelectuais, e não 
uma solução meramente diplomática. Os MNI são também 
uma faca de dois gumes. Se a religião não pode mais estabele­
cer as conclusões factuais da natureza, que fazem parte do 
magistério da ciência, então os cientistas tampouco podem ale­
gar qualquer conhecimento de uma verdade moral a respeito 
da constituição empírica do mundo. A humildade mútua leva a 
consequências práticas importantes em um mundo feito de pai­
xões tão diversas. Todos ganharíamos se abraçássemos o prin­
cípio e aproveitássemos as consequências.
A história de Tomé e Thomas
O discípulo Tomé faz três aparições proeminentes noEvangelho de João, cada uma delas representando um 
importante princípio moral ou teológico. Ainda assim, esses 
três episódios são coerentes de um modo interessante que pode 
nos ajudar a compreender os diferentes poderes e procedimen­
tos da ciência e da religião. Encontramos Tomé pela primeira 
vez no capítulo 11. Lázaro acaba de morrer, e Jesus deseja 
retomar à Judéia para ressuscitar seu querido amigo. No entan­
to, os discípulos hesitam, lembrando a Jesus a violenta hostili­
dade que havia feito com que fossem apedrejados em sua últi­
ma visita. Jesus, à sua maneira habitual, conta uma pequena 
parábola ambígua, terminando com a conclusão de que ele 
deseja e precisa ir até Lázaro - diante do que Tomé dá um pas­
so à frente para quebrar o gelo e dar coragem aos discípulos: 
\u201cEntão Tomé disse... aos outros discípulos: Vamos todos, e 
morramos com ele.\u201d
No segundo incidente (capítulo 14), Jesus, na Ultima Ceia, 
afirma que será traído, e conseqüentemente deverá sofrer a 
morte física. Mas ele irá para um lugar melhor e preparará o 
caminho para seus discípulos: \u201cNa casa de meu Pai há muitas 
mansões... Vou preparar um lugar para vocês.\u201d Tomé, confuso, 
pergunta a Jesus: \u201cSenhor, não sabemos aonde vais; como 
saberemos o caminho?\u201d Jesus responde com um dos trechos 
mais conhecidos da Bíblia: \u201cEu sou o caminho, a verdade e a 
vida: ninguém chega ao Pai a não ser por mim.\u201d
Segundo a lenda, Tomé levou uma vida corajosa depois da
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morte de Jesus, propagando o Evangelho até a índia. Os dois 
incidentes bíblicos citados anteriormente também atestam sua 
imensa coragem e curiosidade. Ainda assim, ele é mais conhe­
cido pela terceira história, e por uma crítica que lhe é associa­
da - uma vez que ela o transformou em Tomé, o incrédulo, em 
nossas línguas e tradições. No capítulo 20, Jesus ressurrecto 
aparece primeiro diante de Maria Madalena, e depois diante de 
todos os discípulos, com a exceção de Tomé. A história famo­
sa conta o seguinte:
Mas Tomé não estava com eles quando Jesus veio. Então 
os outros discípulos lhe disseram: Nós vimos o Senhor. 
Mas ele lhes disse: A não ser que eu veja em suas mãos as 
chagas, e ponha meu dedo em suas feridas, e toque seu 
flanco, não acreditarei.
Jesus volta uma semana depois para concluir o conto moral 
de um homem corajoso e curioso, atormentado pela dúvida, 
mas punido e perdoado com uma lição gentil que serve para 
todos nós:
Então Jesus veio, com as portas fechadas, e ficou no meio 
de nós e disse: Paz a todos. Então ele disse a Tomé: 
Estenda a mão, e toque nas minhas; estenda mais a mão, e 
toque meu flanco: e não seja incrédulo, mas acredite. E 
Tomé respondeu-lhe: Meu Senhor e meu Deus.
(Atribui-se grande importância a esse último trecho na 
exegese tradicional por ser a primeira vez em que um discípu­
lo identifica Jesus com Deus. Os trinitaristas apontam a frase 
de Tomé como prova da natureza de Deus como Pai, Filho e 
Espírito Santo a um só tempo. Os unitaristas devem encontrar 
uma interpretação alternativa ao significado literal, argumen­
tando, por exemplo, que Tomé havia apenas feito uma excla­
mação, e não uma declaração.) De qualquer modo, a gentil
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reprimenda de Jesus traça um limite e revela a diferença funda­
mental entre a fé e a ciência:
E Jesus lhe disse: Tomé, tu acreditaste porque me viste:
abençoados sejam os que acreditam sem ter visto.
Em outras palavras, Tomé passa no teste porque aceita a 
prova de sua própria observação e se arrepende do ceticismo 
que demonstrara anteriormente. Mas sua dúvida significa fra­
queza, pois ele deveria ter confiado em sua fé e em sua credu­
lidade. O texto do Evangelho insiste no erro de Tomé represen­
tado por seu desejo exagerado de ver ambas as chagas (mãos e 
flanco) e pelo uso de dois sentidos (a visão e o tato) para elimi­
nar sua dúvida.
Mark Tansey, um artista contemporâneo que adora repre- 
sentar as lições morais e filosóficas da história ocidental com 
metáforas modernas pintadas com estilo hiper-realista, retratou 
o caráter elaborado da dúvida de Tomé. Em 1986, ele pintou 
um homem que não queria aceitar o movimento das placas tec- 
tônicas em geral, nem mesmo a realidade dos terremotos em 
particular. Um terremoto abriu uma fratura tanto na estrada 
califomiana quanto na colina próxima, mas o homem ainda 
duvida. Então ele pede a sua mulher, ao volante, que pare o 
carro bem em cima da fratura, enquanto ele vai e põe a mão na 
analogia da chaga de Cristo - a rachadura na estrada. Tansey 
deu a seu trabalho o título de Tomé, o incrédulo.
Aceito a moral dessa história para princípios importantes 
sob o magistério da ética e dos valores. Se você precisa consi­
derar o argumento básico e testar suas conseqüências, a cada 
vez que a raiva o impele a matar, então sua fidelidade ao Sexto 
Mandamento é realmente algo muito frágil. Nesses casos, as 
pessoas constantes são mais favorecidas (e merecem mais con­
fiança) do que aquelas que discutem e pedem justificativas a 
cada vez. Abençoados sejam os que não precisam de tal coisa, 
e que ainda assim conhecem o caminho da justiça e da decên­
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cia. Nesse sentido, Tomé mereceu seu castigo - enquanto 
Jesus, com sua reprimenda firme mas gentil, se toma um gran­
de professor.
Mas não consigo pensar numa formação mais contrária às 
normas da ciência - ou mais antiética se considerada sob seu 
magistério - do que a célebre reprimenda de Jesus a Tomé: 
\u201cAbençoados sejam os que acreditam sem ter visto.\u201d Uma ati­
tude cética em relação a afirmações baseadas apenas na autori­
dade, combinada com uma necessidade de provas diretas 
(especialmente no caso de alegações incomuns), é o primeiro 
mandamento do procedimento científico correto.
Tomé, o incrédulo, de Mark Tansey (cortesia de Curt Marcus 
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Pobre Tomé, o incrédulo. Naquele momento crucial e sim­
bólico, ele agiu da maneira mais admirável possível para um 
tipo de investigação - mas no magistério errado. Ele adotou o 
princípio-chave da ciência quando estava agindo num magisté­
rio diferente, o da religião.
Portanto, se o apóstolo Tomé defendia as normas da ciên­
cia no