Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)

Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)


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Em lugar da auto-afirmação
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sem limites, ela exige o autocontrole; em lugar da exclusão 
ou da eliminação de todos os competidores, ela exige que 
o indivíduo não apenas respeite, mas também ajude seus 
semelhantes... Ela repudia a teoria gladiatória da existên­
cia... As leis e os preceitos morais são direcionados para 
deter o processo cósmico.
Em vez disso, conforme argumenta Darwin, devemos sim­
plesmente admitir que a natureza não oferece nenhuma instru­
ção moral. Em outras palavras, devemos tomar o banho frio 
definitivo na natureza e reconhecer que, em nossa busca espe­
cífica, viemos ao lugar errado. Esse \u201cbanho frio\u201d pode parecer 
chocante à primeira vista. No entanto, à medida que experi­
mentamos seu revigoramento, passamos a considerar a imer­
são não triste ou deprimente, mas sim estimulante e libertado­
ra. Se deixarmos de procurar a verdade moral na realidade 
material, poderemos finalmente apreciar o fascínio da nature­
za e seu poder de resolver questões diferentes, mas igualmente 
poderosas, em sua própria área. E, quando rejeitarmos o canto 
da sereia das falsas fontes, estaremos livres para buscar solu­
ções para questões de moral e significado em seu lugar apro­
priado - dentro de nós mesmos.
Observei no primeiro capítulo (página 35) que considerava 
a carta de Darwin a Asa Gray a melhor afirmação já escrita 
sobre a correta relação entre a natureza factual e a moralidade 
humana ou, de maneira mais ampla, entre a ciência e a religião. 
Retomo agora à lógica da argumentação de Darwin ao formu­
lar a teoria do \u201cbanho frio\u201d da natureza como o princípio liber­
tador dos MNI. Recapitulando, Darwin começa negando o sig­
nificado da evolução para questões teológicas - exceto ao refu­
tar a antiga ilusão de que uma natureza intrinsecamente bené­
fica registra a existência e os atributos de Deus:
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No que diz respeito à visão teológica da questão, isso é 
sempre doloroso para mim. Fico estupefato. Nunca tive a 
intenção de escrever de maneira ateísta. Mas confesso ser 
incapaz de ver, como outros o fazem, e como eu gostaria 
de fazer, provas de propósito e bondade ao nosso redor.
Como, então, deveriamos interpretar os fatos da natureza, 
particularmente aqueles (como as famintas icneumônidas ou 
os gatos \u201cbrincando\u201d com ratos) que vemos com horror segun­
do nossos termos morais inadequados:
Estou inclinado a considerar todas as coisas o resultado de 
leis deliberadas, enquanto os detalhes, sejam eles bons ou 
ruins, seriam deixados à mercê do que podemos chamar 
de acaso.
Dois pontos dessa argumentação sutil merecem atenção 
especial. Em primeiro lugar, Darwin pode aceitar o desígnio 
geral como uma preferência pessoal ou mesmo como um guia 
para sua própria existência e conforto, mas ele sabe que tais 
questões não podem ser julgadas dentro do magistério da ciên­
cia - conforme explicita em sua última suspeita de que tais 
questões são \u201cprofundas demais para o intelecto humano\u201d. Em 
segundo lugar, Darwin faz uma clara distinção entre as questões 
que a ciência é incapaz de esclarecer e acontecimentos e 
padrões específicos (a factualidade da natureza) que podem ser 
descritos e explicados dentro do magistério da ciência. Assim - 
seguindo o preceito fundamental dos MNI - , Darwin nega que 
possamos esperar localizar, nesses acontecimentos factuais, 
quer a mão de Deus, quer uma lição moral para a conduta de 
nossas vidas. Valorizo especialmente a antevisão e a precisão 
das palavras de Darwin: \u201cos detalhes, sejam eles bons ou ruins, 
seriam deixados à mercê do que podemos chamar de acaso.\u201d 
Darwin não se refere ao \u201cacaso\u201d no sentido vernacular de 
\u201caleatório\u201d, \u201csem significado\u201d ou \u201cque não pode ser explica-
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do\u201d. Ao fazer a ressalva \u201cdo que podemos chamar de acaso\u201d, 
ele sugere uma visão da vida em relação à qual não tinha o que 
dizer, mas que os historiadores hoje chamam de \u201ccontingên­
cia\u201d. Ou seja, os fatos da natureza (os \u201cdetalhes\u201d) existem por 
motivos imediatos, definidos e potencialmente desvendáveis, 
sujeitos à explicação científica. No entanto, esses fatos não 
estão integrados em nenhuma trama controlada de um univer­
so planejado e determinista, com um significado preciso para a 
queda de cada pétala e de cada gota de chuva.
O universo, até onde sabemos, pode ter um objetivo e um 
significado definitivos (\u201cEstou inclinado a considerar todas as 
coisas o resultado de leis deliberadas\u201d), e essas determinações 
podem ser estabelecidas por um poder racional e transcenden­
te legitimamente chamado de Deus, mas a matéria-prima da 
ciência pertence a outro reino, além do alcance de tais genera­
lidades filosóficas (e que provavelmente jamais serão conheci­
das). Além disso, esses fatos menores e passíveis de serem 
conhecidos se transformam em um mundo composto de tantas 
partes complexas que a previsão do futuro, para não mencionar 
as inferências sobre o significado definitivo da totalidade, não 
pode ser obtida com certeza. Podemos usar as leis da natureza 
e nosso conhecimento a respeito de condições específicas para 
explicar e compreender acontecimentos precisos e até mesmo 
(e este é o maior objetivo da ciência) para construir teorias 
gerais sobre padrões factuais na natureza. Podemos saber \u201co 
quê\u201d e \u201ccomo\u201d, ou mesmo \u201cpor quê\u201d no sentido especial de 
explicar fatos específicos por meio de leis invariáveis da natu­
reza e de propriedades de materiais. Mas a ciência não tem 
acesso a questões definitivas sobre o \u201cporquê\u201d expressas como 
objetivo final ou valor eterno.
Para mostrar que não estou apresentando uma exegese estra­
nha e pessoal da afirmação de Darwin sobre \u201cdetalhes, sejam 
eles bons ou ruins, seriam deixados à mercê do que podemos 
chamar de acaso\u201d, podemos apresentar sua própria explicação
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por meio de um conjunto de exemplos magnificamente construí­
do, que vai de inegáveis lugares-comuns a implicações instigan- 
tes que prefeririamos não aceitar - todos destinados a convencer 
seu colega convencionalmente devoto, Asa Gray.
Darwin se move lentamente e com cuidado, mas de forma 
muito sistemática. Se um homem, surpreendido no topo de 
uma colina durante uma tempestade, morresse atingido por um 
raio, o acontecimento teria sem dúvida uma explicação cientí­
fica - baseada em leis gerais (de meteorologia e eletricidade) e 
em condições particulares (a localização do homem num deter­
minado momento). Mas ninguém podería alegar que a morte 
do homem podería ter sido prevista com precisão no momento 
de seu nascimento (ou mesmo uma hora antes de sua morte) 
ou, mais especificamente, que a tragédia tenha ocorrido por 
um motivo enraizado na moral e no significado derradeiro das 
coisas. O pobre homem simplesmente estava no lugar errado 
na hora errada - enquanto a natureza, como sempre moralmen­
te cega, seguia suas regras habituais. Darwin escreve: \u201cO raio 
mata um homem, quer ele seja bom ou mau, devido à comple­
xa ação de leis naturais.\u201d
Se essa morte natural tão trágica não tem um significado 
moral, o que dizer de um nascimento natural trágico? Darwin 
argumenta em seguida que uma criança mentalmente retardada 
pode dever sua condição a regras de genética e embriologia 
aplicadas a circunstâncias específicas. Sua condição pode por­
tanto ser explicada cientificamente. No entanto, só um perver­
tido moral acreditaria que a deficiência da criança era predes­
tinada pelo fato de ter acontecido ou que Deus segue um códi­
go de decência espalhando tais infortúnios em nossas vidas de 
maneira deliberada. Darwin escreve: \u201cUma criança (que pode 
vir a se tomar uma idiota) nasce pela ação de leis ainda mais 
complexas.\u201d (\u201cIdiota\u201d, na época de Darwin, era um termo téc­
nico para um determinado nível de deficiência mental e não 
uma ofensa.)
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Darwin chega, assim, ao ceme