Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)

Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)


DisciplinaDivulgação Científica103 materiais86 seguidores
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uma \u201ccoisa 
tão pequena\u201d em um vasto universo, um acontecimento evolu­
tivo muito improvável e não a manifestação de um desígnio 
universal. Façam dessa conclusão o que quiserem. Algumas 
pessoas consideram essa possibilidade deprimente. Quanto a 
mim, sempre considerei essa visão da vida estimulante - uma 
fonte tanto de liberdade quanto de conseqüente responsabilida­
de moral. Somos filhos da história e devemos encontrar nosso 
próprio caminho nesse universo tão diversificado e interessan­
te quanto possível - um universo indiferente ao nosso sofri­
mento e que portanto nos oferece toda a liberdade de triunfar, 
ou de fracassar, da maneira que nós mesmos escolhermos.
Os dois caminhos errados do irenismo
E s t o u s e m p r e a b e r t o a um mundo novo. Deus sabe quan­tos deles eu invento em minha área científica. Há alguns 
anos, vi-me diante de um termo teológico que me intrigou, tan­
to por seu ar secreto quanto por seu som melífluo - irenismo 
(da palavra grega que significa \u201cpaz\u201d), definido por oposição à 
polêmica como um braço da teologia que \u201capresenta pontos de 
concórdia entre os cristãos com o objetivo de uma unidade 
cristã total\u201d ( OxfordEnglish Dictionary). Por extensão (e a 
palavra saiu dos círculos teológicos e adentrou o uso corrente 
na língua inglesa), as pessoas e propostas irenistas \u201ctendem a 
promover a paz, especialmente no que diz respeito às diferen­
ças teológicas e eclesiásticas\u201d.
Pois bem, eu sou irenista na alma - e acredito que a maio­
ria de nós se considera assim, quaisquer que sejam nossas par­
ticularidades que possam impedir a concretização dessa meta. 
Este livro defende uma solução irenista sob um grande guarda- 
chuva que se estende muito além do reino puramente cristão 
das definições oficiais citadas anteriormente. Sou da mesma 
opinião de quase todas as pessoas de boa índole ao desejar ver 
duas instituições antigas e estimadas, nossas duas pedras fun­
damentais de todas as épocas - a ciência e a religião - , coexis­
tindo em paz enquanto cada uma delas trabalha para criar um 
retalho distinto para o casaco de muitas cores que celebrará a 
distinção de nossas vidas e abrigará a nudez humana num man­
to sem costuras chamado sabedoria.
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O irenismo certamente supera a polêmica da mal construí­
da batalha entre a ciência e a religião - um modelo inteiramen­
te falso (capítulo 2) que muitas vezes continua a nos cercar 
devido a razões históricas (capítulo 3) e psicológicas (capítulo 
4) desprovidas de lógica. Fico realmente desencorajado quan­
do alguns de meus colegas brandem seu ateísmo particular 
(que é um direito deles, é claro, e de muitas maneiras também 
minha suposição) como um bálsamo para o progresso humano 
por oposição a uma caricatura absurda da \u201creligião\u201d, apresen­
tada como um espantalho para muitos fins retóricos. A religião 
simplesmente não pode ser reduzida ao literalismo do Gênesis, 
ao milagre do sangue liquefeito de são Januário (que ao menos 
fornece uma desculpa para o maravilhoso festival anual de San 
Gennaro nas ruas de Nova York) ou aos códigos bíblicos da 
cabala ou da moda da mídia moderna. Se esses colegas dese­
jam lutar contra a superstição, o irracionalismo, o filistianis- 
mo, a ignorância, o dogma e uma série de outros insultos ao 
intelecto humano (e também muitas vezes politicamente con­
vertidos em perigosas ferramentas a serviço do assassinato e 
da opressão), então que Deus os abençoe - mas que não cha­
mem esse inimigo de \u201creligião\u201d.
Do mesmo modo (é claro), pronuncio meu anátema contra 
os dogmáticos e \u201cverdadeiros crentes\u201d que, usurpando o bom 
nome da religião em nome de suas doutrinas partidárias, ten­
tam suprimir as desconfortáveis verdades da ciência ou impor 
seu conceito particular de fibra moral em pessoas com gostos 
legitimamente diferentes. As carreiras são breves, e ao mesmo 
tempo em que não nego alguns bons momentos cômicos, e 
mesmo orgulhosamente vitoriosos, eu certamente preferiría 
estar estudando a evolução e a paleontologia dos caramujos 
terrestres da índia Ocidental do que estar brigando com os 
criacionistas. Basta de tudo isso.
Se adotarmos o preceito alternativo de que o irenismo deve 
prevalecer sobre a ciência e a religião, então que forma deve
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tomar nossa interação pacífica? Ao fazer a argumentação final 
deste livro - dos MNI como a mais honrada e também a mais 
proveitosa forma de irenismo desejo relembrar um princípio 
importante da vida intelectual, anteriormente discutido em ter­
mos mais eruditos como o justo meio entre os extremos de 
Aristóteles (ver página 45), mas aqui personificado pelo \u201cprin­
cípio de Cachinhos de Ouro\u201d, do \u201csuficiente\u201d entre o muito e o 
muito pouco, o muito macio e o muito duro, o muito quente e 
o muito frio. Os MNI representam a cama de densidade corre­
ta e a quantidade certa de cereal na temperatura adequada. Os 
MNI fazem jus às grandes diferenças de lógica entre os argu­
mentos científicos e religiosos. Os MNI não buscam uma falsa 
fusão, mas encorajam dois lados distintos a permanecerem em 
seu próprio terreno, desenvolverem as melhores soluções pos­
síveis para partes distintas da totalidade da vida e, sobretudo, 
continuarem a se falar com respeito mútuo e com uma visão 
otimista sobre o valor da iluminação recíproca. Em outras 
palavras, citando o aforismo de Churchill, para \u201cconversar em 
vez de lutar\u201d.
Essa solução Cachinhos de Ouro oferece a densidade ade­
quada de contato amplo respeitando-se as diferenças inerentes, 
a quantidade certa de diálogo para devotos de assuntos díspares 
e a temperatura correta do discurso para informações que não se 
misturam. O diálogo será por vezes acalorado e incisivo; os par­
ticipantes ficarão exaltados, uma conseqüência abençoada de 
nossa inegável natureza humana; mas o respeito pelas diferen­
ças legítimas, e um reconhecimento de que respostas completas 
exigem contribuições distintas de ambos os lados, deveríam 
manter acesos o interesse, a estima e o debate produtivo.
Quanto ao tema importante dos inimigos de dentro versus 
os inimigos de fora, os defensores antiirenistas do conflito, que 
violam os MNI ao tentar expandir seu lado para dentro do 
magistério do outro, representam uma ameaça mais grave 
segundo as noções convencionais de oposição declarada. Mas
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eles também demonstram a virtude genérica dos \u201cinimigos de 
fora\u201d: sabemos onde estão e sabemos como revidar. No entanto, 
entre aqueles que professam o irenismo, duas abordagens prin­
cipais destruiríam os MNI do interior buscando a paz entre a 
ciência e a religião por meio de estratégias que paralisam o prin­
cípio dos MNI. Considero esses diferentes irenismos dois extre­
mos vivendo sob o mesmo teto (a casa da paz, no caso) que 
Cachinhos de Ouro rejeitou em prol de um caminho do meio.
A primeira alternativa - quente demais, macia demais e 
excessiva - continua a me deixar perplexo por sua sobrevivên­
cia e até seu crescimento, mesmo diante de sérias contradições 
internas que já teriam extinguido há muito tempo uma noção 
tão equivocada. Essa escola sincrética continua a defender a 
falácia mais antiga de todas como sua premissa central: a ale­
gação de que a ciência e a religião deveríam se fundir em uma 
grande família feliz, ou melhor, em uma grande ervilha, onde 
os fatos da ciência reforçassem e validassem os preceitos da 
religião e onde Deus mostrasse sua mão (e sua mente) nos 
fatos da natureza. (A palavra sincrético inclui tanto significa­
dos admiráveis como desfavoráveis. Ao escolher esse nome 
para esse estilo desgastado de irenismo, eu tinha em mente 
apenas as definições negativas [do Webster\u2019s Third New 
International Dictionary]: \u201cflagrante comprometimento reli­
gioso ou filosófico; ecletismo ilógico ou que leva a incon­
gruência; aceitação sem críticas de crenças ou princípios con­