Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)

Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)


DisciplinaDivulgação Científica103 materiais88 seguidores
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flitantes ou divergentes\u201d.)
Por mais que o sincretismo moderno me intrigue, posso ao 
menos me reconfortar com um aspecto irônico de sua versão 
contemporânea - ao menos da perspectiva limitada de um 
cientista profissional. As formas mais antigas e clássicas de 
sincretismo sempre deram a preferência a Deus - ou seja, a 
religião traça as linhas que todos devem respeitar e a ciência 
deve se conformar. Nessa forma antiga, o irenismo exigia que 
os princípios e descobertas da ciência fornecessem resultados
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religiosos cuja veracidade fosse conhecida de antemão. De 
fato, essa conformidade representava o principal teste do poder 
e da validade da ciência. Por exemplo, Thomas Bumet (ver 
páginas 21-28) não duvidava de que a narrativa bíblica regis­
trasse a verdadeira história da Terra; seu trabalho científico, 
segundo ele, exigia a validação dessa história conhecida por 
meio de leis naturais invariáveis, e não de milagres.
No entanto, o crescimento e o êxito espetacular da ciência 
viraram a mesa das versões modernas do sincretismo. Hoje, as 
conclusões da ciência devem ser aceitas a priori e as interpre­
tações religiosas devem ser afinadas e ajustadas para se encai­
xar nos resultados inquestionáveis do magistério do saber 
natural! O Big Bang aconteceu e devemos agora encontrar 
Deus nessa origem tumultuada.
Desculpem-me. Sei que não deveria ser tão apressado, 
especialmente (e ironicamente) numa seção sobre o irenismo. 
Mas considero os argumentos do sincretismo tão defeituosos, 
tão ilógicos, tão fundamentados na simples esperança e tão 
desacreditados por procedimentos passados que tenho dificul­
dade em manter um rosto impassível ou uma pena tranqüila.
Também me sinto particularmente sensível em relação a 
essa questão porque escrevi este livro no verão de 1998 e na épo­
ca um dilúvio midiático tomou conta da posição sincretista, 
como se alguma argumentação surpreendentemente nova e per- 
suasiva houvesse sido formulada ou alguma descoberta igual­
mente excitante ou transformadora houvesse sido feita. Na ver­
dade, nenhum dado intelectual novo havia sido acrescentado e 
os mesmos argumentos ruins vinham à tona em meio a uma 
enchente publicitária porque a J. M Templeton Foundation, cria­
da por seu imensamente rico homônimo para fazer avançar o 
programa sincretista sob o disfarce de uma discussão mais geral 
e católica sobre a ciência e a religião, conseguiu um surto de 
atenção midiática ao gastar 1,4 milhão de dólares em uma con­
ferência sobre \u201ca ciência e a busca espiritual\u201d em Berkeley.
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Em um exemplo genuíno de verdadeira criação ex nihilo - 
ou seja, a invenção de uma questão por meio de reportagens da 
mídia e não pela força de argumentos, conteúdo ou material - , 
pelo menos três veículos importantes defenderam o evangelho 
sincrético em suas manchetes e reportagens desprovidas de crí­
tica: \u201cFé e razão, juntas novamente\u201d (The Wall Street Journal, 
12 de junho); \u201cCiência e religião: cruzando o grande abismo\u201d 
(The New York Times, 30 de junho); e uma reportagem de capa 
na Newsweek (20 de julho) intitulada simplesmente \u201cA ciência 
encontra Deus\u201d. Os cientistas só podiam ficar intrigados com 
essa última alegação, mas ao menos agora podemos ter certeza 
a respeito de um dos atributos de Deus: ele vende jornais e 
revistas.
O artigo do Times reconhecia o torpor moral dos procedi­
mentos: \u201cUma espécie de gentileza carola permeava o encon­
tro, sem nenhum dos confrontos entusiasmados que se espera 
de um assunto emocionalmente tão carregado... A platéia 
aplaudia com educação após cada apresentação. Mas havia 
pouco estímulo intelectual.\u201d Mas de onde, em princípio, pode­
ría vir esse estímulo? Se os MNI estão certos (e dedico este 
livro à defesa da validade de sua proposta), então fatos e expli­
cações desenvolvidos dentro do magistério da ciência não 
podem validar (ou negar) os preceitos da religião. De fato, se 
olharmos para os chamados argumentos em favor do sincretis- 
mo, conforme descritos nestas citações, eles estão todos calca­
dos em uma série de argumentos difusos cheios de metáforas e 
desprovidos de lógica. Considerem apenas três exemplos, não 
escolhidos por serem especialmente tolos, mas representativos 
do padrão vigente:
1. Metáfora difusa apresentada como conteúdo importante.
A Newsweek registra a seguinte fusão de Cristo e quanta'.
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Tomemos o difícil conceito cristão de Jesus como inteira­
mente divino e inteiramente humano. Pois essa dualidade 
tem um paralelo na física quântica. Nos primeiros anos 
deste século, os físicos descobriram que entidades que 
antes se pensava serem partículas, como os elétrons, tam­
bém podem agir como ondas... A interpretação ortodoxa 
dessa estranha situação é que a luz é, simultaneamente, 
onda e partícula... O mesmo valería para Jesus, sugere o 
físico F. Russell Stannard da Universidade Aberta da 
Inglaterra. Jesus não deve ser visto como Deus sob um dis­
farce humano, ou como realmente humano porém agindo 
como Deus, diz Stannard: \u201cEle era inteiramente ambos.\u201d
O que devo pensar de tal alegação? Que o status de Jesus 
como Deus e homem (um conceito trinitário central) deve ser 
factualmente verdadeiro porque os elétrons, e outros compo­
nentes básicos, podem se constituir tanto como ondas quanto 
como partículas? Não vejo o que tal comparação podería indi­
car a não ser que a mente humana pode acreditar em contradi­
ções (um ponto interessante, decerto, mas não uma afirmação 
sobre o caráter factual de Deus) e que as pessoas podem cons­
truir as metáforas mais loucas.
2. Afirmações sem sentido baseadas no mesmo tipo de 
similaridade. The Wall Street Journal apresenta os dois notáveis 
exemplos seguintes da noção sincretista de que a ciência pode 
validar afirmações espirituais. Em primeiro lugar, ficamos 
sabendo que o próprio Darwin era um sincretista em sigilo:
Surpreendentemente, Darwin estava entre os primeiros a 
reunir a ciência e a religião. Os participantes argumenta­
ram que ele havia destruído a noção de Deus como entida­
de ausente, que só aparece para dar corda no relógio, res­
taurando a divindade onipresente dos Salmos. Como disse 
Arthur Peacocke, Darwin permitiu \u201cuma ênfase renovada
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em antigas noções\u201d, mostrando que \u201cDeus está sempre 
criando\u201d.
Mais uma vez, o que se espera que eu conclua a partir de 
tais argumentos? Será que a factualidade de um Deus antiqua­
do e criador foi provada porque Darwin usou a linguagem do 
desenvolvimento para descrever a história genealógica da 
vida? Eu imaginava que o Deus de muitos cristãos limitasse 
esse tipo de atividade criativa para os primeiros dias da histó­
ria da vida. Ou será que o Deus do sr. Peacocke está apenas se 
remodelando com o auxílio da linguagem estilosa da ciência 
moderna?
Ficamos sabendo em seguida que o Gênesis foi confirma­
do pelas últimas descobertas da cosmologia:
O Big Bang, que agora se acredita ter acontecido há 15 
bilhões de anos, coincide de modo geral com o Gênesis.
O que, por favor, quer dizer \u201cde modo geral\u201d? Algumas 
pessoas insistem que o Gênesis ocorreu há menos de 10 mil 
anos. Além disso, o Big Bang não pode servir de descrição da 
criação inicial do universo, ex nihilo, por Deus. O Big Bang 
não é o começo definitivo de todas as coisas materiais - um 
assunto alheio ao magistério da ciência. O Big Bang é uma 
hipótese sobre a origem de nosso universo conhecido. Essa 
teoria científica não pode, em princípio, especificar o que 
aconteceu antes, se algo aconteceu (se é que tal noção já teve 
algum significado) - porque qualquer história anterior se apa­
ga quando e se a matéria do universo se desintegra em um pon­
to de origem tão definitivo.
3. Falta de lógica pura e simples. A pièce de résistance do 
sincretismo moderno, pelo menos em quase todos os relatos