Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)

Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)


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públicos que pude ler, é o chamado princípio antrópico - uma 
noção que tem tantas definições quanto defensores e que, na
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minha opinião, é completamente trivial em suas \u201cversões fra­
cas\u201d (é como a chamam seus defensores, não sou eu quem está 
depreciando) ou completamente desprovida de lógica em \u201cver­
sões fortes\u201d. The Wall Street Journal explica o princípio antró- 
pico como a \u201cmaior dica\u201d da presença de Deus nas descobertas 
da ciência:
O que isso significa é que a vida complexa, baseada em 
cadeias de carbono - ou seja, nós - , só pode existir em um 
universo onde as constantes físicas estejam muito bem sin­
tonizadas. Tome-se a gravidade e o eletromagnetismo. Se a 
gravidade fosse um pouquinho mais forte, nosso corpo 
explodiría; se o eletromagnetismo fosse um pouquinho 
mais forte, seríamos aspirados para dentro de nós mesmos 
como um suflê.
Sim, mas e daí? A versão fraca apenas nos diz que a vida 
se adapta bem às leis da natureza e não podería existir se as leis 
fossem um tantinho diferentes. Interessante, mas não vejo 
implicações religiosas - e, para ser franco, nem a maioria dos 
sincretistas (daí seu próprio nome para a versão, \u201cfraca\u201d). As 
versões \u201cfortes\u201d são meu exemplo favorito de falta de lógica 
nos lugares mais importantes. Já que a vida humana não pode­
ría existir, se as leis da natureza fossem um pouquinho diferen­
tes, então as leis devem ser como são porque um Deus criador 
desejou nossa presença.
Esse argumento vira pura balela se baseado na premissa 
implícita - que então destrói o \u201cprincípio antrópico forte\u201d 
transformando-o em um exemplo clássico de raciocínio circu­
lar - de que os seres humanos surgiram por motivos bons e 
necessários (e que o que quer que nos tenha feito chegar até 
aqui deve portanto existir para fazer cumprir nosso destino). 
Sem essa premissa (que considero tola, arrogante e inteiramen­
te infundada), o princípio antrópico forte rui diante da igual 
plausibilidade da seguinte interpretação oposta: \u201cSe as leis da
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natureza fossem um tantinho diferentes, não estaríamos aqui. 
Certo. Nesse caso, alguma outra configuração de matéria e 
energia existiría, e o universo teria uma construção igualmente 
interessante, com todas as suas partes em conformidade com 
as leis dessa natureza diferente. A não ser pelo fato de que não 
estaríamos aqui para dizer coisas tolas sobre esse universo 
diferente. Não estaríamos aqui. E daí?\u201d (Fico feliz por estar­
mos aqui, por sinal - mas não vejo como algum argumento 
para a existência de Deus possa derivar do meu prazer.)
Os leitores podem ter rido dos argumentos velhos e absur­
dos que citei para a divina benevolência das icneumônidas que 
se alimentam de lagartas vivas e paralisadas (ver páginas 144- 
145). Vocês podem ter se perguntado por que escolhi dedicar 
tanto espaço a uma violação tão mal construída dos MNI, 
herança de um passado ruim, hoje superada. Mas será que as 
gerações futuras vão considerar mais sábios esses atuais argu­
mentos sincretistas contra os MNI e a favor da inferência de 
Deus a partir de fatos da natureza?
A segunda opção irenista para os MNI - muito fria, muito 
dura e não suficiente - requer apenas um ou dois parágrafos de 
comentário, porque nenhum argumento intelectual, mas ape­
nas o costume social corrente (e lamentável), abastece a estra­
tégia. Os sincretistas podem ser tolos, mas ao menos eles falam 
e tentam. O irenismo oposto de \u201csem ofensas, por favor, somos 
politicamente corretos\u201d adota a estratégia totalmente escapista 
de nunca gerar conflito nunca falando um com o outro, ou 
então falando por meio de eufemismos tão velados e sem sig­
nificado que não há como extrair qualquer conteúdo ou defini­
ção. Certamente podemos evitar a linguagem do conflito racial 
se jurarmos nunca falar sobre raça. Mas então o que vai mudar 
e o que será resolvido?
E, sim, poderiamos fazer a ciência e a religião coexistirem 
de alguma forma de um modo politicamente correto, se todos 
os cientistas prometessem nunca dizer nada sobre religião e se
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todos os profissionais religiosos jurassem que a complicada 
palavra começada com C jamais sairía de suas bocas. A cultu­
ra americana contemporânea realmente adotou esse contrato 
em relação a muitas questões que poderíam estar gerando 
debates saudáveis, e com certeza nunca poderão ser adequada­
mente resolvidas se não nos falarmos. Os intelectuais só 
podem considerar essa supressão voluntária da discussão uma 
garantia de que questões difíceis, porém solucionáveis, conti­
nuarão a nos perseguir e a nos assombrar, e um pecado - não 
sei como dizer isso de outra maneira - contra a mente e o cora­
ção humanos. Se temos tão pouca confiança em nossas habili­
dades mentais singulares e em nossa boa vontade intrínseca, 
então, realmente, o que é o homem (e a mulher) para que 
alguém se preocupe com ele?
Os MNI defendem um status independente para a ciência e 
a religião - considerando cada qual uma instituição distinta, 
uma verdadeira pedra fundamental de todas as épocas, que ofe­
rece uma contribuição vital para a compreensão humana. Mas 
os MNI rejeitam os dois caminhos do irenismo que se apresen­
tam de ambos os lados de sua própria busca decidida e insis­
tente de um diálogo proveitoso - a união sem lógica e falsa do 
sincretismo e a proposta perversa do \u201cpoliticamente correto\u201d 
de que a paz estará mais bem garantida pela solução dos \u201ctrês 
macaquinhos\u201d de cobrir os olhos, as orelhas e a boca.
Os magistérios não-interferentes da ciência e da religião 
devem se cumprimentar com respeito e interesse no terreno 
distintamente humano da palavra. Para encerrar com uma 
máxima de cada magistério, os cientistas geralmente alegam 
que a linguagem é o aspecto mais especial e transformador da 
distinção humana - e apenas um tolo não usaria sua melhor 
arma. Quanto à religião, este livro começou com a história de 
Tomé, o cético, do final do evangelho de João. Deixem-me 
então imitar Finnegans Wake e encerrar este livro com o início 
do mesmo documento. Sei, naturalmente, que a expressão tem
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outro significado em seu contexto original, mas João também 
reconhecia o mesmo caráter único e precioso - a chave para a 
resolução de nossos conflitos e a força motriz por trás dos MNI 
- ao começar seu evangelho com um verdadeiro guia para a 
salvação: No começo era o Verbo.
índice
Um n depois do número de página indica que o verbete pertence a uma nota de 
rodapé.
\u201cAcaso\u201d
desígnio por, 161 
opinião de Darwin sobre o, 156- 
157,159
Adaptação, 58, 143 
Agassiz, Louis, 82,98 
Agnosticismo
de Darwin, 34,41 
definição do, 15-16 
versus doutrina, 36-38 
Albertus Magnus, 70 
Alexandre, o Grande
como conquistador, 45, 46 
nó górdio, 23 
Alma
e área da religião, 127 
imortal, 36-39, 53 
origem da, 65, 67, 68 
pagã, 127-128 
Amor
como doutrina, 127 
e santidade, 39, 40 
responsabilidade no, 40 
Antiintelectualismo, 30 
Antropologia, 21, 57 
Aquino, Tomás de 
educação de, 70 
esfericidade, 93, 94 
Aristóteles
cosmologia, 90, 93 
\u201ccaminho do meio\u201d, 45, 46, 165
Arkansas, 103, 111-116, 118
Arte, 13,48
Ateísmo
defesa do, 151, 164 
e lógica, 12 
origem do, 34, 35 
Ateus
militantes, 60 
opinião sobre os MNI, 75 
por princípio, 51 
Autoconhecimento, 155, 161 
liberação pelo, 160 
Autopoliciamento, 133-134 
Autopromoção, 52 
Autoridade
ensino da, 13, 48, 67 
legal, 127
Bacon, Roger, 93, 94
\u201cBanho frio\u201d, teoria do, 151-154, 159
Bede, o Venerável, 92, 94
Biagioli, Mario, 62-63
Bíblia
Adão, 66, 105 
Bom Samaritano, 142 
Evangelho de João, 17-20 
interpretação alegórica da, 22, 73, 
105
Isaac Newton e a, 71 
Jó, 71 
Lázaro, 17
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mandamentos, 19, 144 
Provérbios, 41-42, 69 
Salmos, 88, 141-142, 170