Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)

Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)


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conseguiam 
ficar paradas tempo o suficiente para serem retratadas pela 
antiga técnica fotográfica do daguerreótipo. Mas os mortos
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não se movem, e muitos daguerreotipistas se especializavam 
nesse trabalho extremamente rentável, embora macabro.)
O conhecimento das probabilidades podia aliviar o impac­
to da realidade, mas a compreensão abstrata de que metade de 
nossos filhos podia morrer não chegava a ser um consolo para 
a dor de perder uma pessoa querida para sempre. Assim, nos­
sos ancestrais sofriam - todos eles, incluindo os reis e rainhas, 
os magnatas industriais e os senhores rurais, pois a riqueza 
proporcionava pouca vantagem quando até mesmo os melho­
res médicos não podiam fazer quase nada.
Os dois maiores heróis vitorianos da minha profissão de 
biólogo evolucionista, Charles Darwin e Thomas Henry Hux- 
ley, ambos dotados de fortuna e conhecimento médico mais do 
que adequados, perderam seus filhos favoritos em circunstân­
cias extremamente dolorosas. Ambos foram considerados 
pelos revisionistas religiosos e pelos fundamentalistas as prin­
cipais bêtes noirs que já existiram - Darwin por desenvolver a 
teoria da evolução e Huxley por sua posição mais ativa de 
enfrentamento em relação aos religiosos. (Em um aforismo 
famoso, Huxley disse que nunca era capaz de se lembrar de 
que lado do coração ficava a válvula mitral, nomeada por sua 
semelhança com o chapéu usado pelos bispos - até se lembrar 
de que um bispo \u201cnunca sabe direito\u201d, e a partir daí passou a 
saber que a válvula mitral liga o aurículo e o ventrículo esquer­
dos do coração.) Para esses dois homens, as mortes dos filhos 
coincidiram com discussões acaloradas que opunham suas per­
das às tradicionais fontes de consolo cristãs - e ambos rejeita­
ram o conforto convencional de maneira comovente e cheia de 
princípios.
Poder-se-ia, portanto, supor que os dois homens se toma­
ram amargurados em razão da percepção da hipocrisia (ou ao 
menos da falsa esperança) oferecida por uma doutrina inflexí­
vel. Essas mortes trágicas e sem sentido teriam levado Darwin 
e Huxley a se tomar os principais inimigos da religião como
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nossos livros de história geralmente relatam, fato que seria 
confirmado pelo modelo de guerra permanente entre a ciência 
e a teologia? Na verdade, nada foi assim tão simples - uma vez 
que cada um deles agiu apenas de acordo com a dignidade de 
sua posição e com a sutileza de seu intelecto. Huxley e Darwin 
realmente perderam qualquer vestígio de crença pessoal em 
um mundo intrinsecamente justo, governado por uma divinda­
de antropomórfica cheia de amor. Mas a dor de suas perdas 
pessoais só fez aumentar sua compreensão das diferenças entre 
a ciência e a religião, o respeito devido a ambas as instituições 
quando consideradas no âmbito de seus magistérios corretos e 
as distinções entre questões que podiam ser respondidas e 
aquelas que estavam além de nossa capacidade de compreen­
der ou sequer de formular.
Uma história conhecida conta que Darwin havia planejado 
seguir uma carreira de \u201ccura rural\u201d antes de embarcar no navio 
Beagle para viajar pelo mundo, e que acabou decidindo seguir 
outra profissão. Mas a conclusão habitual de que a descoberta 
da evolução levou Darwin tanto à apostasia quanto a uma car­
reira de biólogo não se sustenta. Na verdade, ele nunca estivera 
pessoalmente inclinado à teologia. Quando jovem, suas opi­
niões religiosas eram decididamente mornas e convencionais, 
pelo simples fato de que ele nunca havia dedicado muita aten­
ção ao assunto. Seu desejo de se ordenar vinha muito mais da 
ausência de planos opcionais do que de alguma crença ou dese­
jo ativos. Tenho fortes suspeitas de que, se tivesse se tomado o 
reverendo Charles, ele teria tratado sua profissão religiosa da 
maneira vazia e tradicional característica dos naturalistas orde­
nados - como um emprego com um salário adequado e um 
mínimo de obrigações, que lhe deixava bastante tempo e opor­
tunidade para seguir sua verdadeira paixão: colecionar e publi­
car livros sobre besouros e outros assuntos de história natural.
Assim, ao se aproximar da meia-idade com a tranqüilidade 
de um homem de posses razoáveis, uma excelente reputação
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profissional e uma família feliz numa bela casa no campo, 
Darwin nunca havia tido maiores conflitos com questões de 
crenças religiosas pessoais, mesmo que suas opiniões evolu- 
cionistas o houvessem levado a questionar e abandonar muitos 
dogmas tradicionais de sua educação anglicana. Foi então que, 
num período crucial entre o final de 1850 e o dia 23 de abril de 
1851, a dúvida intelectual e a tragédia pessoal se aliaram para 
mudar seu mundo para sempre.
Ao terminar um intenso trabalho técnico de muitos anos 
sobre a taxonomia dos crustáceos, sua saúde frágil também 
havia melhorado substancialmente, e ele se viu com tempo 
para ler e tranqüilidade para refletir. Decidiu, finalmente, exa­
minar suas próprias crenças religiosas de maneira cuidadosa e 
sistemática. Darwin então se dedicou ao estudo das idéias de 
um fascinante pensador então em voga, mas hoje desconheci­
do, especialmente porque seu irmão muito mais famoso seguiu 
um caminho diferente e obscureceu seus feitos. Os irmãos 
Newman não suportavam as incongruências das práticas e 
crenças anglicanas. John Henry Newman criou uma das maio­
res polêmicas da vida intelectual britânica do século XIX ao se 
converter ao catolicismo, e acabou se tomando cardeal. (As 
organizações estudantis católicas das universidades america­
nas geralmente são batizadas de Sociedades Newman em sua 
homenagem.)
Francis William Newman, o irmão mais novo do cardeal, 
saiu de Oxford com um diploma universitário e grande poten­
cial para se tomar professor daquela instituição, mas abriu mão 
dessa posição honrosa da carreira acadêmica em prol de um 
emprego de professor de latim no novo e pouco ortodoxo 
University College londrino por recusar-se a concordar com os 
Trinta e Nove Artigos do anglicanismo, conforme exigia a lei 
e a tradição de Oxford. Newman então iniciou uma jornada 
espiritual, consolidada por vários livros populares, ramo a uma 
posição de intensa religiosidade, mas baseada na recusa de
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dogmas e doutrinas tradicionais severas (particularmente a 
idéia de recompensa ou punição eternas por ações terrenas) - 
tudo isso para defender um sistema que fosse coerente com o 
pensamento racional e as descobertas da ciência moderna. 
Com a intensidade que lhe era peculiar, Darwin estudou todos 
os principais trabalhos de Newman entre 1850 e 1851, chegan­
do a conclusões semelhantes sobre a fragilidade (e muitas 
vezes também a crueldade) dos dogmas tradicionais, mas sem 
encontrar nas idéias de Newman nenhum consolo a respeito da 
devoção pessoal. Dessa forma, acabou por se tomar cético em 
relação a todos os aspectos da crença religiosa.
O estudo das idéias de Newman podería não ter afetado tão 
profundamente a opinião de Darwin sobre a vida, se uma enor­
me tragédia pessoal não houvesse se abatido sobre ele ao mes­
mo tempo. Darwin amava a filha mais velha, Annie, com um 
enorme carinho, inspirado por uma complexa mistura do tem­
peramento doce da menina e de sua semelhança física com a 
irmã de Charles, Susan, que havia substituído sua mãe depois 
da morte dela e cuidado do pai deles com todo o amor até o dia 
de sua morte, apenas dois anos atrás. Mas Annie sempre fora 
uma criança doente.
Em março de 1851, Annie ficou tão doente que Charles e a 
mulher Emma decidiram mandar a menina de dez anos para a 
clínica do Dr. Gully, em Malvern, onde a saúde do próprio 
Charles havia melhorado drasticamente graças ao célebre \u201ctra­
tamento de águas\u201d do médico. Annie teria a companhia de sua 
irmã e de uma enfermeira para ajudá-la e reconfortá-la. 
Charles acompanhou a filha até Malvern