Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)

Pilares do Tempo (Stephen Jay Gold)


DisciplinaDivulgação Científica103 materiais84 seguidores
Pré-visualização42 páginas
de Darwin quanto para a ilustração, segundo 
os MNI, de que uma vida plena - ou seja, uma vida sábia -
42 STEPHEN JAY GOULD
requer estudo e decisão em vários magistérios de nossas vidas 
e mentalidades complexas.
Feliz é o homem que encontra sabedoria e alcança o enten­
dimento...
Ele é mais precioso do que rubis, e tudo o que tens não
pode se comparar a ele.
O tempo que passa está em sua mão direita e em sua mão
esquerda estão riquezas e honra.
Seus modos são gentis e seus caminhos são de paz.
- MODIFICADO POR BRIDGE 
A PARTIR DE PROVÉRBIOS, 3:13-17
É realmente uma bela afirmação. Eu só gostaria que o sr. 
Brigde tivesse acrescentado a linha seguinte (Provérbios, 3:18) 
- o ensinamento ainda mais famoso que também é por acaso a 
metáfora mais usada para a evolução!
Para os que conseguem alcançá-la, ela é a árvore da vida.
O PROBLEMA EM 
TESE SOLUCIONADO
2
Definição e defesa dos MNI
Ele certamente podia arcar com os custos, ou simples­mente dar uma ordem por meio de um decreto imperial, 
mas será que algum estudante já teve um privilégio semelhan­
te ao de Alexandre, o Grande, que por vários anos contou com 
a atenção exclusiva de um professor particular do gabarito de 
Aristóteles? Pois o centro da filosofia de Aristóteles era o con­
ceito de \u201ccaminho do meio\u201d, ou a solução das questões mais 
importantes por um meio-termo entre seus extremos.
No entanto, me pergunto se o aluno de Aristóteles assimi­
lou essa lição quando considero as duas versões radicalmente 
diferentes, na verdade diametralmente opostas, de seu caso 
mais famoso. A história mais comum conta que Alexandre, no 
auge de seus feitos militares, chorou por não ter mais mundos 
para conquistar - o dilema do tédio quando já se foi a todos os 
lugares e já se fez todas as coisas. Mas a versão de Plutarco, que 
é do primeiro século de nossa era e portanto relativamente pró­
xima à fonte, coloca justamente um problema oposto - o dile­
ma da impotência em um universo vasto demais para ser abar­
cado, ou sequer devidamente dimensionado. O relato de 
Plutarco também se toma um tanto mais verossímil ao expres­
sar a doutrina do próprio Aristóteles a respeito da eternidade 
dos mundos: \u201cAlexandre chorou quando ouviu dizer... que exis­
tia um número infinito de mundos, [dizendo] \u2018Não achas moti­
vo de lamentação que, quando existe uma profusão tão vasta de 
mundos, nós não tenhamos conquistado sequer um deles?\u2019\u201d
46 STEPHEN JAY GOULD
Mas afinal Alexandre talvez tenha entendido o caminho do 
meio, pois se somarmos essas histórias extremas e dividirmos 
a soma por dois, podemos encontrar uma posição intermediá­
ria de satisfação dos feitos do passado, combinada a um estí­
mulo suficiente para atividades futuras - portanto, nenhuma 
razão para lágrimas.
É claro que estou apenas brincando com um símbolo esco­
lhido para representar o conceito genérico de resolução. Ainda 
assim, eu gostaria de levantar uma questão importante a res­
peito de nossa abordagem usual de problemas complexos, um 
tema bem ilustrado pelas duas versões opostas da história de 
Alexandre. Nossas mentes tendem a funcionar de modo dico­
tômico - ou seja, conceitualizando questões complexas como 
pares de \u201cou isto/ou aquilo\u201d, obrigando-nos a escolher um ou 
outro extremo, sem que haja uma solução mediana (ou cami­
nho do meio) que possibilite uma solução alternativa. (Suspei­
to que nossa tendência aparentemente inevitável de dicotomi- 
zar representa uma herança poderosa de um passado evolutivo, 
quando a consciência limitada era incapaz de ultrapassar os 
estágios de \u201cligado e desligado\u201d, \u201csim ou não\u201d, \u201clutar ou fu­
gir\u201d, \u201cmover-se ou ficar parado\u201d - e que a neurologia dos cére­
bros mais simples se adaptou a essas exigências. Mas devemos 
deixar esse tema especulativo para outra ocasião e lugar.)
Assim, quando devemos explicar a relação entre dois 
assuntos díspares (nesse caso, a ciência e a religião) - especial­
mente quando ambos parecem levantar as mesmas questões a 
respeito de nossas preocupações mais cruciais em relação à 
vida e seu significado - , partimos do pressuposto de que deve 
haver duas soluções extremas: que a ciência e a religião devem 
lutar até a morte, uma saindo vitoriosa e a outra derrotada; que 
as duas devem representar a mesma busca, podendo portanto 
ser integradas uma à outra completa e facilmente, formando 
uma grande síntese.
PILARES DO TEMPO 47
Mas tanto uma explicação como a outra funcionam por eli­
minação - a destruição de uma pela outra ou a fusão de ambas 
em uma \u201cbola de cera\u201d grande e flexível, sem arestas pontudas 
ou pontos incisivos. Por que não, em vez disso, optar por um 
\u201ccaminho do meio\u201d que garanta dignidade e distinção a cada 
um dos assuntos? Podemos tomar emprestado uma linha para­
doxal ao ensaísta inglês G. K. Chesterton, que não estava só 
confirmando um estereótipo nacional de opor a qualquer coisa 
vibrante e espontânea a voz de uma \u201crazão\u201d estóica e restritiva 
(\u201cnada de sexo, por favor, somos britânicos\u201d), mas que resu­
miu uma profunda compreensão sobre solucionar impasses e 
adquirir conhecimento quando afirmou que \u201ca arte é limitação; 
a essência de cada quadro é a moldura\u201d.
Considerem qualquer uma das \u201cgrandes\u201d questões, clássi­
cas e \u201cfundamentais\u201d, que atormentam as pessoas desde os pri- 
mórdios da consciência: por exemplo, como os seres humanos 
se relacionam a outros organismos e o que significa essa rela­
ção? Essa questão é tão rica que nenhuma formulação única, 
nem nenhuma resposta simples, pode fornecer satisfação com­
pleta. (Todas as questões dessa esfera também incluem grande 
quantidade de \u201cabusos\u201d e construções desarticuladas, exigindo 
que sejam explicadas e fixadas as definições que se pretendem 
fazer antes que se comece a buscar um terreno comum.)
Nesse ponto devemos evocar as noções de Chesterton sobre 
as molduras e sobre o tema central deste livro, o conceito de 
MNI ou magistérios não-interferentes. Pensem em qualquer cli­
chê ou epigrama-padrão sobre itens distintos que não se mistu­
ram - óleo e água ou maçãs e laranjas na linguagem coloquial 
americana; giz e queijo na expressão britânica correspondente; 
as duas tradições humanas incapazes de se unir (\u201ce nunca esses 
dois poderão se encontrar\u201d), ao menos não antes que poderes 
divinos ponham fim à ordem atual das coisas no mundo impe­
rial de Kipling (\u201cAté que a Terra e o Céu compareçam diante do 
grande Trono do Juízo de Deus\u201d). Cada área de investigação
48 STEPHEN JAY GOVLD
emoldura suas próprias regras e suas próprias questões admissí­
veis, estabelecendo critérios próprios para o julgamento e a 
solução. Esses padrões aceitos, e os procedimentos desenvolvi­
dos para debater e resolver questões legítimas, definem o 
magistério - ou a autoridade de ensino - de qualquer objeto. 
Nenhum magistério isolado pode sequer chegar perto de englo­
bar todas as intrigantes questões levantadas por um assunto 
complexo, especialmente um assunto tão rico quanto o signifi­
cado de nossa relação com outras formas de vida. Em vez de 
supor que uma única abordagem pode satisfazer todas as nossas 
preocupações (\u201ctamanho único\u201d), devemos nos preparar para 
visitar uma galeria de quadros, onde podemos admirar várias 
telas diferentes, cada uma limitada por uma sólida moldura.
Como um exemplo de MNI aplicado a uma questão \u201ccen­
tral\u201d, focalizemos duas molduras distintas - ou seja, dois ma­
gistérios não-interferentes - ao redor de questões bastante dife­
rentes, mas igualmente vitais, em nossa busca do significado 
de nossa relação com outros seres vivos. Por um lado, busca­
mos informações sobre fatos com respostas potenciais do tipo 
\u201csim ou não\u201d (ao menos em princípio; na prática, essas respos­
tas podem ser bastante difíceis de se obter). Algumas questões 
factuais, por sua vez, geram questões numa escala muito 
ampla. Por exemplo,