DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135
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nacional, para canalizar,
em seu benefício, os interesses políticos e a luta dos povos submetidos
às potências colonialistas. Basta lembrar que a resolução 1.514, votada
na XV Assembléia Geral, em 14 de dezembro de 1960, a famosa
Declaração sobre a Concessão de Independência aos Países e Povos
Coloniais, nasceu de proposta da União Soviética. Por aqui, o Presidente
Jânio Quadros, expondo a posição do Brasil no contexto, na sua forma
peculiar de se expressar, afirmava incisivamente: \u201cNão pertencemos a
nenhum bloco, nem mesmo ao bloco dos não-alinhados\u201d.29
A contestação aos Estados Unidos na Assembléia Geral, desde
então, tornou-se uma constante na história das Nações Unidas. Foi na
Assembléia Geral que os movimentos de libertação nacional encontraram
apoio internacional para suas lutas pela independência e pela
descolonização. Yasser Arafat, líder da Organização para a Libertação
da Palestina, foi o primeiro representante de uma entidade não-
governamental a discursar no plenário da Assembléia Geral das Nações
Unidas, fato que se deu em 1974. Em 1988 o comandante da OLP
pretendia, mais uma vez, participar da Assembléia Geral, mas o governo
dos Estados Unidos proibiu sua entrada no país; a Assembléia Geral das
Nações Unidas, naquele ano, foi transferida para Genebra e lá Arafat se
fez ouvir.
A Assembléia Geral não é um órgão de funcionamento
permanente; reúne-se, anualmente, em sessões que têm início na terceira
terça-feira do mês de setembro. A abertura das reuniões anuais da
29 Ver PEREIRA, Antônio Celso Alves. Os Impérios Nucleares e seus reféns: Relações Internacionais
Contemporâneas. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1982, págs. 54/70.
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
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Assembléia Geral, por tradição, é feita pelo Brasil, o que vem ocorrendo
desde as três primeiras Assembléias Gerais.30
Ainda durante a Guerra Fria, a ONU foi completamente inoperante
nos conflitos entre a Índia e o Paquistão, e, da mesma forma, na guerra
civil na Nigéria (Biafra), na ocupação soviética da então Tchecoslováquia
e no conflito de Chipre, em 1974. Por tratar-se de assunto de interesse
direto da França, dos Estados Unidos e da extinta União Soviética, três
membros permanentes do Conselho de Segurança, as Nações Unidas foram
mantidas à margem na guerra de independência da Argélia, no conflito do
Vietnã e na invasão do Afeganistão, pela superpotência comunista, em
1979. As circunstâncias históricas, político-estratégicas, econômicas e
religiosas que conformam a crise do Oriente Médio e, principalmente, os
interesses dos Estados Unidos na região tornam a ação da ONU na
Palestina um verdadeiro fiasco. A contestação às decisões das Nações
Unidas por parte dos Estados envolvidos diretamente no conflito árabe-
palestino-israelense começou em 1948, ocasião em que o Egito, o Iraque,
a Jordânia, o Líbano e a Síria, reagindo à partilha da Palestina determinada
pela Resolução 181 da Assembléia Geral, aprovada em de 29 de novembro
de 1947, declararam guerra ao nascente Estado de Israel, em 15 de maio
de 1948, um dia após a sua fundação. Israel, desde então, não toma
conhecimento das inúmeras resoluções que lhe exigem a retirada dos
territórios ocupados.
O secretário-geral da ONU chama a atenção para o fato de que,
atualmente, \u201cenfrentamos perigos que não são iminentes, mas que podem
se materializar com pouco ou nenhum aviso prévio e culminar em cenários
de pesadelo, caso não recebam atenção\u201d.31 Segue afirmando que em
situações de alta gravidade, que podem redundar em genocídio ou em
outras atrocidades, se o Estado responsável não toma, ou não pode tomar
as medidas de segurança necessárias para impedir que tais barbaridades se
concretizem, a responsabilidade de manutenção da paz passa, de imediato,
30 Segundo Celso D. de Albuquerque Mello, a tradição do Brasil de abrir as sessões anuais
da Assembléia Geral tem origem no fato de que, nas três primeiras Assembléias Gerais,
nenhuma das grandes potências manifestou a intenção de inaugurar o período de reuniões.
O Brasil se ofereceu para proferir o discurso de abertura e, com isso, nasceu a tradição.
Ver, do autor, Curso de Direito Internacional Público. Volume I. Rio de Janeiro: Editora Renovar,
12ª edição, 2000, pág. 661.
31 Annan, Kofi. Dentro de uma liberdade mais ampla: momento de decisão nas Nações Unidas. In:
Política Externa. São Paulo: Paz e Terra, vol. 14 nº 2 setembro/outubro/novembro 2005,
pág. 11.
A REFORMA DAS NAÇÕES UNIDAS E O SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO
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para a comunidade internacional, que deve recorrer ao Conselho de
Segurança para que este imponha as sanções necessárias ao restabelecimento
da normalidade.
É lamentável recordar que nada foi feito, não só pela ONU como
também pela comunidade internacional, de forma concreta e efetiva, para
impedir o massacre ocorrido em Ruanda, onde 937 mil pessoas das etnias
tútsi e hutu, em 1994, foram trucidadas em pouco mais de noventa dias,
numa disposição genocida só comparável ao que fizeram os carrascos
nazistas.
Em seu discurso na abertura da Conferência Internacional sobre
Genocídio, realizada em Estocolmo, em 26 de janeiro de 2004, Kofi Annan
afirmou \u201cque as matanças ocorridas em Ruanda, em 1994, e em Srebrenica,
em 1995, na ex-Iugoslávia, \u201cpoderiam ter sido evitadas caso o mundo
tivesse empreendido ações concretas para tal\u201d. Kofi Annan, à época,
erachefe do departamento que administrava as operações de peacekeeping
das Nações Unidas e, ainda hoje, lamenta a inoperância da Organização
nos referidos conflitos, considerando que as Nações Unidas tinham
condições para sustar as matanças, uma vez que possuía tropas estacionadas
nos dois locais. \u201cEm Ruanda, disse ele,em 1994, e em Srebrenica, em
1995, tínhamos Forças de Paz na mesma hora e local em que os massacres
estavam ocorrendo\u201d. Em Srebrenica foram massacrados mais de 7 mil
homens e crianças muçulmanos pelos sérvios-bósnios, fato que se inscreve
entre as piores atrocidades ocorridas na Europa desde o fim da Segunda
Guerra Mundial.32
O fracasso da ONU na defesa da paz e da segurança internacionais
resultou, de fato, não só do conflito ideológico entre as superpotências, ou
mesmo da paralisia do Conselho de Segurança durante a Guerra Fria.
Muitas vezes, a inoperância da ONU se deu de forma deliberada pelos
Estados Unidos. Noam Chomsky, referindo-se às memórias de Daniel
Moynihan, transcreve a confissão, abaixo citada, do antigo embaixador
norte-americano na ONU sobre seu próprio trabalho de solapar a reação
do Conselho de Segurança à invasão, sem qualquer respaldo legal, do
Timor Leste pelas tropas da Indonésia, em dezembro de 1975. Essa violação
da Carta das Nações Unidas foi francamente apoiada pelos Estados Unidos.
Em poucas semanas de ação militar, 60 mil pessoas tinham sido mortas,
32 Ver site http://www.parceria.nl/atualidade/organizacao/onu/at040127genocidio.html,
artigo de autoria de Luís Henrique de Freitas Pádua, consulta em 5/11/2005.
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
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números, assinalados pelo próprio Moyhihan, que correspondiam, à época,
a 10% da população da antiga colônia portuguesa.
Os Estados Unidos queriam que as coisas saíssem como saíram e
trabalhavam para promover esse resultado.O Departamento de Estado
desejava que as Nações Unidas se mostrassem sumamente ineficazes
em qualquer medida que tomassem. Essa tarefa foi dada a mim e eu a
executei com um sucesso nada insignificante.33
Na avaliação das dificuldades que as Nações Unidas sempre
enfrentaram para realizar suas finalidades deve-se, preliminarmente,
considerar o fato de que esta Organização não é um governo mundial.
Trata-se de uma associação de países, \u201cbaseada no princípio da igualdade
soberana de todos os seus membros\u201d,34 que projeta para o sistema
internacional os vícios e as virtudes do conjunto desses mesmos membros.
Os Estados, por sua vez, dependendo de suas condições