DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135
460 pág.

DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135


DisciplinaIntrodução ao Direito I88.317 materiais534.153 seguidores
Pré-visualização50 páginas
de poder, e sempre
que for o caso, deixam transparecer o viés voluntarista, que tanto mal
trouxe e traz à causa da segurança e da paz mundiais. Em razão disso,
resistem à limitação de suas soberanias pelo direito internacional e, portanto,
não têm, quando seus interesses estão em jogo, qualquer intenção de se
submeterem às normas legais. Foi esse espírito, o orgulho do Estado-
nação vestfaliano, o responsável, entre 1914 e 2000, por 100 milhões de
feridos, l00 milhões de refugiados e pela morte de 86 milhões de seres
humanos, que sucumbiram em conseqüência das duas Grandes Guerras e
de outros conflitos armados que colocaram o século XX na lista das eras
mais trágicas da trajetória histórica da Humanidade. Essas realidades
levaram Antonio Cassese a registrar que \u201cnão nos deixemos sensibilizar
pelas lamentações daqueles que proclamam que a soberania dos Estados
está definhando ou já está quase extinta, nem vamos nos entusiasmar com
os gritos de alegria dos que exultam por esse pretenso enfraquecimento
da soberania. O Estado soberano ainda continua vigoroso; ele ainda é
uma espécie de Deus imortal; ele ainda tem em suas mão a espada e não
tem nenhuma intenção de entregá-la às instituições internacionais\u201d.35
33 Ver CHOMSKY, Noam. Contendo a Democracia. Rio de Janeiro: Editora Record, 2003,
págs. 250/256, especialmente a pág. 254.
34 Carta da Organização das Nações Unidas, artigo 2º, 1.
35 CASSESE, Antonio e DELMAS-MARTY, Mireille. Crimes Internacionais e Jurisdições
Internacionais. Barueri, SP: Manole, 2004, pág. 9.
A REFORMA DAS NAÇÕES UNIDAS E O SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO
41
De fato, apesar das transformações operadas na sociedade
internacional nos últimos anos, que acabaram por tirar do Estado a condição
de único sujeito de direito na ordem pública internacional, a despeito da
limitação de sua ação externa pelas forças econômicas transnacionais, pelas
condições de redução de seu papel pelo consenso neoliberal e pelas
doutrinas minimalistas, é forçoso reconhecer que, não obstante esses
desafios à sua soberania, os Estados continuam predominando na cena
internacional, uma vez que são eles os criadores das organizações
intergovernamentais, são eles que lideram a atividade diplomática mundial,
negociam tratados, têm larga influência sobre a produção de bens e serviços
e sobre o comércio, enfim, são eles que fazem a guerra e celebram a paz.36
Apesar das contradições e, muitas vezes, da total inoperância da
ONU em temas de relevância para a paz mundial, o sistema de segurança
coletiva expresso na Carta das Nações Unidas representa um avanço em
relação ao que fora estabelecido pela Liga das Nações, uma vez que é
precisa e clara, na Carta da ONU \u2013 artigo 2 (4) \u2013, a proibição da ameaça
ou uso da força pelos Estados, o que não era contemplado de forma
inequívoca no Pacto da extinta Sociedade das Nações, que recomendava
aos Estados-membros solucionar o litígio pela arbitragem, pela solução
judicial ou por ação do próprio Conselho do Pacto, antes do recurso à
força. Se não fosse possível resolver a controvérsia por esses meios, podia
o Estado recorrer à guerra, respeitado o prazo moratório de três meses
(artigo 12 do Pacto da Sociedade das Nações). Contudo, de forma prática,
no caso da ONU, as grandes potências nunca permitiram que o sistema de
segurança coletiva funcionasse bem, \u201cexercendo pressões que têm afetado
negativamente o labor do Conselho de Segurança\u201d.37
Em palestra no Centro Brasileiro de Relações Internacionais,
comentando o que ele chama de \u201cfissura transatlântica\u201d, que existiria entre
os Estados Unidos e a Europa em razão de distinções históricas e culturais
36 Sobre a perda de exclusividade do Estado da ação internacional em conseqüência das
profundas mudanças operadas na sociedade internacional nas últimas décadas do século
XX, ver PEREIRA, Antônio Celso Alves. Globalização e Soberania. In: Mundo Latino e
Mundialização. Coletânea organizada por Darc Costa e Francisco Carlos Teixeira da Silva.
Rio de Janeiro: Mauad, 2004, págs. 63/82;
37 Ver TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. Direito das Organizações Internacionais. Belo
Horizonte: Livraria Del Rey Editora, 3 ª edição, 2003, pág. 827. Ver também, do mesmo
autor, O Direito Internacional em um Mundo em Transformação. Rio de Janeiro: Editora Renovar,
2002, págs. 411/626.
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
42
a respeito do multilateralismo, o professor Bruce Russett, da Universidade
de Yale, afirma que a Europa, considerando os sucessos de sua experiência
de integração econômica e política, já pode se dizer \u201cliberada\u201d dos piores
vícios de um mundo maquiavélico ou hobbesiano. As disputas e as guerras
em que se meteram os europeus ao longo dos séculos acabaram por levá-
los a uma percepção de que o convívio pacífico, a democracia, a estabilidade,
a integração econômica e a adoção do multilateralismo como prática política
racional são os caminhos do desenvolvimento e da paz.Em contrapartida,
\u201cos Estados Unidosse sentem muito mais confortáveis adotando
umapolítica externa de poder (power politics) fundamentada no conceito
tradicional de Estado-Nação\u201d.38
Considerando apenas a ação da ONU no trato das questões relativas
à segurança e à paz internacionais, resulta, na opinião pública mundial,
uma grande frustração com a Instituição. Contudo, é preciso levar em
conta que, apesar disso, as Nações Unidas e seu sistema de organismos
especializados desenvolveram e desenvolvem uma louvável atuação nos
campos social, cultural e humanitário, circunstâncias que, de certa forma,
absolvem a Organização. O processo de descolonização só foi possível
pela ação capitaneada pela ONU. Além disso, é importante destacar o
esforço que as Nações Unidas e seu sistema fazem, por exemplo, no âmbito
da Unesco, para proteger bens culturais, erradicar o analfabetismo e
universalizar a educação básica e a educação superior nas regiões pobres
do mundo. Por outro lado, a ONU, por meio da Organização Mundial da
Saúde \u2013 OMS, empenha-se na luta mundial para prevenção e tratamento
da AIDS e nas campanhas de erradicação de endemias nas regiões pobres
do mundo, ações de natureza social da maior relevância, às quais podemos
acrescentar a proteção do trabalhador pela OIT, as iniciativas desenvolvidas
pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados \u2013 ACNUR \u2013
de proteção de milhões de refugiados em todos os continentes, e, da mesma
forma, a atuação do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos
Humanos.
Diante da natureza excludente e dos resultados negativos da
globalização no campo social, a ONU, em empenho quase solitário,
desenvolve projetos sociais que visam melhorar a sorte de mais de l bilhão
de pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza e que sobrevivem com
38 Palestra proferida no CEBRI \u2013 Centro Brasileiro de Relações Internacionais, no dia 19
de março de 2005. Ver site www.cebri.org.br, consulta em 5 de novembro de 2005.
A REFORMA DAS NAÇÕES UNIDAS E O SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO
43
renda inferior a l dólar por dia; trabalha também com projetos que buscam
minorar o sofrimento de mais de 2 bilhões de seres humanos, que não têm
acesso à água potável e a condições sanitárias mínimas, e que enfrentam,
com inusitada determinação, a dura realidade que impera em vários países
da África, como o Zimbábue, local onde a AIDS afeta uma dentre quatro
mulheres jovens.39
É sem dúvida relevante a contribuição das Nações Unidas para
a codificação do Direito Internacional. Como exemplo, basta apontar,
entre outros esforços empreendidos nessa direção por sua Comissão de
Direito Internacional, as convenções sobre direito do mar (1958 e 1982),
sobre relações diplomáticas (1961); sobre relações consulares (1963);
sobre direito dos tratados (1969); e sobre direito dos tratados entre
Estados e organizações internacionais ou entre organizações
internacionais (1986). Ainda sobre a contribuição