DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135
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Reforma, texto no qual apontava as propostas de mudanças até então
apresentadas por seus antecessores, afirmando que o processo de reforma
deveria ser amplo e permanente. O documento de Kofi Annan destacava
42 Bauman, Zygmunt. A Sociedade Líquida. Entrevista à Folha de São Paulo, caderno Mais!,
edição de 19 de outubro de 2003, pág. 4/9 . Este mesmo autor, em seu livro Globalização
\u2013 As Conseqüências Humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1999, pág. 63, escreve:
\u201cCom a velocidade geral de movimento ganhando impulso \u2013 com a \u2018compressão de tempo/
espaço\u2019 enquanto tais, como assinala David Harvey \u2013 alguns objetos movem-se mais rápido
do que outros. A economia \u2013 o capital, que significa dinheiro e outros recursos necessários
\u2013 move-se rápido; rápido o bastante para se manter permanentemente um passo adiante
de qualquer Estado (territorial, como sempre) que possa tentar conter e redirecionar suas
viagens. Neste caso, pelo menos, a redução do tempo de viagem a zero produz uma nova
qualidade: uma total aniquilação das restrições espaciais, ou melhor, a total \u2018superação da
gravidade\u2019. O que quer que se mova a uma velocidade aproximada à do sinal eletrônico é
praticamente livre de restrições relacionadas ao território de onde partiu, ao qual se dirige
ou que atravessa\u201d.
43 Sobre a atuação de Boutros-Ghali como secretário-geral da ONU, de 1º de janeiro de
1992 a 31 de dezembro de 1996, bem como sobre sua trajetória como acadêmico,
jusinternacionalista, político e homem de Estado, ver Boutros Boutros-Ghali \u2013 Amicorum
Discipulorumque Liber \u2013 Peace, Development, Democracy. 2 v. Bruxelles: Bruylant, 1998.
A REFORMA DAS NAÇÕES UNIDAS E O SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO
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a necessidade de reestruturação dos órgãos de direção e gestão da ONU,
reduzindo a sua burocracia por meio da eliminação de mil cargos; nessa
mesma linha, chamava a atenção para a penúria orçamentária e as
dificuldades financeiras da Instituição, sugerindo, ao mesmo tempo, a
redução dos gastos em dois terços e a criação de um Fundo Rotativo de
um bilhão de dólares, a ser formado mediante contribuições voluntárias,
enquanto não se resolvesse definitivamente a situação da ONU nesse setor.
Além disso, propunha, prioritariamente, o fortalecimento da Assembléia
Geral e do Secretariado, uma melhor interface da ONU com as organizações
não-governamentais, a criação de mecanismos para dar maior rapidez e
efetividade às operações de manutenção da paz e à promoção do
desenvolvimento sustentável, ao combate ao crime, ao tráfico de drogas e
ao terrorismo. Prosseguindo em seus esforços para avançar no projeto de
reforma, o secretário-geral Kofi Anann, em dezembro de 2003, instalou,
em Nova Iorque, uma Comissão Mundial, presidida por Anand
Panyarachum, antigo primeiro-ministro da Tailândia, composta por 16
personalidades44 de alto prestígio internacional, dentre as quais o
embaixador brasileiro João Clemente Baena Soares, para coadjuvar o
Secretariado Geral na elaboração do projeto de reforma das Nações Unidas.
Tal expediente propiciou a formação do Painel de Alto Nível sobre
Ameaças, Desafios e Mudanças,45 que, durante todo o ano de 2004, ouviu,
em consultas regionais, seminários e workshops, representantes dos diversos
setores dos países-membros das Nações Unidas. Dessas atividades resultou
o relatório Um mundo mais seguro: nossa responsabilidade comum, em 129 páginas,
contendo 101 recomendações, e que foi entregue ao secretário-geral Kofi
Annan no dia 2 de dezembro de 2004.
O \u201cPainel\u201d identifica, ao lado de antigos e persistentes conflitos,
as novas situações e as novas ameaças que flagelam os indivíduos e as
44 Membros do Painel de Alto Nível das Nações Unidas sobre Ameaças, Desafios e
Mudanças.
Anand Panyarachum (TAILÂNDIA) Presidente do Painel; Roberto Badinter (FRANÇA);
João ClementeBaena Soares (BRASIL); Gro Harlen Brundtland (NORUEGA); Mary
Chinery-Hesse (GANA); Gareth Evans (AUSTRÁLIA); David Hannay (REINO UNIDO);
Enrique Iglesias (URUGUAI); Amre Moussa (EGITO); Satish Nambiar (ÍNDIA); Sadako
Ogata (JAPÂO); Yevgeny Primakov (RÚSSIA); Qian Qichen (CHINA); Nafis Sadik
(PAQUISTÃO); Salim Ahmed Salim (TANZÂNIA); Brent Scowcroft (ESTADOS
UNIDOS).
45 Ver SOARES, João Clemente Baena. As Nações Unidas Diante das Ameaças, dos Desafios, das
Mudanças.Dossiê CEBRI \u2013 Volume I \u2013 Ano 4 \u2013Rio de Janeiro: CEBRI, 2005.
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
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nações neste século XXI, protestando, entre outras coisas, por ações
multilaterais que favoreçam a segurança biológica. O relatório reafirma o
conceito de que \u201cpobreza é também questão de segurança, além do
problema do desenvolvimento\u201d. Mostra, por exemplo, como a epidemia
da AIDS, que incide sobre o continente africano com maior intensidade
do que em outras partes do mundo, constitui mais uma ameaça global. É
interessante salientar que a clivagem Norte/Sul se fez presente no decorrer
dos debates do \u201cPainel\u201d, como informa o embaixador Baena Soares:
Observou-se, no decorrer dos debates, a natural divergência de
percepções entre osnacionais de países do Norte e países do Sul. O
processo decisório adotado, o consenso, muitas vezes oculta essas
diferenças. A leitura do relatório, em particular na sua parte descritiva,
permite distinguir a influência do pensamento anglo-saxônico. Mas
existem contribuições para o reconhecimento das preocupações e
angústias das populações dos países em desenvolvimento.46
O \u201cPainel\u201d sugere a criação de um novo organismo
intergovernamental, a Comissão para a Consolidação da Paz, cuja finalidade
será prestar assistência aos Estados na fase posterior aos conflitos em que
se envolverem, para ajudá-los em todos os aspectos relativos àsua
reconstrução e estabilização.
No contexto do processo de reforma das Nações Unidas, algumas
das sugestões do \u201cPainel\u201d vão se tornando realidades. O Conselho de
Segurança e Assembléia Geral criaram a citada Comissão de Consolidação
da Paz, que será composta por 31 membros, eleitos por dois anos, sendo
permitida a reeleição.
A Comissão de Consolidação da Paz, cujas decisões serão tomadas
por consenso, terá como função primordial reunir todos os interessados
para que estes mobilizem recursos eproponham estratégias integradas
destinadas ao fortalecimento das instituições, à promoção do
desenvolvimento sustentável, enfim, à consolidação da paze à recuperação
do país em situação de pós-conflito. Além disso, a Comissão de
Consolidação da Paz contará com um Comitê de Organização Permanente,
composto por sete membros do Conselho de Segurança, entre os quais
deverão figurar os titulares dos assentos permanentes, e mais sete membros
46 Ver SOARES, As Nações Unidas Diante das Ameaças, dos Desafios, das Mudanças, pág. 6.
A REFORMA DAS NAÇÕES UNIDAS E O SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO
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oriundos do Conselho Econômico e Social. Segundo o Serviço de
Informação das Nações Unidas, a esses 14 países deverão se somar cinco
Estados recrutados entre aqueles \u201ccujas contribuições estatutárias para os
orçamentos da ONU e as contribuições voluntárias aos orçamentos dos
fundos, programas e organismos das Nações Unidas, entre os quais o
Fundo de Consolidação da Paz, são as mais importantes\u201d, além de outros
cinco Estados que figurem \u201centre os que põem à disposição das missões
da ONU o maior número de militares e de membros da polícia civil\u201d. A
esses 24 países serão adicionados outros sete, que serão eleitos em função
das regras da Assembléia Geral.
A Resolução que criou a Comissão faz ainda recomendações ao
secretário-geral para que institua, por meio de contribuições voluntárias,
um fundo plurianual para financiar ações de auxílio aos Estados em situação
de pós-conflito e, além disso, crie em sua estrutura um gabinete, composto
por peritos e especialistas, para prestar apoio às iniciativas de consolidação
da paz.
Além do Painel de Alto Nível, o secretário-geral Kofi Anann
instituiu