DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135
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Paulo: Paz e Terra, 2005, págs. 104/105.
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
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Humanos, em Genebra, e reafirmada no documento que o secretário-
geral encaminhou à Cúpula das Nações Unidas sobre as Metas de
Desenvolvimento do Milênio (MDG+5), que se reuniu em setembro de
2005. A Cúpula de setembro de 2005 apenas aprovou a criação de um
Conselho de Direitos Humanos para substituir a contestada e polêmica
Comissão de Direitos Humanos do ECOSOC. A composição do Conselho,
suas finalidades, os critérios para a eleição dos membros e demais
dispositivos e procedimentos que fundamentaram a resolução A/RES/
60/251 resultaram de negociações entabuladas durantes cinco meses entre
os países-membros com o objetivo de se conseguir um texto amplo o
suficiente para ter o apoio de todos. Essas negociações foram conduzidas
pelo presidente da Assembléia Geral, Embaixador Jean Eliasson,
coadjuvado pelos Co-Chairs embaixadores Ricardo Alberto Arias, do
Panamá, e Dumisani S. Kumalo, da África do Sul.
O Conselho de Direitos Humanos compõe-se de 47 membros (eram
53 na Comissão), que deverão ser eleitos em votação secreta, por maioria
absoluta (96 votos), ou seja, metade mais um do total dos Estados-membros
das Nações Unidas (191), fato que confere maior legitimidade ao novo
Conselho. Vale lembrar que os membros da Comissão de Direitos Humanos
eram eleitos por um colégio eleitoral restrito aos 54 membros do ECOSOC.
As 47 cadeiras do Conselho de Direitos Humanos serão ocupadas
mediante o seguinte critério geográfico: África, 13; Ásia, 13; Europa do
Leste 6; América Latina e Caribe, 8; Europa Ocidental e outros Estados,
aqui incluídos os Estados Unidos e o Canadá, 7.
O governo norte-americano resolveu não pleitear uma das 47 vagas.
Votaram contra o projeto de criação do Conselho os Estados Unidos,
Israel, Ilhas Marshall e Palau, e as abstenções correram por conta de
Venezuela, Bielorrússia e Irã. Os Estados-membros do Conselho de
Direitos Humanos poderão ser suspensos se ficar comprovado que são
responsáveis por violações graves ou sistemáticas de direitos humanos
nos seus territórios. Os membros eleitos disporão de um mandato de três
anos e não poderão pleitear a reeleição após dois mandatos consecutivos.
O Brasil foi eleito para o Conselho de Direitos Humanos por
significativa votação (l65 votos dentre os 170 afirmativos).
Ao justificar seu voto contrário à criação do Conselho nos termos
propostos pelo projetode resolução, o embaixador dos Estados Unidos,
John Bolton, afirmou que não tinha suficiente confiança de que o novo
Conselho seria mais eficiente do que a antiga Comissão.
A REFORMA DAS NAÇÕES UNIDAS E O SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO
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Os Estados Unidos, durante as discussões sobre a composição do
Conselho defendiam a tese de que o órgão, para ter maior agilidade, para não
repetir os erros e a inoperância da Comissão de Direitos Humanos, deveria
contar, no máximo, entre 20 e 30 membros. O embaixador John Bolton,
inconformado com a rejeição de suas propostas sobre a composição e a natureza
do Conselho de Direitos Humanos, tentou, de todas as formas, adiar a votação
final e reabrir as discussões. A tese não prosperou. O Canadá e os países da
União Européia, por exemplo, não concordaram com o adiamento, por temerem
que tal iniciativa pudesse anular todos os esforços já empreendidos para a
criação do órgão. Com relação à forma de eleição dos membros do Conselho,
os norte-americanos centravam-se na exigência de maioria de dois terços dos
votos, permitida a reeleição. Esta forma de eleição estava também consagrada
na proposta de Kofi Annan. Apesar de tudo, do voto contra, os Estados
Unidos saudaram a criação do Conselho de Direitos Humanos e declararam,
por intermédio do porta-voz do Departamento de Estado que envidarão todos
os esforços para que o Conselho se torne, de fato, um mecanismo eficiente na
promoção e na defesa dos direitos humanos no plano global.
Além disso, os Estados Unidos expressaram também sua satisfação
pelo fato da Venezuela e do Irã não terem conseguido ingressar no novo
Conselho da ONU, embora Cuba e outros países com tradição de
desrespeito aos direitos humanos, como Tunísia,China,Arábia
Saudita,Paquistão e Rússia tenham conseguido se eleger.
Há hoje um consenso sobre a inquestionável interface entre direitos
humanos, segurança e desenvolvimento. O próprio Kofi Annan, em todas
as oportunidades, tem insistido nessa assertiva. Pretende-se, com a criação
do Conselho, dotar as Nações Unidas de um mecanismo mais ágil, mais
eficiente, sem a politização da antiga Comissão de Direitos Humanos e
que dispense aos direitos humanos a mesma atenção que é dada, no âmbito
da ONU, às questões relativas à segurança internacional.
Conforme dispõe o nº 1. da Resolução A/RES/60/251, O
Conselho de Direitos Humanos funcionará como órgão subsidiário
daAssembléia Gerale suas atividades serão avaliadas pela mesma
Assembléia após cinco anos de sua instalação.
A Comissão de Direitos Humanos deverá encerrar suas atividades
no dia 16 de junho de 2006. Para que não haja solução de continuidade, o
Conselho entrará em funcionamento no dia 19 de junho de 2006.A nova
instância se reunirá três vezes ao ano durante um período total de dez
semanas. A Comissão se reunia uma só vez ao ano durante seis semanas.
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Em situações emergenciais, qualquer integrante desse novo
colegiado da ONU poderá convocá-lo extraordinariamente, desde que
receba o apoio de dois terços das delegações dos Estados-membros do
Conselho.
A extinta Comissão de Direitos Humanos, há muito, vinha sendo
alvo de forte oposição por parte de vários Estados, que a acusavam de
estar bastante politizada e complacente com regimes ditatoriais. Além disso,
prosperava entre os críticos da Comissão a tese de que alguns Estados que
nela tinham assento, lá estavam apenas para se protegerem das acusações
e das denúncias que constantemente eram alvos, por serem constantes as
violações de direitos humanos em seus territórios.67
As propostas para modernizar o Secretariado voltam-se todas para
a necessária racionalização administrativa e financeira do órgão. Os
problemas decorrentes da inadequada administração do Programa Petróleo
por Alimentos no Iraque trouxeram à tona uma série de questões que
apontam a ineficácia gerencial e administrativa de estruturas da Secretaria
Geral da ONU. O governo dos Estados Unidos propõe a implantação de
um conselho de supervisão dos atos administrativos do Secretariado.
Diante dos problemas administrativos que afloraram ultimamente,
o secretário-geral vem promovendo uma série de mudanças no Secretariado,
ou seja, criou um escritório de ética, um conselho de desempenho
administrativo, reforçou e implantou novos mecanismos contra fraudes e
a corrupção e propôs, ainda, a criação de um mecanismo decisório em
forma de gabinete. Estão também entre as propostas indicações no sentido
do estabelecimento de mecanismos para uma maior integração do
Secretariado com as organizações intergovernamentais regionais.
Há uma outra questão importante que a reforma deveria considerar.
Trata-se de emendar o artigo 96 da Carta da ONU para incluir, de forma
expressa e clara, o Secretariado entre os órgãos das Nações Unidas que
podem solicitar opinião consultiva à Corte Internacional de Justiça,
considerando a relação complementar existente entre o Conselho de
Segurança, a Assembléia Geral e o Secretariado.68
67 O Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas recebeu, de imediato, o apoio
das principais Ongs que trabalham com os direitos humanos. Além disso, 13 prêmios
Nobel assinaram documento de apoio à criação do órgão.
68 E interessante destacar a amplitude da competência consultiva da Corte Interamericana
de Direitos Humanos comparativamente à mesma competência atribuída pela Carta da
ONU à Corte Internacional de Justiça.