DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135
460 pág.

DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135


DisciplinaIntrodução ao Direito I88.314 materiais533.963 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Discutindo a extensão de sua própria competência
A REFORMA DAS NAÇÕES UNIDAS E O SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO
61
V. A REFORMA DO CONSELHO DE SEGURANÇA
A reforma do Conselho de Segurança é urgente e absolutamente
necessária para assegurar-lhe maior legitimidade e renovar a confiança da
opinião pública mundial nas Nações Unidas. Trata-se, portanto, da reforma
central. Preliminarmente, devemosdestacar queacomposição do Conselho
de Segurança, bem como sua instalação nos primeiros dias do pós-guerra,
foi determinada por acontecimentos políticos que hoje estão amplamente
superados. Como escreve Carrillo Salcedo,
não se pode ignorar que as Nações Unidas surgiram originariamente
como uma coalizão para a guerra (Declaração das Nações Unidas de 1º
de janeiro de 1942); que a Conferência de São Francisco se iniciou no
mesmo dia em que os soviéticos entraram em Berlin; que a ONU sempre
esteve dominada pelo clima de guerra, cujo esforço gravitava
em matéria consultiva a Corte Interamericana de Direitos Humanos esclarece, em sua
terceira Opinião Consultiva, editada em 8 de setembro de 1983, sobre Restrições àPena de
Morte, que tal competência,\u201ces única en el derecho internacional contemporáneo\u201d. Em outra
importante Opinião, \u201cOutros Tratados\u201d, a Corte esclarece também que \u201cla amplitud de los
términos del artículo 64 de la Convención contrasta com lo dispuesto para otros tribunales internacionales.
Asi, el artículo 96 de la Carta de las Naciones Unidas, confiere competência a la Corte Internacional de
Justicia para emitir opiniones consultivas, sobre cuarquier cuestión jurídica, pero restringe la possibilidad
de solicitarlas a la Asamblea General y al Consejo de Seguridad, o, en ciertas condiciones, a otros órganos
y organismos especialilzados de la Organización; en cambio, no autoriza para ello a los Estados
Miembros.(Parágrafo 15). A competência consultiva da Corte Interamericana de Direitos
Humanos estende-se a todos os Estados-membros da OEA, ao contrário do que acontece
com sua competência contenciosa, que somente diz respeito aos Estados que declararam,
expressamente, que a aceitam, nos termos do artigo 62 da Convenção Americana sobre
Direitos Humanos. No sistema europeu de proteção dos direitos humanos a competência
consultiva atribuída à Corte Européia pelo artigo 1º do Protocolo II à Convenção Européia
para a Proteção dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais não tem também
a amplitude da competência consultiva que a Convenção Americana confere à Corte
Interamericana. Somente o Comitê de Ministros pode solicitar pareceres à Corte Européia
e, segundo o citado artigo (1.1), o pedido deve se limitar às questões jurídicas relativas à
interpretação da Convenção Européia e dos seus Protocolos. Estes pareceres não podem
incidir sobre questões relativas ao conteúdo ou à extensão dos direitos e liberdades
definidos no Título I da Convenção e nos seus Protocolos Adicionais, nem sobre outras
questões que, em virtude de recurso previsto na Convenção, possam ser submetidas à
Comissão Européia de Direitos Humanos, à própria Corte ou ao Comitê de Ministros
(art.1.2). Vê-se, pois, que à Corte Interamericana de Direitos Humanos é facultado o
pronunciamento, por solicitação dos Estados-partes e de órgãos da OEA, sobre a
interpretação da Convenção Americana, bem como sobre outros tratados e convençõesque
versam sobre a proteção e o monitoramento dos direitos humanos.
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
62
fundamentalmente sobre as Grandes Potências; e que, finalmente, a sua
criação se deu em um tempo em que a desconfiança entre ocidentais e
soviéticos era já manifesta.69
Há hoje uma nova realidade política, estratégica e econômica no
mundo. A nova ordem internacional, por estar ainda em estado difuso,
não nos permite defini-la com clareza, como acontecia com a ordem ialtiana.
A política de segurança que, antes, centrava-se no equilíbrio do terror e na
não-proliferação nuclear, hoje tem seu eixo principal na luta contra o
terrorismo internacional, o crime organizado em termos planetários, o
combate às pandemias, além de manter o enfrentamento às possibilidades
de proliferação de artefatos nucleares e de seus vetores, e de outras armas
de destruição em massa. Como explica Samuel Huntington, no mundo
pós-Guerra Fria, a corrida armamentista não se define mais, como ao
tempo da competição entre as superpotências, em aumento versus aumento
de ogivas nucleares e de seus vetores, masde aumento versus contenção de
todo o tipo de armamento de destruição em massa.70
Ainda sobre a atualidade política internacional, busca-se entender
a natureza do sistema internacional que emergiu do pós-Guerra Fria. O
atual sistema internacional seria unipolar, liderado pelos Estados Unidos,
em conseqüência de seu poder militar, de sua condição de única
superpotência; por outro lado, sob o prisma econômico, o sistema
internacional atual poderia ser definido como multipolar, numa perspectiva
que leva em conta a existência de outros pólos de poder econômico, além
dos Estados Unidos, como a União Européia, o Japão, e a China.71 Samuel
69 Carrillo Salcedo. Juan Antônio. El Derecho Internacional em Perspectiva Histórica. Madrid:
Editorial Tecnos, S. A., 1991, pág. 77.
70 Huntington, Samuel P. O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial. Rio de
Janeiro: Editora Objetiva, 1997, págs. 237/238.
71 Segundo o documento A Situação do Mundo em 2006, apresentado pelo Worldwatch Institute,
oespetacular crescimento da economia chinesa traz uma série de implicações para as
principais economias do mundo, na medida em que afeta, por exemplo, a taxa de juros
norte-americana, o preço das commodities no Brasil e as leis trabalhistas na Alemanha. Além
disso, informa o documento de 244 páginas, o crescimento da economia indiana, ao lado
do notável desempenho chinês (superávit comercial de 102 bilhões de dólares em 2005)
vem assustando todo o mundo pela crescente demanda por energia, alimentos e matérias-
primas, para suprir as necessidades de 2,5 bilhões de seres humanos nos dois países. Para
manter o ritmo de crescimento, Índia e China vêm causando enorme impacto ambiental.
Contando com apenas 8% da água potável do mundo, a China precisa de recursos hídricos
para atender a demanda de 22% da população mundial. No ano de 2005 a China foi
A REFORMA DAS NAÇÕES UNIDAS E O SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO
63
Huntington, ao propor o modelo alternativo uni-multipolar, assinala a
existência, ao lado da única superpotência, de potências regionais, com
forte presença na economia mundial e larga influência em seus entornos,
embora não tenham condições, em termos de poder nacional, para afirmar
seus interesses de forma global. Os países emergentes, ao se agruparem
em defesa de interesses comuns, como o G-20, ampliam a natureza e o
aspecto multipolar do atual sistema internacional. O G-20, segundo o
chanceler Celso Amorim \u201cfoi o maior achado político na área das
negociações comerciais dos últimos tempos. E tem como vantagem o fato
de ser um grupo equilibrado, com grandes exportadores agrícolas, como o
Brasil e a Argentina, e importadores como a Índia e o Egito. Por isso os
grandes atores da rodada (de Doha)são os EUA, a UE e o G-20\u201d.72
Outro fator importante nesse processo de reordenação mundial é
a emergência de uma sociedade civil internacional, dinamizada por mais
de 20 mil organizações não-governamentais, que atuam em quase todos
os setores das atividades humanas, desafiando, muitas vezes, o poder e a
soberania do Estado. Tudo isso, evidentemente, torna osistema internacional
instável e dificulta a consolidação da nova ordem.
Ao tempo em que se constituiu, o Conselho de Segurança era
composto por 11 Estados-membros \u2013 5 permanentes e 6 não-permanentes
\u2013 números que correspondiam a 21,56% dos 51 membros originários da
ONU. Como atualmente as Nações Unidas congregam 19l Estados, e