DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135
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DisciplinaIntrodução ao Direito I89.116 materiais561.885 seguidores
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de Segurança a qualquer tipo de
controle externo o enfraqueceria de forma inquestionável. 82
Nesse contexto, não se pode deixar de mencionar que o problema
esteve em pauta na Corte Internacional de Justiça no caso Lockerbie, ocasião
81 Direito das Organizações Internacionais, pág. 841.
82 \u201cNão há órgão específico encarregado de controlar a legalidade dos atos da ONU. O
não controle dos atos do CS prende-se à sua importância e o controle pela CIJ o
enfraqueceria. Um controle a priori seria um entrave à sua rápida atuação. Poderia existir
um controle a posteriori se a ação fosse ilegal daria margem a uma reparação. Acresce que
a Corte tem afastado as denominadas questões políticas que não podem ser solucionadas
pelo direito. No caso \u2018O Incidente Aéreo de Lockerbie (1992)\u2019 a CIJ afirmou que as
obrigações decorrentes de uma resolução do CS são superiores a qualquer outro tratado\u201d.
Celso D. de Albuquerque Mello, op. cit., págs. 647/648.
A REFORMA DAS NAÇÕES UNIDAS E O SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO
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em que este Tribunal entendeu que as decisões do Conselho de Segurança,
tomadas com fundamento no capítulo VII da Carta, não podem ser
reformadas, uma vez que as obrigações decorrentes de resoluções
obrigatórias do mesmo Conselho, em razão do que estabelece o artigo
103 da Carta da ONU, são superiores a qualquer tratado firmado pelos
Estados. Esta referência ao artigo 103 se deu em razão da invocação pela
Líbia, perante a Corte Internacional de Justiça, da Convenção de Montreal
de 1971 sobre a Supressão de Atos Ilícitos contra a Segurança da Aviação
Civil, para sustentar o pedido de medidas conservatórias que lhe
garantissem o direito de julgar em seu território os indiciados no caso da
explosão do avião da Pan Am quando sobrevoava Lockerbie, na Escócia,
no dia 21 de dezembro de 1988. Em 1991, a Grã-Bretanha e os Estados
Unidos solicitaram a extradição dos responsáveis pelo crime \u2013 dois
indivíduos de nacionalidade líbia \u2013 para serem processados. O governo
líbio silenciou-se diante do pedido. Os interessados na extradição
recorreram ao Conselho de Segurança e este, mediante resolução com
base no capítulo VI da Carta83, ordenou ao governo Khadafi que se
manifestasse sobre o pedido de extradição. Diante disso a Líbia, com
base na citada Convenção de Montreal, recorreu à Corte solicitando as
medidas conservatórias já mencionadas, uma vez que dispositivos dessa
Convenção facultam ao Estado julgar ou extraditar os indiciados.
Contudo, em 31 de março de 1992, o Conselho de Segurançaaprovou
uma nova resolução84 sobre o assunto, desta feita com fundamento no
capítulo VII da Carta, ordenando à Líbia que concedesse a extradição
dos dois acusados.A CIJ, em 14 de abril de 1992, negou o pedido líbio.
Esta questão acabou sendo resolvida por acordo entre os Estados Unidos,
a Grã-Bretanhaea Líbia.85
Sobre o poder discricionário do Conselho de Segurança em relação
ao uso da força, o Painel de Alto Nível sobre Ameaças, Desafios e Mudanças
das Nações Unidas propõe o estabelecimento de critérios que, fixados em
83 Resolução 731 de 21 de janeiro de 1992.
84 Resolução 748 de 31 de março de 1992. Sobre o tema ver Antonio Augusto Cançado
Trindade, Direito das Organizações Internacionais, págs. 823/853.
85 Ver Bedjaoui, Mohammed. Nuevo Orden Mundial y Controle de Legalidad de los Actos del
Consejo de Seguridad: Bilbao: Instituto Vasco de Administración Pública, 1995. Ver também,
do mesmo autor, Les Relations entre la Cour Internationale de Justice et les Autres Organes Principaux
des Nations Unies. In: BoutrosBoutros-Ghali \u2013 Amicorum Discipulorumque Liber. Bruxelles:
Bruylant, 1999, págs. 175/226.
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
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resoluções do próprio Conselho e da Assembléia Geral, disciplinem e
assegurem legitimidade a essa competência que é atribuída ao Conselho
pela Carta da ONU. Para tanto, sugere que o recurso à força deverá,
preliminarmente, levar em conta o seguinte: a gravidade da ameaça;
verificar se, de fato, foram esgotadas todas medidas não-militares;
considerar se a ação terá como objetivo prevenir ou impedir uma ameaça
à paz e à segurança internacionais; atentar para a proporcionalidade
dos meios militares a serem empregados; e, por fim, antes de decidir
usar a força, avaliar, com muito cuidado, as conseqüências da provável
ação do Conselho.86 \u201cO Brasil \u2013 assegura o Chanceler Celso Amorim \u2013
privilegia um sistema de segurança coletiva verdadeiramente
multilateral, em que a força militar seja contemplada como último
recurso, uma vez esgotados todos os esforços diplomáticos\u201d.87
Considerando o que foi registrado nas linhas anteriores, e levando
em conta, principalmente, a oposição do governo dos Estados Unidos a
qualquer projeto que pretenda abolir o direito de veto ou estendê-lo aos
possíveis novos membros permanentes, além da oposição da China ao
ingresso do Japão como membro permanente, pode-se concluir que não
haverá uma reforma do Conselho de Segurança. Não havendo qualquer
modificação no sistema de votação, isto é, uma mudança que democratize
as suas decisões, e, ainda, não havendo a institucionalização de um
mecanismo de controle da legalidade dos atos do Conselho de Segurança,
haverá, no máximo, apenas uma expansão do órgão, ficando a sua verdadeira
e necessária reforma para o futuro.
VI. A REFORMA E O FINANCIAMENTO DAS NAÇÕES UNIDAS
Desde a sua fundação, as Nações Unidas vêm enfrentando sérios
problemas orçamentários. A expansão da sociedade internacional a partir
do processo de descolonização e o conseqüente ingresso dos novos Estados
na ONU propiciaram o surgimento de novas exigências e grandes desafios
à Instituição. Em razão disso, ampliaram-se as demandas por operações
de paz e por apoio a projetos sociais em todos os continentes, sem um
correspondente aumento das contribuições dos Estados-membros que,
86 Ver Soares, João Clemente Baena. O Caminho das Nações Unidas, pág. 41.
87 A ONU aos 60. In: Política Externa, Vol 14, nº2. São Paulo: Setembro/Outubro/
Novembro 2005, pág. 19.
A REFORMA DAS NAÇÕES UNIDAS E O SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO
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além de não saldarem em dia suas obrigações, relutam em aceitar o aumento
de suas participações para o financiamento da Organização. O orçamento
das Nações Unidas, em números de 2005, atingiu 1 bilhão e 820 milhões
de dólares. Os Estados Unidos, na condição de maior contribuinte
financeiro da Organização \u2013 atualmente, 22% do orçamento, ou seja, 438
milhões de dólares \u2013, todas as vezes que entram em desacordo com alguma
decisão da ONU ameaçam suspender os pagamentos, e, em várias ocasiões,
concretizaram a ameaça. A contribuição norte-americana para as operações
de paz, por exemplo, foi, nos últimos tempos, reduzida de 31,15% para
25%. Em 2005, para pressionar as Nações Unidas no sentido de aprovar
imediatas reformas administrativas, principalmente no Secretariado, a
Câmara dos Deputados dos Estados Unidos chegou a aprovar um projeto
\u2013 221 votos contra 184 \u2013 recomendando o corte de 50% da contribuição
norte-americana à ONU. A medida, agora em tramitação no Senado, não
foi ainda submetida à votação e, se vier a ser aprovada, dependerá, para
vigorar, da sanção do presidente Bush. Sobre a insatisfação do Congresso
dos Estados Unidos com os rumos da reforma da ONU, José Maurício
Bustani e Lauro Eduardo Soutello Alves registram o seguinte:
O Brasil tem sustentado a idéia de que se se permitir que o principal
ímpeto reformista parta de fora da ONU, por decisão unilateral do
Legislativo do seu principal contribuinte, isso enfraquecerá a capacidade
de renovação interna da instituição e terminará por derrotar o objetivo da
reforma. Tem resistido, por outro lado, a um tratamento em separado da
temática financeira da Organização, em detrimento da substantiva,
conforme proposto, entre outros, pelo próprio Secretário-Geral. O Brasil
tem trilhado caminho moderado e eqüidistante entre