DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135
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DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135


DisciplinaIntrodução ao Direito I88.293 materiais532.348 seguidores
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propostas que, por
seu caráter extremo, terminam por apresentar menores perspectivas de
êxito. Tem evitado, por outro lado, a tentação de adiar a tomada de posição
sobre iniciativas que têm partido, cada vez mais, dos países desenvolvidos.
Tem reconhecido que sua posição entre os dez maiores contribuintes do
Sistema da ONU poderá terminar por aproximá-lo, com o tempo, de
algumas das posições desses países, e, além do mais, pela necessidade de
racionalizar a utilização de recursos cada vez mais escassos.88
88 Ver artigo de autoria de José Maurício Bustani e Lauro Eduardo Soutello Alves A situação
Financeira da ONU: crise de pagamentos ou jogo político? In: http://www.mct.gov.br/CEE/revista/
Parcerias2/rev28.htm, consulta em 03 de novembro de 2005.
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
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O Brasil contribui atualmente com 2,39% para o orçamento da
ONU, esforço financeiro que o classifica como o décimo maior contribuinte
e o primeiro entre os países em desenvolvimento. Após perfilar durante
anos entre os devedores, nosso país, recentemente, saldou todo o seu débito
com as Nações Unidas. A participação do Brasil (2,39%) é superior ao
que pagam, individualmente, China, 1,5%, e Rússia, 1,2%.
O Japão, segundo na ordem dos maiores contribuintes, cobre
19,51% do orçamento da ONU. O valor pago por esse país é superior ao
total das contribuições dos quatros membros permanentes do Conselho
de Segurança: França, Reino Unido, China e Rússia. A Alemanha é a terceira
nessa ordem das contribuições, com 9,76%. Itália, 5,06%. Dois terços dos
membros da ONU contribuem com menos de 1%, quando pagam. De
acordo com a Carta \u2013 artigo 19 \u2013 o país que acumular dívidas com a
ONU, cujo montante for superior ao dobro da contribuição devida
anualmente, perde o direito de voto na Assembléia Geral. Contudo, se o
devedor provar que a inadimplência decorre de \u201ccondições independentes
de sua vontade\u201d, a Assembléia poderá autorizar o voto. Este dispositivo
nunca foi, de fato, aplicado aos devedores contumazes. Em 1968 o Haiti e
a URSS foram apenas advertidos que perderiam o direito de voto, caso
não saldassem seus compromissos com a ONU.
A penúria orçamentária da ONU precisa ser resolvida
imediatamente. Se as dificuldades financeiras persistirem a Organização
terá, cada vez mais, sua legitimidade contestada, na medida em que não
poderá dispor dos meios necessários para cumprir suas finalidades. A
ausência da ONU na manutenção da paz e da segurança internacionais
constitui forte incentivo às ações unilaterais das grandes potências, medidas
que, em muitos casos, transformam a Carta da Organização em letra morta.
VI. CONCLUSÕES
A reforma das Nações Unidas é imprescindível para a continuidade
desta importantíssima Instituição. Os problemas que afligem a humanidade
são por demais graves e as soluções que exigem são inadiáveis. Na medida
em que o nosso planeta transformou-se numa \u201cdensa rede de dependência
mútua\u201d,89 somente uma instituição como as Nações Unidas, com a sua
universalidade, uma vez dotada de instrumentos políticos, jurídicos,
89 BAUMAN, Zigmunt. Europa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006, pág. 46
A REFORMA DAS NAÇÕES UNIDAS E O SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO
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administrativos e financeiros adequados, poderá centralizar os esforços
para a construção de um mundo menos violento e mais justo, com maiores
oportunidades de desenvolvimento, de respeito aos direitos humanos e de
paz. Lembrando que nenhum Estado fundador retirou-se da ONU, ao
contrário do que acontecera com a antiga Liga das Nações,90 a Organização
das Nações Unidas, como disse Ricardo Seitenfus, \u201cafirmou o seu caráter
de indispensabilidade, pois as críticas que lhe são endereçadas objetivam
sua reforma e não sua extinção\u201d.91 Considerando que o Conselho de
Segurança é o principal órgão das Nações Unidas, as atenções estão voltadas
para a polêmica da ampliação do número de seus membros, sobretudo
daqueles com assentos permanentes. A atual composição do Conselho de
Segurança configura uma estrutura anacrônica e oligárquica, que está longe
de refletir a realidade política do mundo atual. Correntes preocupadas em
democratizar as Nações Unidas advogam a supressão do veto e sugerem
várias modalidades de votação para o Conselho de Segurança, como, por
exemplo, a adoção do voto consensual. Dificilmente os atuais membros
permanentes aceitarão a supressão do sistema de votação em vigor. Ele
foi criado em Ialta exatamente para proteger os interesses dos Grandes.
Contudo, diante do que se passa no mundo atualmente, as Nações Unidas
devem ser dotadas de mecanismos modernos que lhe permitam atender
com eficiência e legitimidade todas as questões que lhe forem postas pelas
entidades que compõem a atual sociedade internacional. Nessa direção, a
reforma deve levar na devida conta a crescente capacidade da sociedade
civil internacional de contribuir para a governança mundial.
As propostas de reforma do Conselho de Segurança que estão em
pauta indicam apenas uma ampliação do órgão, uma adaptação às realidades
da atual distribuição do poder mundial. De fato, não se propõe uma
verdadeira reforma.
 Nesse processo, em relação à Assembléia Geral as sugestões são no
sentido de torná-la mais participativa nas soluções dos graves desafios destes
tempos iniciais do século XXI. A criação do Conselho de Direitos Humanos,
já concretizada, é um dos pontos altos da reforma em andamento. Lamenta-se
a ausência, em qualquer dos projetos de reforma, da necessária criação de um
mecanismo para o controle da legalidade dos atos do Conselho de Segurança.
90 O Brasil se retirou da Liga das Nações em 1926.
91 SEITENFUS, Ricardo. As Organizações Internacionais Frente ao Direito e ao Poder. In: O
Direito Internacional e o Direito Brasileiro. Wagner Meneses, organizador. Ijui: Editora
Unijui, 2004,pág. 144.0.
As emendas à Carta, para serem aprovadas, devem obedecer ao
que dispõe o artigo 108. Embora o texto deste artigo não confira aos
membros permanentes o direito de vetar emendas, estas só entram em
vigor se aprovadas por dois terços da Assembléia Geral e ratificadas por
dois terços dos membros das Nações Unidas, inclusive todos os membros
permanentes do Conselho de Segurança.
\u201cA recente guerra do Iraque e suas conseqüências até o presente
momento \u2013 afirmou o chanceler Celso Amorim \u2013 demonstraram claramente
os limites de enfoques unilaterais que recolocaram em evidência a
necessidade de que a comunidade internacional seja sempre ouvida no
equacionamento de crises que a afetam. Para isso a ONU foi criada. Por
isso, ela continua a ser insubstituível\u201d.92
92 EUA e o mundo, uma perspectiva brasileira. Artigo publicado na Folha de São Paulo, edição de
12 de outubro de 2004, pág. A14.
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JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
Vicente Marotta Rangel*
I. INTRODUÇÃO
Agradeço a gentileza do convite para discorrer sobre o tema que
me foi proposto \u2013 Evolução da Justiça Internacional \u2013, o que me desvanece
e enseja o prazer de reencontrar-me nesta Casa ilustre e nela rever amigos
mui caros. O tema a ser versado suscita, de início, alguma perplexidade
em torno da expressão \u201cjustiça internacional\u201d, pois não estaria ele a
exorbitar do título genérico destas Jornadas, que se refere especificamente
ao Direito Internacional Público?
Pertinente é a indagação. Mas é negativa a resposta a ser-lhe dada.
Entre justiça e direito, a relação é bastante estreita, íntima, conexa. É verdade
que a palavra direito resulta do termo latino directum e sugere uma idéia de
retidão, enquanto a palavra jus, vinculada a outros vocábulos latinos, como
jubeo, jussio, parece indicar uma idéia de comando. Porém não se deve
esquecer \u2013 como assinala Louis Le Fur1 \u2013 que o radical jus se encontra na
palavra justitia e que, como dizia Cícero, non est jus sine justitia.
Permito-me retomar, a esse propósito, considerações que formulara