DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135
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DisciplinaIntrodução ao Direito I88.321 materiais534.310 seguidores
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JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
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Privado), e as próprias diretrizes curriculares sobre o ensino jurídico, ao
estabelecerem os temas principais do curso de Direito, a elas se referiram
como \u201cDireito Internacional\u201d. O tema das Soluções de Controvérsias Comerciais
Internacionais será tratado como um tópico de Direito Internacional.
A importância do Comércio Internacional é crucial para o
desenvolvimento dos países e para a manutenção da paz. Celso Lafer aponta
essa interação, ao esclarecer que \u201ca relação positiva entre comércio e paz
está na origem do projeto da International Trade Organization e da Carta de
Havana\u201d, com o seu desdobramento para o GATT e OMC.4 Uma das
técnicas para viabilizar a paz, no plano internacional, é mediante a solução
pacífica de controvérsias, pelas normas jurídicas, princípio incluído na Carta
da ONU.
O aumento significativo das trocas comerciais ocasiona inúmeros
litígios. Para buscar soluções para os conflitos, é preciso identificar sua
espécie. As controvérsias comerciais internacionais podem ser de três tipos:
entre Estados, entre Estados e partes privadas, e somente entre partes
privadas.
No sistema internacional iniciado pelas reuniões de Bretton-Woods,
cujos efeitos são sentidos até hoje, inaugurou-se um procedimento de
discussão multilateral das regras do comércio internacional, que culminou
com a criação da Organização Mundial do Comércio, OMC. A organização
conta com um sistema próprio de solução de controvérsias. Em âmbito
regional, outros sistemas também foram criados, sendo de ressaltar, no
caso do Brasil, o papel do Mercosul.No bloco sul-americano, o sistema de
solução de controvérsias por arbitragens ad hoc foi recentemente
aperfeiçoado com a inauguração de uma nova instância, o Tribunal
Permanente de Recursos, criado pelo Protocolo de Olivos, já em vigor.5
4 LAFER, Celso, \u201cSolução de Controvérsias, normas relativas a balanço de pagamentos e
meio ambiente\u201d, in Guerra Comercial ou Integração Mundial pelo Comércio? A OMC
e o Brasil; CASELLA, Paulo Borba e MERCADANTE, Araminta de Azevedo \u2013
Coordenadores, São Paulo, LTr, 1998, p. 730.
5 O Protocolo de Olivos substitui o Protocolo de Brasília e foi assinado pelos Estados-
partes do Mercosul em 2002. Entrou em vigor no Brasil, pelo Decreto 4.982, de 9 de
fevereiro de 2004. O Tribunal foi instalado, solenemente, em Assunção, no dia 13 de agosto
de 2004. De mencionar, como contraponto, o caso da União Européia, em que há uma
instância judicial própria, que cuida tanto dos casos entre Estados como entre estes e os
particulares, e ainda da interpretação do direito comunitário. Cf. ACCIOLY, Elisabeth,
Sistema de Solução de Controvérsias em blocos econômicos, Coimbra, Almedina,
2004.
CONTROVÉRSIAS COMERCIAIS INTERNACIONAIS: OS PRINCÍPIOS DO DCI E OS LAUDOS DO MERCOSUL
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Enfocamos a utilização de princípios na resolução dos conflitos
comerciais em que o Estado está envolvido. Estes princípios do Direito do
Comércio Internacional \u2013DCI, de caráter comum, são os alicerces das
organizações internacionais multilaterais e regionais que tratam do tema,
utilizados pela OMC e pelo Mercosul.
Destacam-se os do livre comércio e da livre concorrência, de caráter
material, e da boa-fé, da pacta sunt servanda e do devido processo legal, de natureza
processual. A aplicação de princípios para a solução das controvérsias
comerciais internacionais é freqüente nos fóruns acima citados. Neste
trabalho, cuidaremos dos laudos arbitrais do Mercosul.
PARTE I
1. O que são princípios
Adotamos uma análise pós-positivista6 do direito para descrever a
aplicação no caso concreto do sistema de ponderação de princípios. Para
os pós-positivistas, o direito não pode ser entendido apenas como um produto
acabado, fruto de uma ação legislativa, mas como um processo no qual a
análise de como se chega à decisão judicial assume importância capital no
entendimento e no funcionamento do sistema. Só com uma visão racional
do conjunto de idéias que compõe o processo, é possível oferecer respostas
aos operadores jurídicos.7 De caráter fragmentário, a nova teoria utiliza
inúmeras metodologias para chegar à decisão do caso concreto, inclusive
aquelas provenientes de outras ciências, não se limitando aos aspectos
jurídicos tradicionais. Sua orientação é voltada para a solução do problema
prático e está produzindo uma revitalização da razão prática no âmbito
jurídico.
O amadurecimento da cultura jurídica necessita de uma doutrina
preocupada com as questões pragmáticas diuturnas e com as bases teóricas
6 O pós-positivismo foi conceituado por Antonio Cavalcanti Maia como uma nova
constelação do pensamento jurídico, na qual os princípios gerais de direito desempenham
um papel crucial para a realização dos ideais de justiça política e social, sendo, também,
mais comprometido com o efetivo funcionamento do Estado Democrático de Direito,
especialmente no que toca às atividades concretas de interpretação e aplicação do direito.
MAIA, Antonio Cavalcanti, \u201cOs Princípios Gerais de Direito e a perspectiva de Perelman\u201d,
in A expansão do Direito, Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2004, p.144.
7 CALSAMIGLIA, Alberto, \u201cCiencia Jurídica\u201d, in El Derecho y la Justicia, ed. Ernesto
Garzon Valdés e Francisco Laoporta, Editorial Trotta, 2002, p. 23.
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informadoras do desenvolvimento da teoria jurídica.8 Essa nova maneira
de visualizar o direito, que aparece no direito constitucional de diversos
Estados, também tem sido seguida nas arenas internacionais e revela-se de
maneira bastante clara nas decisões dos órgãos internacionais de solução
de controvérsias9, como veremos nos exemplos da OMC e do Mercosul.
A hermenêutica jurídica não pode prescindir da argumentação10,
encontrando-se superada sua concepção tradicional limitada a técnicas de
interpretação das leis, como, por exemplo, a interpretação literal ou lógico-
sistemática. Ressaltamos a contribuição de Chaim Perelman para a
metodologia do direito, nesta volta aos estudos da retórica como uma teoria
da argumentação.11 Sua busca é de outra dimensão da racionalidade, mais
compatível com a vida prática. A melhor conduta para se chegar a uma
decisão será a mais razoável, de forma convincente para o auditório ao qual
se dirige. Escapa-se ao rigor de uma lógica formal, mas a validade da
interpretação se sustenta porque eticamente correta.A técnica hermenêutica
atual não pode mais subsistir apenas com a operação de subsunção. Na
maneira de decidir os casos mais complexos, chamados de casos difíceis, há
que se encontrar critérios para lidar com esse novo material normativo, os
princípios, evitando-se uma excessiva ênfase na vontade do juiz. Antonio
Maia, comentando a crescente diferenciação do mundo social
contemporâneo, aponta para a necessidade da maior sofisticação do aparato
metodológico dos operadores do direito.12
A necessidade de uma interpretação constitucional diferenciada da
tradicional efetua a concretização da norma constitucional. Os princípios
ocupam lugar de destaque no movimento pós-positivista. São considerados
como normas basilares do sistema como um todo. A utilização de uma
metodologia jurídica adequada à concretização da Constituição é parte do
8 MAIA, Antonio Cavalcanti, \u201cO Direito Natural e a perene questão da legitimidade\u201d, in
LIMA, Viviane Nunes Araujo, A Saga do Zangão, prefácio, Rio de Janeiro, Ed. Renovar,
2000, p. I.
9 No Brasil, depois da recepção da Constituição de 1988, verifica-se o surgimento de um
novo pensamento no direito constitucional brasileiro, elaborando uma maneira mais adequada
de interpretar a matriz principiológica da Constituição. GUERRA FILHO, Willlis Santiago,
Teoria da Ciência Jurídica, São Paulo, Ed. Saraiva, 2001, p. 115.O autor une a questão da
metodologia à interpretação constitucional e traz a experiência desenvolvida na Alemanha.
10 Cf. CAMARGO,