DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135
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da
respectiva incidência ao caso concreto, em razão de os princípios ocuparem
a mesma hierarquia normativa.
No caso do Direito do Comércio Internacional, o livre comércio é
um princípio geral, enquanto a não-discriminação e o tratamento especial e
diferenciado são princípios positivados, podendo haver a aplicação de um, e
21 A expressão foi utilizada por Luís Roberto Barroso, no prefácio ao livro de BARCELLOS,
Ana Paula de, Ponderação, Racionalidade e atividade jurisdicional, Rio de Janeiro,
Renovar, 2005, e também pode e deve ser utilizado no contexto desse artigo.
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
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não do outro, dependendo da questão envolvida. Em qualquer caso, o
princípio do livre comércio será sempre aplicado, como pano de fundo do sistema.
A coexistência pacífica dos Estados funda-se no respeito dos
princípios gerais do direito internacional22, em especial o da igualdade,
consagrado na Carta das Nações Unidas.
A importância dos princípios gerais do direito foi destacada no
Estatuto da Corte Internacional de Justiça, que o reconheceu em seu artigo
38, inciso I, letra \u201cc\u201d23, como um dos fatores a serem utilizados, quando se
tiver que decidir uma questão entre os Estados.24
Paulo Bonavides alertou sobre a importância, para o
reconhecimento precoce da positividade ou normatividade dos princípios
em grau constitucional, de sua inserção nas decisões das Cortes
Internacionais de Justiça, com base no artigo 38 do Estatuto da CIJ, quando
o positivismo ainda dominava a doutrina jurídica.25
No Direito Internacional26, ao estudarmos as soluções de
controvérsias para os litígios comerciais internacionais, os princípios
22Cf. Antonio Augusto Cançado Trindade, ao discorrer sobre os Princípios do Direito
Internacional que regem as relações amistosas entre os Estados e sua significação para o
exame das fontes do Direito Internacional, afirmou: \u201cJá há muito se verifica entre os autores
uma preocupação com o estudo dos chamados \u2018princípios\u2019 do direito internacional, e da
função que pudessem exercer tais princípios no desenvolvimento da disciplina em questão\u201d.
TRINDADE, Antônio Augusto Caçado, O direito internacional em um mundo em
transformação, Rio de Janeiro, Renovar, 2002, p. 139-140.
23 O Estatuto da CIJ contém, em seu artigo 38, uma relação das fontes [elementos] aplicáveis
em suas decisões: a) as convenções internacionais, quer gerais, quer especiais, que estabeleçam
regras expressamente reconhecidas pelos Estados litigantes; b) o costume internacional,
como prova de uma prática geral aceita como sendo de direito; c) os princípios gerais de
direito, reconhecidos pelas nações civilizadas; d) e, excepcionalmente, as decisões judiciárias
e a doutrina dos publicistas mais qualificados.
24 Cf. BROWNLIE, Ian, Principles of Public International Law, Oxford, Claredon Press,
Fourth Edition, 1990, p.15-17.
25 Continua Bonavides, explicando a importância da fórmula do art. 38 do Estatuto da
Corte Permanente de Justiça Internacional, de 1920, que continuou no Estatuto da Corte
Internacional de Justiça, em 1945, e, a seguir, com ligeiras variações, pelo art. 215, 2 do
tratado que instituiu em 1957 a Comunidade Econômica Européia. BONAVIDES, Paulo, Curso
de Direito Constitucional, São Paulo, Malheiros, 2002, 12. ed., p. 237.
26Sobre esse ponto, veja-se: \u201cNo que diz respeito à teoria das \u2018fontes\u2019 do direito internacional,
tais princípios exercem naturalmente uma influência considerável no reconhecimento e
consagração definitivos de determinadas normas jurídicas, particularmente quando previstas
anteriormente em tratado ou quando já dotadas de certo valor consuetudinário.\u201d TRINDADE,
Antônio Augusto Caçado. O direito internacional em um mundo em transformação,
Rio de Janeiro, Renovar, 2002, p.140.
CONTROVÉRSIAS COMERCIAIS INTERNACIONAIS: OS PRINCÍPIOS DO DCI E OS LAUDOS DO MERCOSUL
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exercem especial papel em razão de estabelecerem standards comuns para
os julgamentos dos diversos órgãos multilaterais, sendo depois seguidos
também pelos Estados, em sua normativa interna.
Os princípios que integram a normativa jurídica da OMC também
fazem parte de outras iniciativas de integração regional. O do livre comércio
aparece no Tratado da União Européia27 e no Mercosul.28 Há importante
convergência entre os três sistemas.
27 Artigo \u201cB\u201d, do Título I \u2013 Disposições Comuns, do Tratado da União Européia
(Tratado de Maastricht). A União atribui-se os seguintes objetivos: a promoção de
um progresso econômico e social equilibrado e sustentável, nomeadamente mediante
a criação de um espaço sem fronteiras internas, o reforço da coesão econômica e
social e o estabelecimento de uma União Econômica e Monetária, que incluirá, a
prazo, a adoção de uma moeda única, de acordo com as disposições do presente
Tratado; a afirmação da sua identidade na cena internacional, nomeadamente através
da execução de uma política externa e de segurança comum, que inclua a definição,
a prazo, de uma política de defesa comum, que poderá conduzir, no momento
próprio, a uma defesa comum; o reforço da defesa dos direitos e dos interesses dos
nacionais dos seus Estados membros, mediante a instituição de uma cidadania da
União; o desenvolvimento de uma estreita cooperação no domínio da justiça e dos
assuntos internos; a manutenção da integralidade do acervo comunitário e o seu
desenvolvimento, a fim de analisar, nos termos do procedimento previsto no n.° 2
do artigo N, em que medida pode ser necessário rever as políticas e formas de
cooperação instituídas pelo presente Tratado, com o objetivo de garantir a eficácia
dos mecanismos e das Instituições da Comunidade.Os objetivo da União serão
alcançados de acordo com as disposições do presente Tratado e nas condições e
segundo o calendário nele previsto, respeitando o princípio da subsidiariedade, tal
como definido no artigo 3.° B do Tratado que institui a Comunidade Européia.
Para íntegra do texto, ver websites www.europa.eu.int (webportal da União
Européia).
28 Artigo 1o do Tratado de Assunção: Os Estados-Partes decidem constituir um
Mercado Comum, que deverá estar estabelecido a 31 de dezembro de 1994 e que se
denominará \u201cMercado Comum do Sul\u201d (Mercosul).Este Mercado Comum implica:
a livre circulação de bens serviços e fatores produtivos entre os países, através,
entre outros, da eliminação dos direitos alfandegários e restrições não-tarifárias à
circulação de mercadorias e de qualquer outra medida de efeito equivalente; o
estabelecimento de uma tarifa externa comum e a adoção de uma política comercial
comum em relação a terceiros Estados ou agrupamentos de Estados e a coordenação
de posições em foros econômico-comerciais regionais e internacionais; a
coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais entre os Estados-Partes \u2013
de comércio exterior, agrícola, industrial, fiscal, monetária, cambial e de capitais,
de serviços, alfandegária, de transportes e comunicações e outras que se acordem
\u2013, a fim de assegurar condições adequadas de concorrência entre os Estados Partes.
ARAUJO, Nadia de, MAGALHÃES MARQUES, Frederico do Valle e REIS, Márcio Monteiro.
Código do Mercosul \u2013 Tratados e Legislação. Rio de Janeiro. Renovar, 1998,
p.18.
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
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Os princípios gerais são o do livre comércio e da livre concorrência29; e,
na de princípios positivados, o da não-discriminação30, reciprocidade31,
transparência32, e tratamento especial e diferenciado33.
Os princípios do livre comércio e da livre concor rência são
complementares. O primeiro é de difícil definição, dada a sua amplitude,
pode ser entendido por suas proibições, ou seja, como evitar sua violação:
29 Para Luís Roberto Barroso, o princípio da livre concorrência, corolário direto da liberdade
de iniciativa, expressa a opção pela economia de mercado. Ele contém a crença de que a
competição entre os agentes econômicos, de um lado, e a