DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135
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DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135


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da integração econômica, no Mercosul.
Guido Soares, em \u201cCommonLaw \u2013 Introdução ao Direito dos
EUA\u201d,relata que o método empregado pelo julgador anglo-americano difere
daquele usado pelo juiz de direito continental, pois se começa pelos casos para
determinar o direito aplicável e usa-se a lei na sua falta. Ademais, os efeitos da
decisão ultrapassam as partes em conflito e passam a incidir sobre um universo
mais amplo, ou seja, pautando as decisões futuras. Embora os países do Mercosul
sejam todos de tradição romano-germânica, os laudos dos tribunais arbitrais
utilizaram uma maneira de decidir mais próxima da common law.
1º Laudo
O primeiro laudo cuidava da controvérsia existente entre a
Argentina e o Brasil devido à entrada em vigor, neste último, de comunicados
que restringiriam o comércio no âmbito do Mercosul. Esta restrição, segundo
a Argentina, geraria incerteza e insegurança, e afetaria o fluxo das operações
de intercâmbio comercial. No julgamento, o Tribunal decidiu que o Tratado
de Assunção continha disposições que estabeleciam um programa de
liberação comercial, o qual deveria ser completado tanto no seu aspecto
tarifário quanto não-tarifário. Este programa de liberação comercial teria
um papel central no tratado e no seu sistema normativo, e atacá-lo
representaria solapar os esforços de integração. As partes estariam, assim,
CONTROVÉRSIAS COMERCIAIS INTERNACIONAIS: OS PRINCÍPIOS DO DCI E OS LAUDOS DO MERCOSUL
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obrigadas a completar a redução de suas barreiras não-tarifárias, mesmo
com o adiamento da data de entrada em vigor do mercado comum.
A dificuldade estava em aplicar as regras do Mercosul constante do
Tratado de Assunção para o caso concreto, pois seu caráter sintético não
esclarecia a situação que se punha, ainda mais se comparadas às similares da
Comunidade Européia. Logo, na primeira controvérsia a ser decidida por
um tribunal ad hoc, a questão era definir o que não estava escrito: a amplitude,
não definida pelo tratado, da liberalização comercial pretendida pelo bloco.
Seguiram os árbitros uma metodologia de interpretação teleológica,
procurando interpretar o papel dos princípios que marcam a convivência
dos participantes do bloco. O método teleológico deve procurar garantir
que as normas sejam eficazes com relação a seu fim último, que é dar
satisfação às exigências do processo de integração, sendo a verdadeira
vocação das decisões acerca de instrumentos internacionais dessa natureza
a de extrair deles a plenitude dos efeitos buscados e traduzir para esta
todas as conseqüências razoáveis da melhor interpretação.
Analisaram o princípio da boa-fé e conceituaram-no, levando em
consideração não só a honestidade dos atos e aspectos formais dos textos
invocados, mas também a idoneidade da ação das partes no seu mister de dar
cumprimento aos fins e aos objetivos das normas acordadas, que deveriam
sempre respeitar a pacta sunt servanda. Outro princípio decorrente do processo
de integração é o da incompatibilidade com o sistema de medidas unilaterais
nas matérias reguladas pelos acordos multilaterais do bloco.47
47 Veja-se parágrafo 56 do laudo. Em primeiro lugar, deve-se considerar o princípio do
cumprimento dos tratados \u2013 pacta sunt servanda \u2013 \u201cnorma fundamental\u201d, originária do Direito
Romano, aceita pelos clássicos como Anzilotti, Kelsen e Verdross, e compilada por primeira
vez em um texto positivo de Direito Internacional no artigo 26 da Convenção de Viena. Em
segundo lugar, deve-se ter em conta que tal cumprimento deverá ser realizado de boa-fé,
estando este princípio unido ao de pacta sunt servanda no artigo citado e ratificado por abundante
e pacífica jurisprudência dos Tribunais Internacionais (Conforme Ernesto De la Guardia e
Marcelo Delpech, O Derecho dos Tratados e da Convenção de Viena, A Lei, Buenos
Aires, 1970, p. 275\u2013279; Ian Sinclair, The Vienna Convention on the Law of Treaties,
Manchester, University Press, Second Edition, p.119\u2013120). Incluindo no conceito de boa-fé
não apenas a honestidade dos atos de execução e seu apego formal à letra dos textos, coisas
que não estão evidentemente em jogo na espécie, mas a idoneidade da atividade das Partes
para dar cumprimento aos fins e objetivos das normas convencionalmente acordadas. Do
mesmo modo, as obrigações devem ser analisadas e interpretadas, com base nesta perspectiva,
como meios apropriados para alcançar os fins comuns convindos. Ao não ter em conta esta
perspectiva finalista, \u201cum tratado quadro tornar-se-ia um tratado bloqueado\u201d, na expressão
de Robert Lecourt (L´Europe des Juges, Bruylant, Bruxelles, 1976, p. 235).
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
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Procurou-se dar prevalência ao princípio do efeito útil, que deve
informar todo o processo de integração, verificando-se qual é a finalidade
das regras estabelecidas, para se chegar ao objetivo principal do Tratado:
o avanço progressivo da integração na América Latina. Entendeu o
Tribunal que este princípio seria o corolário da aplicação da interpretação
teleológica, pois significaria apontar como caminho, na hora de se efetuar
a escolha, entre as várias soluções possíveis segundo os termos do
tratado, a que melhor servisse à satisfação do objetivo e finalidade do
processo de integração.
Como as regras de liberalização comercial contemplam a
necessidade de adaptações legislativas de caráter interno, que devem
passar pelo processo legislativo de cada Estado, haverá sempre uma
grande defasagem entre as necessidades do bloco e o transcurso no
legislativo de cada país dessas regras. O formato adotado pelo
Mercosul para a internacionalização foi o processo clássico dos
tratados, na forma do que dispõem os artigos 40 a 42 do Protocolo
de Ouro Preto. Não há, no Mercosul, similar do que a Comunidade
Européia chamou de seus princípios basilares, o efeito direto e a
primazia do direito comunitário \u2013, no conflito entre este e normas
internas \u2013, desenvolvidos pela atuação marcante da Corte Européia,
no labor de estabelecer os critérios para conceituar a integração dos
países-membros.
Estabeleceram os princípios prevalentes no direito da integração
como norteadores de sua decisão, de forma a não frustrar o
funcionamento do bloco como um todo. Para isso, valeram-se do direito
comparado, em especial das técnicas de criação do direito comunitário,
criado pelo Tribunal Europeu, quando, na década de 1970, viu-se diante
do mesmo dilema: dar plena efetividade aos princípios da integração
econômica ou aguardar passivamente a adaptação progressiva dos
Estados ao novo sistema. Nesseprimeiro laudo, lançaram os árbitros as
bases de como deveria pautar-se a presente e a futura interpretação das
normas do Mercosul.
No corpo do laudo, deixam claro que o objetivo maior do
Tribunal foi o de identificar as regras jurídicas aplicáveis, guiado pelos
fins e objetivos do ordenamento normativo criado pelos membros do
bloco. O que se pretendia com o Tratado era assegurar o livre comércio e,
sendo o Tribunal parte desse ordenamento, cabia-lhe interpretar o desejo
compartilhado pelos países sobre a regulamentação de suas relações
CONTROVÉRSIAS COMERCIAIS INTERNACIONAIS: OS PRINCÍPIOS DO DCI E OS LAUDOS DO MERCOSUL
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recíprocas pela identificação dos fins e dos princípios desse novo
sistema.48
A decisão foi parcialmente contrária ao Brasil, que dispôs de prazo
para adaptação das normas em desacordo com as regras de integração.
Como o sistema não prevê vinculação ou continuidade na atividade
dos árbitros, não havia como prever a maneira como agiriam os árbitros
nomeados para os casos posteriores. A surpresa surge com a verificação da
grande influência das bases lançadas no primeiro laudo, numa utilização
de um sistema de precedentes, pois os laudos posteriores sempre se referem
ao primeiro, e utilizaram os seus princípios. O labor dos diversos tribunais
ad hoc, ainda que sem relação entre seus integrantes, logrou construir,