DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135
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DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135


DisciplinaIntrodução ao Direito I88.321 materiais534.310 seguidores
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princípios em questão: \u201cA proibição de
imposição de restrições ou \u2018medidas de efeito equivalente\u2019 no Mercosul possui um caráter
absoluto, ou seja, não pode ser empregada por um Estado-membro mesmo que a \u2018medida\u2019
não se destine à discriminação do produto estrangeiro. Esse tipo de norma é essencial num
sistema de integração regional.Todas as restrições e medidas de efeito equivalente constituem
barreiras e obstruções ao comércio e são incompatíveis com o livre comércio e a formação
de um mercado comum. [...] Uma questão importante para os Estados é a compatibilidade
entre o livre comércio e as normas internas de comercialização de produtos. Em face desta
problemática, os Estados devem sempre considerar que as razões invocadas pelas autoridades
nacionais, embora relevantes, estão sujeitas ao princípio da proporcionalidade, ou seja, pela
lógica do processo de integração, não se admitem entraves ao comércio para a proteção de
bens, proteção esta que poderia ser obtida por meios menos restritivos como, por exemplo,
informar o consumidor acerca do produto que está comprando, suas especificidades e
qualidades. [...] Outro tema fundamental da lógica integracionista é o que se refere à existência
de uma reserva de soberania que permite aos Estados-membros do Mercosul a imposição
de barreiras por decisão unilateral. Entretanto, no presente caso, não está em jogo a aplicação
de uma reserva de soberania em razão de que o Tratado de Assunção limita as causais de
reserva às situações previstas no art. 50 do Tratado de Montevidéu de 1980. [...] Outro
princípio que deve ser considerado é o da razoabilidade, vale dizer que as ações das
autoridades dos Estados Membros não podem exceder a margem do necessário para alcançar
CONTROVÉRSIAS COMERCIAIS INTERNACIONAIS: OS PRINCÍPIOS DO DCI E OS LAUDOS DO MERCOSUL
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6o. Laudo
O sexto laudo é um dos mais polêmicos e diz respeito à reclamação
do Uruguai contra o Brasil, por causa das restrições à entrada no mercado
brasileiro de pneus remoldados, que, afinal, foi considerada como
incompatível com a normativa do Mercosul.
O princípio do livre comércio esteve em questão nas razões do
laudo, que salienta a impossibilidade de os países adotarem medidas
contrárias ao princípio, pois é preciso dar ao processo de integração
segurança jurídica. Também se cuidou do princípio da proporcionalidade,
para tentar definir o grau do entrave que a legislação do reclamado causava
aos demais estados.
Voltou-se a analisar o princípio da boa-fé e da pacta sunt servanda,
para sublinhar a imperiosa necessidade de as partes pautarem suas relações
pelo respeito às obrigações anteriormente assumidas.53
os objetivos propostos. Em outras palavras, essas ações não podem ser arbitrárias e não podem
violentar os princípios da livre circulação. O princípio da razoabilidade deve orientar as ações
dos Estados, pois eles estão incorporados à segurança jurídica do processo de integração, a
garantia dos valores protegidos pelos Tratados fundacionais do Mercosul, assim como a
prudência, a causalidade e a proporcionalidade já referida.[...] O \u2018princípio da previsibilidade
comercial\u2019também se impõe neste caso. A certeza jurídica, a clareza e a objetividade são
condições imprescindíveis e regras gerais para as atividades comerciais dos Estados-membros
e elementos essenciais para a confiança no mercado comum. [...] Para o Tribunal, os princípios
aqui referidos de \u2018proporcionalidade\u2019, \u2018limitação da reserva de soberania\u2019, \u2018razoabilidade\u2019 e de
\u2018previsibilidade comercial\u2019 dão fundamento ao Mercado Comum do Sul. São elementos
essenciais da cooperação entre os Estados-membros, da reciprocidade em condições de
igualdade, do equilíbrio entre as vantagens e obrigações que derivam da integração e da
formação gradual do mercado compartilhado. [...] Os princípios da proporcionalidade, da
limitação da reserva de soberania, da razoalibidade e previsibilidade comercial, no caso dos
pneumáticos, ditaram uma solução favorável ao Uruguai, no sentido de se manterem as bases
de reciprocidade, condições de igualdade e equilíbrio entre os Estados-membros do Mercosul.\u201d
O Tribunal julgou a favor da reclamação do Uruguai.
53 Confiram-se trechos do laudo: \u201cSão aplicáveis ao objeto da controvérsia submetida para
decisão perante este Tribunal os princípios reconhecidos de pacta sunt servanda,boa-fé e
razoabilidade.O princípio de cumprimento dos Tratados e demais compromissos
internacionais, o pacta sunt servanda, constitui uma norma fundamental, originária do Direito
Romano, consagrado em textos relevantes como a Convenção de Viena sobre Direito dos
Tratados. É unanimemente aceito pela doutrina internacionalista, incluída a de autores latino-
americanos, e pela jurisprudência dos Tribunais internacionais, como alicerce indispensável
em todo processo de integração. O princípio de pacta sunt servanda impõe o cumprimento
dos compromissos assumidos, situação que contradiz o ato de sustentar o livre arbítrio do
devedor de cumprir ou não, ou de cumprir no momento em que, segundo seu interesse,
considerar oportuno ou conveniente\u201d.
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
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7o. Laudo
A reclamação foi feita pela Argentina contra o Brasil, inconformada
com os obstáculos fitossanitários impostos à entrada de produtos
provenientes da Argentina.
Discutiu-se a contrariedade do Brasil à norma derivada oriunda do
Mercosul, já obrigatórias para os demais membros, menos o Brasil, que
ainda não procedera à sua internalização, nos termos dos artigos 38 a 40
do Protocolo de Ouro Preto.
A decisão arbitral baseou-se em diversos princípios para concluir
que a demora excessiva do Brasil em adotar, a normativa do Mercosul no
plano interno. Embora não houvesse um prazo específico nas regras do
Mercosul, a excessiva demora do Brasil foi considerado como incompatível
com o princípio da boa-fé e da pacta sunta servanda.54
Entendeu o Tribunal arbitral que lhe cabia dar solução à omissão
normativa existente \u2013 a ausência de prazo para incorporação da legislação
\u2013, e, embora sem delimitar um prazo, este deveria ser razoável.
8o. Laudo
O 8º. laudo foi a primeira e única reclamação do Paraguai dirigida
ao Uruguai. Entendia o Paraguai que a aplicação do IMESI (imposto
específico interno) à comercialização de cigarros provenientes do Paraguai
54 Confiram-se alguns trechos do laudo: \u201cO problema que foi apresentado ao Tribunal é de
dupla natureza: a igualdade de tratamento e a harmonização das normas do Mercosul
enquanto restrições da livre circulação de bens. A norma que estabelece o dever de
harmonização e eliminação de obstáculos à livre circulação de bens nasce da própria natureza
do Tratado e é deduzida de alguns de seus pontos, tendo sido também recordada em decisões
de Tribunais anteriores. A igualdade de tratamento no Mercosul será concretizada, em
primeiro lugar, pela existência de fato e de direito da não-discriminação entre os Estados-
membros na prática. Ou seja, uma norma aparentemente não-discriminatória, na verdade é
discriminatória se em si mesma contém discriminação, a qual é incompatível com a igualdade
de tratamento estabelecida no tratado do Mercosul. A livre circulação deve ocorrer tanto
no campo da imposição tarifária como no campo das práticas administrativas.Do ponto de
vista da livre circulação, o Mercosul quer eliminar todas as diferenças tarifárias. E nos casos
em que houver exceções, estas deverão ser especificadas. Outrossim, os Estados-membros
não podem criar obstáculos, de qualquer natureza, que impeçam a livre circulação de
produtos. As exceções, embora não sejam diretamente contempladas pelos Tratados do
Mercosul, serão apenas as previstas pelo art. 50 do Tratado de Montevidéu e pelos arts. XX
e XXI do GATT/1994.\u201d
CONTROVÉRSIAS COMERCIAIS INTERNACIONAIS: OS PRINCÍPIOS DO DCI E OS LAUDOS DO MERCOSUL
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era uma regra discriminatória, contrária aos artigos 1 e 7 do Tratado de
Assunção,