DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135
460 pág.

DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135


DisciplinaIntrodução ao Direito I88.279 materiais531.011 seguidores
Pré-visualização50 páginas
nos assuntos internacionais.
Quando um governo democrático transgride uma regra de Direito
Internacional, a sua Constituição em geral prevê mecanismos que permitem
reagir internamente contra essa infração. Por exemplo: o descumprimento
de um tratado, ratificado nos termos constitucionais, é uma flagrante
violação do direito interno, que pode ser impugnada por recursos judiciais
que a própria Constituição estabelece.
Já na hipótese de um governo totalitário violar uma regra
internacional, não há qualquer recurso no direito interno.
É certo, portanto, que a democracia trouxe sensíveis modificações
nos meios de conduzir e de controlar as relações exteriores e no próprio
Direito Internacional.
Conforme a lição de Nicolas Politis:
O Direito Internacional era misterioso e obscuro. Achava se em um
estágio semelhante ao do Direito Romano antes da redação da Lei das
XII Tábuas: o seu conhecimento era monopólio de altos funcionários
das chancelarias e de poucos iniciados. O povo nada sabia da matéria.
As coisas começaram a mudar com a democracia. Os governos aos
poucos foram sendo levados a publicar ou a permitir a divulgação de
documentos de sua vida normal. A honra de ser o primeiro a entrar
nesse caminho coube aos Estados Unidos. O seu exemplo permanecerá
na história do Direito Internacional como tão benfazejo quanto o de
Gnaius Flavos que, há vinte e cinco séculos, abriu ao povo romano os
arquivos onde os pontífices conservavam a interpretação dos costumes
e as fórmulas processuais.37
36 Ibid., p. 101-3.
37 POLITIS, Nicolas. Les Nouvelles Tendences du Droit International. Paris: Hachette,
1927. p. 232-33.
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
154
4. COMPETÊNCIA DO PODER EXECUTIVO
A competência para declarar a vontade do Estado em obrigar se
por tratados pertence ao Executivo.
Na grande maioria dos Países democráticos, a Constituição exige
a convergência das vontades do Executivo e do Legislativo para a formação
da vontade do Estado. Raramente, a Constituição prescreve que esta
formação compete só ao Legislativo. Contudo, a declaração da vontade
estatal é sempre competência do Executivo.
O processo de celebração de tratados caracteriza-se, portanto, pela
acentuada predominância do Executivo.
Investido no poder de entabular as negociações e de engajar
definitivamente a fé nacional, compete ao Executivo comunicar a vontade
do Estado aos demais sujeitos do Direito Internacional.
A condução da política externa é atributo natural do Poder
Executivo.
Não obstante a força e a expansão dos princípios democráticos,
que influenciam, desde o final do século XVIII, a organização dos regimes
políticos representativos, os Estados mantêm, no domínio das relações
exteriores, um comportamento quase monárquico.
A direção da política externa é geralmente competência de uma só
pessoa. Pouquíssimos são os países onde há envolvimento de um número
maior ou de todas as pessoas.
Compete privativamente ao Presidente da República, diz a
Constituição brasileira de 1988, \u201cmanter relações com Estados
estrangeiros\u201d (artigo 84, VIII).
São principalmente as circunstâncias inerentes à política
internacional que direcionam as Constituições a conferir ao Executivo o
poder de dirigir as relações exteriores.
No plano interno, as Constituições procuram impor limites à ação
do Executivo, de forma a preservar o equilíbrio entre os poderes do Estado.
A maior concentração de prerrogativas nas mãos do Executivo desperta
suspeitas e temores, levando, freqüentemente, à divisão territorial do poder,
mediante descentralizações administrativas e aplicação do federalismo, e à
divisão funcional do poder, por meio do sistema de freios e contrapesos,
entre Legislativo, Executivo e Judiciário.
No plano externo, ao contrário, as Constituições admitem uma
concentração de prerrogativas em torno do Executivo, pois só esse poder
ATUALIZAÇÃO DO DIREITO DOS TRATADOS
155
reúne os requisitos necessários para imprimir dinâmica contínua à política
externa, garantindo a segurança do Estado e preservando a sua existência.
O Executivo dos países que adotam regimes democráticos e
representativos dispõe de uma autoridade no domínio das relações
exteriores, que não lhe é concedida nos outros setores da atividade estatal.
A predominância do ramo executivo do governo decorre da
natureza do sistema internacional contemporâneo, que ainda se conserva
em uma fase de autotutela, na qual cada Estado precisa proteger a si mesmo
e conta para isso basicamente com as próprias forças.
A convivência na sociedade internacional requer uma fonte única
de autoridade.
Só o Executivo pode defender eficientemente os interesses
nacionais no âmbito das relações exteriores.
A estrutura (ou a ausência de estrutura) da sociedade internacional,
que, por não dispor de órgãos institucionalizados, capazes de impor as
suas decisões aos Estados, configura uma ordem potencialmente belicosa,
é a principal razão que conduz as Constituições dos países democráticos a
confiarem a direção das relações exteriores ao Executivo.
Quer se trate de relações diplomáticas, quer de ações militares, é
ao Executivo que compete sempre a iniciativa e a impulsão; cabe a ele
orientar; dar a primeira e a última palavra.
Só assim o Estado pode, se necessário, agir rapidamente, em
segredo, com continuidade de propósitos, ou, quando for o caso, com
flexibilidade.
O representante do Estado nas suas relações com as potências
estrangeiras, o órgão central, diretor da política externa, por excelência, é
o Chefe do Estado.
Convém, entretanto, frisar que essa função pode ser deslocada
para o Chefe do Governo, se o Poder Executivo apresentar estrutura dual.
Nas repúblicas presidencialistas e nas monarquias absolutas, o
mesmo indivíduo exerce a Chefia do Estado e a Chefia do Governo.
Nos regimes parlamentaristas, monárquicos ou republicanos, as
aludidas funções são exercidas por distintos titulares. Neste caso, geralmente
é o Chefe do Governo que conduz a política externa.
O Executivo, em suma, seja qual for a sua configuração, impulsiona
as relações internacionais.
As conferências diplomáticas, das quais depende a solução de
intrincados problemas, exigem demorada e paciente preparação.
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
156
Nessas reuniões, impõe se que o Estado atue às vezes em segredo,
sempre com unidade de visão, prudência, espírito de continuidade e
perseverança, condições que só o Executivo pode proporcionar.
Por outro lado, a heterogeneidade e a instabilidade da composição
das Câmaras, integradas por grande número de parlamentares; os períodos
de recesso a que estão submetidas; o caráter público e nada discreto dos
debates; a lentidão do processo decisório, entre outros aspectos, representam
obstáculos muito sérios para que o Legislativo possa ter uma participação
ativa na direção da política externa.
Ademais, as tribunas parlamentares não têm se revelado
instrumento apropriado para examinar em profundidade os temas das
relações internacionais ou para conciliar interesses e visões conflitantes.
Não é possível, igualmente, atribuir ao Legislativo competência
para tomar parte da negociação de tratados.
O Executivo dispõe não só dos meios indispensáveis para perceber
quais são as cláusulas úteis ao interesse nacional, mais bem informado
que é das necessidades gerais do País e mais habilitado a assegurar a boa
redação dos textos convencionais, como também apenas o Executivo pode
divisar, através das informações que recebe dos agentes diplomáticos, o
que pode exigir das demais partes contratantes e obter dessas as maiores
concessões possíveis.
A constatação de que o Executivo deve ser o centro de impulsão
da política externa e reunir sob sua competência os poderes de guerra, a
negociação dos tratados e as relações diplomáticas, vem do tempo dos
regimes monárquicos do século