DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135
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DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135


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fiscalizar a obediência aos decretos legislativos
que exigem a aprovação congressional para os ajustes complementares a
tratados preexistentes.
Por conseguinte, é recomendável que esses pontos incertos
da processualística da celebração de tratados no Brasil sejam
elucidados.
O meio para obter o necessário esclarecimento poderia ser a
adoção de uma lei geral de aplicação das normas jurídicas, ou alguma
outra forma de regulamentação específica da tramitação dos tratados
internacionais.
A fórmula que melhor se ajustaria às exigências da vida
internacional contemporânea, respeitando as prescrições da Constituição
Federal, consistiria em reiterar que os tratados são sujeitos a referendo do
Congresso Nacional, mas admitindo a celebração de acordos em forma
simplificada: 1) quando se destinem a executar, interpretar ou prorrogar
tratados preexistentes devidamente aprovados pelo Legislativo; 2) quando
forem estritamente inerentes à rotina diplomática ordinária e puderem ser
desconstituídos mediante comunicação à outra parte, eficaz desde logo,
sem necessidade de denúncia.
Entretanto, o Congresso Nacional sempre seria informado da
existência desses acordos, imediatamente após a celebração deles.
Se entender que determinado acordo tiver modificado o ato
que lhe deu origem ou não for estritamente inerente à rotina diplomática
ordinária, o Congresso Nacional poderia rejeitá lo, por decreto
legislativo, ficando o Executivo obrigado a denunciar ou desconstituir
o acordo.
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
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6. PROJETOS PARLAMENTARES DE EMENDA CONSTITUCIONAL OU DE
REGULAMENTAÇÃO
Há congressistas que formulam projetos de lei com o propósito
de regulamentar a celebração de acordos internacionais e tornar mais
completo e seguro o controle do Legislativo no tema.
6.1. Compulsoriedade da aprovação legislativa
É justo mencionar iniciativas como a de Itamar Franco, que
apresentou o Projeto de Lei nº 31, de 1982, regulamentando a expedição
de credenciais, plenos poderes ou outros instrumentos que habilitem agente
diplomático a firmar atos internacionais em nome do País, nos termos que
seguem.
O Congresso Nacional decreta:
Artigo 1º \u2013 As credenciais, plenos poderes ou qualquer outro
instrumento que habilite agente do Governo Federal a negociar
ato internacional em nome do País esclarecerá que as obrigações
constantes do texto final só se tornarão juridicamente vinculantes
após a ratificação.
Artigo 2º \u2013 A ratificação de qualquer ato jurídico que crie
obrigações internacionais para o País será, em qualquer hipótese,
precedida de aprovação pelo Congresso Nacional.
Artigo 3º \u2013 Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.
Artigo 4º \u2013 São revogadas as disposições em contrário.
O então senador por Minas Gerais justificou seu projeto
argumentando que:
[N]ão obstante a existência de inequívoco mandamento constitucional,
vêm as autoridades responsáveis pela condução dos negócios exteriores
acolhendo com crescente liberalidade a prática dos executive agreements,
que, em outros ordenamentos jurídicos, permitem ao Chefe do Governo
vincular legalmente o Estado, no plano internacional, sem a prévia
consulta ao Parlamento. Esta prática, adotada ao arrepio da Lei Maior,
tem sido justificada com o argumento de que o Poder Legislativo seria
por demais moroso na apreciação das matérias que lhe são submetidas
a exame. [...] Na verdade, o que se procura utilizando tais caminhos é
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simplesmente frustrar a competência fiscalizadora das Casas
Legislativas.39
Em 1990, o deputado Gerson Marcondes apresentou o Projeto de
Lei nº 4.938, preceituando que \u201cnenhum tratado, acordo ou ato
internacional que acarrete encargos ou compromissos gravosos ao
patrimônio nacional terá validade e eficácia enquanto o respectivo
instrumento, em sua redação oficial e definitiva, não for aprovado, mediante
decreto legislativo, pelas Casas do Congresso Nacional\u201d.
Aduziu o parlamentar que \u201ca violação à disciplina estatuída nesta
lei constitui crime de responsabilidade e sujeita o agente a julgamento
político e criminal\u201d, sendo que \u201cqualquer do povo é parte legítima para
promover a responsabilidade do funcionário ou agente político por violação
aos dispositivos desta lei\u201d.40
6.2. Regulamentação geral do processo legislativo e a questão
das emendas aos tratados introduzidas pelo Congresso Nacional
O Deputado Pedro Valadares apresentou o Projeto de Decreto
Legislativo nº 08/99 à Comissão de Relações Exteriores e Defesa
Nacional da Câmara dos Deputados, retomando iniciativa da ex-deputada
Sandra Starling na legislatura passada (Projeto de Decreto Legislativo nº
184/95).
Segundo a justificativa do Deputado Pedro Valadares, o projeto
\u201cvisa regulamentar, formalmente, aspectos do processo legislativo
pertinente aos atos internacionais, consoante as diretrizes emanadas de
nossa Lei Maior, que confere ao Parlamento amplos poderes, sejam de
intervenção ou sejam de controle aos atos internacionais do País\u201d.
O Projeto, em síntese, invoca o preceito contido no artigo 49, I,
da Constituição da República, segundo o qual \u201cé da competência exclusiva
do Congresso Nacional resolver definitivamente sobre tratados, acordos
ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos
ao patrimônio nacional\u201d, e estabelece normas e procedimentos que passarão
a reger o Legislativo e suas Comissões no desempenho da referida
atribuição.
39 Diário do Congresso Nacional (Seção II), de 26 de março de 1982, p. 719.
40 Diário do Congresso Nacional (Seção I), de 25 de abril de 1990, p. 3402.
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Os pontos regulados pelo Projeto são cinco, a saber:
1º. Explicitação dos poderes do Congresso Nacional na apreciação
de atos internacionais: fazer reservas; suprimir reservas efetuadas pelo
Executivo por ocasião da assinatura; propor emendas, que deverão ser
negociadas pelo Executivo; e emitir declarações interpretativas.
2º. Exigência de que os atos internacionais cheguem ao Congresso
instruídos pelos seguintes documentos: cópia integral em vernáculo;
exposição de motivos; e definição, quando for o caso, do cronograma
previsto para a execução.
3º. Previsão da possibilidade de convocação dos negociadores para
prestarem informações às Comissões das duas Casas do Congresso durante
o processo de apreciação dos atos internacionais.
4º. Encaminhamento trimestral à Comissão de Relações Exteriores
e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, mediante requerimento do
Senhor Presidente desta Casa ao Senhor Presidente da República, dos
seguintes documentos: lista dos atos internacionais assinados pelo
Executivo nos três meses; lista das resoluções, que resultem em obrigações
para o País, adotadas, durante os três meses, por organizações internacionais;
informações referentes às ratificações e adesões efetuadas pelo País; e
lista de atos internacionais que estejam sendo negociados pelo Executivo,
mencionando assunto, natureza e foro das tratativas.
5º. Possibilidade de o Congresso, por iniciativa de qualquer das
duas Casas, declarar sujeitos à aprovação do Legislativo os acordos executivos
ou acordos em forma simplificada que tenham modificado o ato que lhes
deu origem ou que não sejam inerentes à rotina diplomática ordinária.
O Projeto de Decreto Legislativo do deputado Pedro Valadares
consiste em um esforço no sentido de lançar luz e dar maior segurança
jurídica ao processo interno de formação da vontade do Estado brasileiro
em assumir compromissos internacionais. A iniciativa é meritória e digna
das melhores atenções, pois busca conferir claridade às relações entre
Executivo e Legislativo na celebração de tratados, área cinzenta nos sistemas
internos da maioria dos Países.
Decreto Legislativo é ato que se destina a regular matérias de
competência exclusiva do Congresso Nacional