DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135
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e para evitar o constrangimento, para seus governos, de efetuar
contribuições vultosas para financiar operações sobre as quais não tenha podido sequer
opinar\u201d. GUIMARÃES, Samuel Pinheiro. Quinhentos Anos de Periferia: uma contribuição ao
estudo da política internacional. Porto Alegre/Rio de Janeiro: Ed.Universidade/UFRGS/
Contraponto, 2000, pág. 109.
9 Em 1984, o Reino Unido e os Estados Unidos retiraram-se da UNESCO, por discordarem
da gestão e das políticas que estavam sendo implementadas pelo organismo. Retornaram
em 1997 e 2003, respectivamente.
JORNADAS DE DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO NO ITAMARATY
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e objetivos não militares sérvios. Esta ação configurou, portanto, franco
desrespeito ao Direito Internacional, não somente em relação às referidas
violações da Carta da ONU, como também de dispositivos do Protocolo
I (1977) Adicional às Convenções de Genebra de 1949 \u2013 artigos 51, 52,
57 e 58 \u2013, que proíbem ataques ofensivos ou defensivos contra civis e
bens civis, ou que visem aterrorizar a população civil. Ainda em relação
ao conflito nos Bálcãs, em dezembro de 1995, nos Acordos de Dayton
sobre a Bósnia (dezembro de 1995), patrocinados pelosEstados Unidos,
as Nações Unidas foram completamente ignoradas.
Com a eleição do presidente George Bush (filho) implantou-se
nos Estados Unidos uma política externa marcadamente unilateral,
substancialmente diferenciada das diretrizespropostas por seu pai ao
término daI Guerra da Guerra do Golfo. Nos meses anteriores aos ataques
terroristas de 11 de setembro, a administração Bush (filho) deixava claro
que pretendia afastar-se das Nações Unidas \u2013 demorara-se na indicação
do seu embaixador na Organização \u2013, e, além disso, explicitava o viés
ultraconservador e unilateral de sua política externa, ao anunciar a retirada
de seu país do Tratado Antimísseis Balísticos (ABM), firmado, em 1972,
com a União Soviética. Em março de 2001, negara-se a ratificar o Protocolo
de Kioto e o Estatuto de Roma, que criou o Tribunal Penal Internacional.
Quanto a este, não se pode deixar de mencionar que, além dos Estados
Unidos, outros Estados importantes recusam-se a aceitá-lo. Também não
o ratificaram a Rússia, a China, a Índia, Israel e o Irã, Estados que, juntos,
somam mais da metade da população mundial.10 Confrontado pelos
10 A rejeição por parte dos Estados Unidos da América a importantes convenções internacionais
não é característica exclusiva da administração Bush (filho). Entre outros tratados e convenções
internacionais, os Estados Unidos, antes de George W. Bush,não aderiram ao Pacto Internacional
de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais; aos protocolos ao Pacto de Direitos Civis e
Políticos; à Convenção contra o Apartheid; à Convenção sobre a Imprescritibilidade dos Crimes
de Guerra e de Lesa-Humanidade; à Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação contra a Mulher; à Convenção sobre os Direitos dos Trabalhadores Migrantes
e suas Famílias; à Convenção sobre a Supressão do Tráfico de Pessoas e a Exploração da
Prostituição de Terceiros; à Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados; à Convenção de
Ottawa sobre a Proibição, Armazenamento, Produção e Transferência de Minas Antipessoais
e sobre sua Destruição, e à Convenção sobre Direitos da Criança. Da mesma forma não fazem
parte da maioria das convençõesda Organização Internacional do Trabalho. Quando da
ratificação do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos o governo norte-americano
formulou reservas a numerosos dispositivos, entre os quais os artigos 6. 5, que proíbe a aplicação
da pena capital por delitos cometidos antes dos 18 anos, e 20, que proíbe a propaganda de
guerra e a apologia do ódio nacional, racial ou religioso.
A REFORMA DAS NAÇÕES UNIDAS E O SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO
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atentados terroristas ao Pentágono e ao World Trade Center, ao formular
sua política de combate ao terrorismo internacional,o governo Bush, após
11 de setembro de 2001, radicalizou sua ação externa unilateral, fazendo
aprovar uma nova estratégia de segurança e defesa dos Estados Unidos
que destaca, entre seuspilares, o contraterrorismo e a legítima defesa preventiva.
Formulada pelo Conselho de Segurança Nacional, onde pontificava, à
época, a então assessora presidencial Condoleezza Rice, e anunciada pelo
presidente em discurso na Academia Militar de West Point, em 1º de janeiro
de 2002, a nova política de segurança representa uma mudança radical dos
conceitos estratégicos que vigoravam no país desde os primeiros tempos
da Guerra Fria.
Assim, nestes anos iniciais do Terceiro Milênio, por conta do
combate ao terrorismo, ao narcotráfico, ao contrabando de armas e ao
crime globalizado, e, em meio a tudo isso, a busca de segurança energética,11
exacerbou-se a unilateralidade e a truculência da ação externa norte-
americana, fatos que tornaram mais difíceis as relações do governo Bush
com os organismos multilaterais.
Como exemplo da arrogância imperial norte-americana no trato
com a ONU e suas agências, basta citar a forma como o governo Bush
agiu para impedir que a senhora Mary Robinson obtivesse um segundo
mandado à frente do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos
Humanos, e, do mesmo modo, a violência e a injustiça perpetradas contra
o embaixador José Maurício Bustani, para afastá-lo, sem qualquer base
legal, das funções de diretor-geral da Organização para a Proscrição das
Armas Químicas - OPAQ. Ambos, no irretocável exercício de suas funções,
agindo com coragem e independência, contrariavam interesses da linha
dura ultraconservadora instalada na Casa Branca.
A senhora Mary Robinson, ex-presidente da República da Irlanda,
ocupava o cargo de alta comissária das Nações Unidas para os Direitos
Humanos desde setembro de 1997. Por não aceitar a interferência dos
Estados Unidos em sua gestão, por condenar os bombardeios norte-
11 O petróleo, como principal fonte energética, em conseqüência do considerável aumento
do consumo mundial nos últimos anos, ampliou, ainda mais, a sua importância estratégica,
na medida em que a produção mundial está hoje em torno de 84 milhões de barris/dia e
o consumo em 82 milhões. Os Estados Unidos queimam 21 milhões de barris/dia e
produzem em torno de 8 milhões de barris/dia. O restante, para completar seu consumo,
vem das importações. Os negócios baseados em petróleo nos Estados Unidos somam
20% do seu PIB, o que perfaz importância superior ao PIB da França.
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americanos no Afeganistão e, além disso, questionar as condições dos
prisioneiros de guerra talibãs na base naval de Guantánamo, não foi
reconduzia ao Alto Comissariado em 2002, por interferência do governo
Bush. Por sua vez, o diplomata brasileiro José Maurício Bustani, em abril
de 2002, foi afastado de forma arbitrária, portanto, sem direito de defesa,
do cargo de diretor-geral da Organização para a Proibição das Armas
Químicas \u2013 OPAQ, órgão da ONU sediado na Haia, Holanda, por pressão
dos Estados Unidos. Bustani fora eleito em 2000 e reeleito, por
unanimidade, para um segundo mandato. O embaixador Bustani realizava
uma competente gestão à frente do órgão: conseguira aumentar de 87
para 145 o número de Estados-membros da OPAQ, inclusive a adesão do
Irã. Por agir de forma independente, por dispensar tratamento igualitário
a todos os Estados-membros da Instituição, o governo Bush passou a
exigir seu afastamento, a partir do momento em que ele se negara a receber
determinações dos Estados Unidos e ordenara inspeções nos arsenais de
armas químicas daquele país.12
Além disso, o então diretor-geral buscava convencer Saddam
Hussein a solicitar o ingresso do Iraque na OPAQ, situação que contrariava
interesses norte-americanos; da mesma forma, o governo Bush negava-se
a aceitar inspeções da Organização naquele país, medida que acabaria
provando que o Iraque não possuía armas químicas. O governo Bush,