DESAFIOS DO DIREITO INTERNACIONAL CONTEMPORANEOal000135
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grande acidente do século XX não foi, como se chegou a propalar, o
fim da história, mas o fim da geografia, pela compressão do espaço-tempo resultante do
tremendo desenvolvimento das comunicações e dos transportes, tese, aliás, antes defendida
pelo geógrafo inglês David Harvey, em 1989, sobre o que ele denominou \u201co encolhimento
do mundo\u201d. Segundo ainda Paul Virilio, tudo isso permitiu a \u201cemergência do exterminador,
figura sinistra que está entre nós, e não é mais, simplesmente, um chefe de Estado\u201d.
Lembra ainda que no conflito dos mísseis cubanos, em 196l, entre Kennedy e Kruschov,
estávamos à beira do extermino. Hoje, qualquer um pode levar a essa situação. Basta
colocar a bomba no lugar preciso, seja pela contaminação biológica, seja pela contaminação
gerada pela destruição de centrais nucleares ou por outras tantas situações, a chacina será
inquestionável. \u201cNa dimensão suicida do novo terrorismo passamos da Guerra Fria para
o Pânico Frio \u2013 a cada momento um sentimento vem despertar o pânico do fim nas
populações\u201d.
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condições para enfrentar, solitariamente, os desafios do tempo presente.
Somente esforços coletivos, capitaneados pelas Nações Unidas, poderão
avançar na superação das graves ameaças que pairam sobre a Humanidade.
A ONU foi criada, em 1945, como continuidade, ampliação e
institucionalização do intenso processo de cooperação que se desenvolveu
entre os aliados durante a Segunda Guerra Mundial. Todavia, seus
fundadores, transcendendo os objetivos da luta contra o nazifascismo,
como indica Kofi Annan, \u201cdotaram a nova organização mundial de grandes
ambições\u201d:19 \u201cpreservar as gerações vindouras do flagelo da guerra\u201d,
assegurar o respeito aos direitos humanos e à autodeterminação dos povos,
promover o desenvolvimento econômico, o progresso social e as relações
amistosas entre as nações, enfim,construir a segurança coletiva e manter a
paz internacional.
II. A ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS NO PERÍODO DA GUERRA FRIA
A Organização das Nações Unidas, nos primeiros anos da Guerra
Fria, foi muito útil aos interesses dos Estados Unidos. Assumia
regularmente uma posição pró-norte-americana e anti-soviética, já que o
bloco comunista contava com poucos votos e os Estados Unidos tinham
o apoio de uma esmagadora maioria composta por Estados americanos e
europeus.20 Em 1950, por exemplo, os Estados Unidos conseguiram, na
Assembléia Geral, impedir a substituição da China Nacionalista pela China
Comunista, fato que somente se concretizaria em 1971. Por causa disso,
entre janeiro e agosto de 1950, a União Soviéticachegou a se retirar do
Conselho de Segurança.
Nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial, embora a
competição bipolar impedisse o funcionamento adequado do sistema de
segurança coletiva, a ação da ONU foi relevante em vários aspectos, pois,
em diversas ocasiões, serviu como fórum importante e decisivo para a
19 Kofi Annan. Dentro de uma liberdade mais ampla: momento de decisão nas Nações Unidas. In:
Política Externa. São Paulo: Paz e Terra, vol. 14, nº 2 Setembro/Outubro/Novembro
2005, pág. 8.
20 \u201cNa verdade, é muito interessante examinar as mudanças na atitude dos EUA para com
a ONU ao longo dos anos. No final dos anos 1940, os Estados Unidos simplesmente a
conduziam completamente (...) E nessa época, todo o mundo aqui (nos EUA) amava a
ONU, porque ela sempre concordou conosco: de todos os modos que mandássemos os
países votarem, eles votavam\u201d. Ver CHOMSKY, Noam. Para Entender o Poder. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2005, pág. 122.
A REFORMA DAS NAÇÕES UNIDAS E O SISTEMA INTERNACIONAL CONTEMPORÂNEO
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discussão aberta das grandes questões que ameaçavam a escalada de uma
Terceira Guerra Mundial. Por exemplo, na crise dos mísseis soviéticos em
Cuba, em 1962, as Nações Unidas contribuíram para a saída do impasse
que colocara o mundo na iminência da catástrofe nuclear. Em reunião
histórica do Conselho de Segurança, realizada em 25 de outubro de 1962,
a representação norte-americana exibiu para o mundo as fotografias aéreas
que comprovavam a existência dos mísseis em território cubano.
Esse episódio marcante da Guerra Fria foi conduzido pelo
competentee experimentado diplomata Adlai Stevenson, figura destacada
da política e da diplomacia norte-americana no século XX \u2013 fora governador
de Illinoise duas vezes candidato pelo Partido Democrata à presidência
dos Estados Unidos. Stevenson, com excepcional habilidade, mostrou como
usar a diplomacia multilateral para construir as soluções para as grandes
crises internacionais, ao confrontar-se, no Conselho de Segurança, com o
vice-ministro das Relações Exteriores da União Soviética, Valerian Zorin,
que insistia na afirmação de que \u201ceram evidências falsas\u201d a denúncia de
construção pelos soviéticos de plataformas de lançamento de mísseis em
Cuba, apresentada pelo presidente Kennedy na televisão.Embora a solução
final tenha se dado pela negociação direta entre Kennedy e Kruchev, não
se pode deixar de assinalar que esse episódio comandado por Adlai
Stevensonno Conselho de Segurança das Nações Unidas figura entre os
grandes momentos da diplomacia na segunda metade do século XX.
***
O artigo 24 da Carta das Nações Unidas atribui ao Conselho de
Segurança a responsabilidade principal nos assuntos concernentes à
manutenção da paz e da segurança internacionais.Para tornar efetiva essa
competência, a Carta, pelo artigo 42, dispõe que o Conselho de Segurança,
fracassadas as iniciativas empreendidas para a solução da controvérsia nos
termos estabelecidos pelo artigo 41, poderá determinar o emprego da força,
recorrendo aos Estados-membros para que forneçam efetivos militares e
outros recursos necessários à consecução da medida. Contudo, na questão
da guerra civil coreana, diante da paralisia do Conselho de Segurança,
conseqüente dos sucessivos vetos impostos pelos membros permanentes,
sobretudo pelas duas superpotências, os Estados Unidos e seus aliados
foram buscar apoio na Assembléia Geral que, ao aprovar a resolução 377
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A (V), \u201cUnião para a Manutenção da Paz\u201d (Uniting for Peace), também
conhecida como \u201cResolução Acheson\u201d,21 emnovembro de 1950, avocou a
si competência para decidir matéria relativa à paz e à segurança
internacionais.22
Essa polêmica Resolução23 apóia-se no já citado artigo 24 da Carta,
que, textualmente, classifica como principal, e não como exclusiva, a
competência que é atribuída ao Conselho de Segurança nos assuntos
concernentes à paz e à segurança mundiais. Além disso, o artigo 10, ao
relacionar as funções e atribuições da Assembléia Geral, dispõe que esta
\u201cpoderá discutir quaisquer questões ou assuntos que estiverem dentro das
finalidades da presente Carta ou que se relacionarem com as atribuições e
funções de qualquer dos órgãos nela previstos\u201d, e, ainda, que \u201cpoderá
considerar os princípios gerais de cooperação na manutenção da paz e da
segurança internacionais\u201d.
Entretanto, o artigo 12 determina que a Assembléia não poderá
exercer as funções e atribuições do artigo 11 enquanto o Conselho de
Segurança, em conformidade com a Carta, estiver atuando em
21 Dean Acheson (1893-1971) foi secretário de Estado na administração Truman e,
anteriormente, secretário de Estado assistente na presidência Franklin D. Roosevelt. Um
dos ideólogos do Plano Marshal e da OTAN, Acheson foi também conselheiro dos
presidentes Kennedy, Johnson e Nixon e francamente favorável ao rearmamento alemão.
22 Com base na Resolução 377 formou-se uma força que, sob a bandeira da ONU e o
comando norte-americano \u2013 inicialmente do General MacArthur, substituído, em 1951,
pelo general Matthew Ridgway e este, em 1952, pelo general Mark W. Clark \u2013, reuniu 15
países para efetivar a intervenção no conflito coreano. As forças da ONU tiveram 118.515
mortos, dos quais 75.000 sul-coreanos, 33.729 norte-americanos