Mapeamentos para a conservação e recuperação da biodiversidade na Mata Atlântica
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Mapeamentos para a conservação e recuperação da biodiversidade na Mata Atlântica


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incidentes sobre a biota nativa. Sua 
finalidade é contribuir para a formulação de estratégias que abordem a conservação 
ao nível da paisagem, de forma que o planejamento do manejo do território integre os 
objetivos de conservação da biodiversidade aos diferentes tipos de uso do solo.
O primeiro dos estudos aqui publicados buscou identificar quais as melhores áreas da 
Mata Atlântica para receber investimentos destinados à sua recuperação para incre-
mentar a conectividade entre os fragmentos e as unidades de conservação. Utilizan-
do a teoria dos grafos, sistemas de informação geográfica e se valendo de trabalhos 
anteriores sobre a situação da cobertura vegetal e áreas da Mata Atlântica indicadas 
para ações de recuperação, Tambosi et al apontam aquelas áreas com maior potencial 
de recuperação da conectividade, visando o incremento do fluxo biológico.
A compilação do histórico das iniciativas de priorização de áreas para a conserva-
ção da biodiversidade na Mata Atlântica realizadas no Brasil, tanto governamentais 
quanto não-governamentais, é o objeto de um dos estudos presentes neste volume. 
Desenvolvido por Paglia a partir de demanda do Projeto Proteção da Mata Atlân-
tica II, do Ministério do Meio Ambiente, apoiado pela agência de cooperação alemã 
(GIZ), esse estudo traz uma análise crítica dos processos e resultados de 20 exercícios 
de priorização de áreas para conservação da biodiversidade na Mata Atlântica, rea-
lizados entre 1993 e 2011. Essas iniciativas foram utilizadas em outro trabalho aqui 
publicado e, integrando seus resultados, Ribeiro et al identificaram o que definem 
como áreas estratégicas para a conservação da biodiversidade. O mapa final desse 
esforço constitui um importante subsídio para o planejamento de políticas públicas e 
para incentivos a projetos de conservação, recuperação e uso sustentável da biodiver-
sidade da Mata Atlântica.
 9Mapeamentos para a Conservação e Recuperação da Biodiversidade na Mata Atlântica Brasileira
Atento ao potencial e à demanda por recuperação florestal incidente sobre a Mata 
Atlântica, um dos trabalhos aqui presentes, realizado por Metzker et al, detalha uma 
metodologia para estimativas de biomassa e estoques de carbono in situ, baseada em 
partes de um protocolo que monitora sítios de projetos de carbono florestal em di-
versos países tropicais. Projetos de carbono florestal na Mata Atlântica são também o 
objeto de outro estudo presente neste volume, desenvolvido por Pinto et al. Com base 
em análises espaciais e no uso de sensoriamento remoto, tal estudo buscou estabele-
cer um método capaz de identificar e priorizar áreas com potencial para o sequestro 
de carbono, seja por meio de iniciativas de restauração florestal seja por meio de 
projetos de pagamento por serviços ambientais relacionados à mitigação da mudança 
climática.
Diante dos desafios trazidos pela mudança climática e da necessidade de recuperar 
milhões de hectares de matas e regularizar a situação ambiental de milhares de pro-
priedades rurais, conforme estabelece o Código Florestal, as metodologias e conhe-
cimentos aqui apresentados constituem uma referência fundamental para subsidiar 
uma estratégia espacial que promova ações integradas de conservação e recuperação 
da biodiversidade, considerando a complexidade das paisagens atuais que compõem 
a Mata Atlântica. Desta forma, esta publicação se destina especialmente aos formu-
ladores de políticas e projetos, tomadores de decisão e gestores ambientais, cujas ati-
vidades se relacionam com a conservação, restauração, o uso ou manejo de paisagens 
da Mata Atlântica.
O esforço para a realização desta publicação mobilizou alguns dos mais importantes 
pesquisadores da conservação, brasileiros e de outras nacionalidades, além de técnicos 
do Ministério do Meio Ambiente e de organizações conservacionistas, aos quais deve-
mos nossa gratidão. Agradecimento especial deve ser dado ao Governo da Alemanha, 
que por meio do Ministério da Cooperação e Desenvolvimento Econômico (BMZ) e 
do Ministério do Meio Ambiente, da Proteção da Natureza e da Segurança Nuclear 
(BMU) vem há mais de duas décadas juntando esforços às iniciativas do Governo 
Brasileiro em prol da conservação, recuperação e uso sustentável da Mata Atlântica.
Izabella Mônica Vieira Teixeira
Ministra do Meio Ambiente
 10 Mapeamentos para a Conservação e Recuperação da Biodiversidade na Mata Atlântica Brasileira
A região da Serra dos Órgãos, RJ, é um dos locais mais importantes do mundo para a conservação da 
biodiversidade, particularmente das aves. É ameaçada por diversos tipos de degradação, incluindo a expansão 
urbana e industrial. Através da ação integrada pelo Mosaico Central Fluminense os gestores das UCs dessa 
região vem conseguindo resultados importantes para enfrentar as ameaças à biodiversidade, mesmo com recursos 
humanos e financeiros escassos. (Foto: André A. Cunha).
 11Mapeamentos para a Conservação e Recuperação da Biodiversidade na Mata Atlântica Brasileira
1. Introdução
A Mata Atlântica é uma das regiões mais impor-
tantes para a conservação da biodiversidade no 
mundo. A combinação de alta riqueza de espécies 
e elevado número de espécies endêmicas, junto ao 
avançado estágio de degradação, fazem com que 
esta região seja classificada como um das áreas 
mais urgentes para a conservação da biodiversi-
dade em todo o planeta. A Mata Atlântica é um 
complexo mosaico de diferentes formações flores-
tais e ecossistemas associados, como as restingas, 
manguezais e campos de altitude, que se estende 
por quase 30 graus de latitude, e com relevos di-
versos, desde as planícies, planaltos e cânions do 
sul do Brasil passando pelos mares de morros e 
escarpas do sudeste, chegando aos brejos de alti-
tude e as hoje raras florestas de terras baixas do 
nordeste. O relevo da Mata Atlântica é em grande 
parte responsável por sua biodiversidade única, 
com altitudes variando desde o nível do mar até 
mais de 2.700 metros de altitude. 
Esse complexo abriga comunidades biológicas 
altamente ricas e diversificadas. Nela são encon-
tradas cerca de 20.000 espécies de plantas, além 
de 934 espécies de aves, 456 espécies de anfíbios, 
311 espécies de répteis, cerca de 350 espécies de 
peixes de água doce (www.conservation.org, aces-
sado em 04 de abril de 2013), e 270 de mamíferos 
(Paglia et al, 2012). Além dessas espécies já des-
critas, sabe-se que existem inúmeras outras ain-
Capítulo 1
Espécies, ecossistemas, paisagens e serviços 
ambientais: uma estratégia espacial integradora 
para orientar os esforços de conservação e 
recuperação da biodiversidade na Mata Atlântica
Autores: André A. Cunha, Fátima B. Guedes, Ingrid Prem, Fernando Tatagiba e 
Roberto B. Cavalcanti
da não catalogadas pela ciência. Novas espécies 
continuam a ser descobertas, inclusive em grupos 
muito bem conhecidos e estudados; somente na 
década de 1990, 13 novas espécies de aves foram 
descritas para a região (Brooks e Rylands, 2003). 
Além disso, ainda desconhecemos boa parte da 
biodiversidade da Mata Atlântica; por exemplo, 
um estudo recente estimou que podem existir até 
13 milhões de espécies de bactérias associadas às 
folhas das árvores da Mata Atlântica (Lambais et 
al., 2006).
Historicamente, a área ocupada pela Mata Atlân-
tica se estendia por aproximadamente 1,3 milhões 
de quilômetros quadrados, em 17 estados do ter-
ritório brasileiro, aproximadamente 15% do ter-
ritório nacional, além de avançar em porções da 
Argentina e Paraguai. Hoje está reduzida a apro-
ximadamente 26% desta cobertura original, mas 
a maioria em pequenos fragmentos, em níveis 
avançados de degradação, pulverizados e isolados 
em paisagens antropizadas (CSR/Ibama, 2010). 
Estima-se, ainda, que apenas cerca de 8% da área 
histórica esteja contida em fragmentos florestais 
bem preservados, acima de 100 hectares1. Apesar 
de intensamente