Mapeamentos para a conservação e recuperação da biodiversidade na Mata Atlântica
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Mapeamentos para a conservação e recuperação da biodiversidade na Mata Atlântica


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tes em uma mesma fitofisionomia, em uma paisa-
gem, ou entre os grandes ecossistemas e tipos de 
vegetação. Desde as hoje raras florestas de baixa-
da do nordeste e os Brejos de Altitude e Florestas 
Secas do São Francisco, passando pelas Florestas 
Ombrófilas Densas, os pulverizados fragmentos 
das Florestas Semidecíduas, mangues, restingas e 
campos rupestres do sudeste, além dos canyons, 
campos e estepes do sul do Brasil e a hoje escas-
sa e pouco protegida Mata de Araucária, a Mata 
Atlântica é um complexo de heterogeneidade sin-
gular em condições abióticas e bióticas.
Na Mata Atlântica, a abordagem de ecorregiões 
(Olson et al., 2001), que, nesse caso, foi cons-
truída em grande parte com base no Mapa de 
Vegetação do Brasil (Brasil, 1993, 2004, figura 
2), propõe em escala mais fina unidades biogeo-
gráficas para o mapeamento da biodiversidade 
global. A área ocupada pela Mata Atlântica, se-
gundo Olson e colaboradores (2001), poderia ser 
dividida em 12 ecorregiões, além de porções da 
Caatinga, Cerrado e Savanas Uruguaias. Poste-
riormente, com base em endemismos de verte-
brados, foi proposto o agrupamento e a subdi-
visão dessas 12 ecorregiões em oito biorregiões 
(Silva e Casteleti, 2003).
 
 17Mapeamentos para a Conservação e Recuperação da Biodiversidade na Mata Atlântica Brasileira
Figura 2 - As fisionomias vegetacionais ou tipos de vegetação de acordo com o IBGE (2004) na Mata 
Atlântica brasileira. Note no mapa menor o limite dos biomas brasileiros delimitados pela linha sólida 
e a área de aplicação da Lei 11.428/06, ou Lei da Mata Atlântica, que abrange as manchas de florestas 
e ecossistemas associados característicos da Mata Atlântica também em outros biomas.
 18 Mapeamentos para a Conservação e Recuperação da Biodiversidade na Mata Atlântica Brasileira
Ribeiro et al (2009), com base em dados do ma-
peamento da Fundação SOS Mata Atlântica, esti-
ma que exista entre 12% e 16% do território total 
da Mata Atlântica ocupado por remanescentes 
da vegetação nativa, incluindo fragmentos me-
nores que três hectares e considerando os ecos-
sistemas que compõe a Mata Atlântica em toda a 
sua abrangência, ou de 22% a 26%, considerando 
outro levantamento com base no limite do bio-
ma Mata Atlântica (Cruz e Vicens, 2007). A área 
restante foi convertida em paisagens antrópicas, 
principalmente em pastagens e agricultura. O ha-
bitat remanescente está extremamente fragmen-
tado e degradado (Ribeiro et al., 2009), mas ainda 
suporta elevada riqueza de espécies (Fonseca et 
al., 2009, Pardini et al., 2009, Vieira et al., 2009). 
No entanto, as populações de muitas espécies, 
particularmente aquelas exigentes, como grandes 
vertebrados, onças, antas, porcos do mato, aves de 
rapina, já não são viáveis na maioria das paisagens 
(Galetti et al., 2009). Além disso, considerando o 
avanço da perda, fragmentação e a degradação 
dos remanescentes da Mata Atlântica, muitas es-
pécies encontram-se no limiar da extinção e, caso 
medidas urgentes de conservação e manejo dos 
habitats e das espécies não sejam tomadas pelos 
diversos setores da sociedade, a extinção será ine-
vitável. Estima-se que exista um lapso de tempo 
entre a perda de hábitat e a consequente perda de 
espécies e, na Mata Atlântica, ainda estaríamos 
nesse intervalo de tempo. Ou seja, podemos ati-
vamente estimular ações de conservação e recu-
peração para reverter esta tendência de extinção 
ou, caso não consigamos avançar satisfatoriamen-
te, a perda de espécies seria avassaladora e ob-
viamente irreversível (Brooks e Balmford, 1996). 
Nas últimas décadas, muito se avançou como, por 
exemplo, na definição de planos de ação para a 
conservação de espécies ameaçadas, conduzidos 
pelo ICMBio (http://www.icmbio.gov.br, acessa-
do em 04 de abril de 2013); mas o risco de ex-
tinções e a perda de habitat ainda são um grande 
desafio. Logo, as estratégias para conservação e 
restauração da Mata Atlântica devem considerar 
a singularidade ecológica e biogeográfica de cada 
parte deste vasto território, pesando a contribui-
ção potencial e efetiva para a conservação de po-
pulações, espécies, serviços ecossistêmicos e para 
o bem-estar das populações humanas locais. 
3. Mapeamentos para a 
conservação e recuperação da 
Mata Atlântica
Tendo em vista a necessidade de otimizar os 
esforços para a conservação e restauração da 
biodiversidade, frente aos recursos financeiros 
e humanos sempre escassos para este fim, os 
governos, organismos não-governamentais, 
comitês e agências globais e internacionais con-
cordam sobre a importância de se identificar 
áreas e temas focais ou estratégicos para prio-
rizar as ações e, consequentemente, o investi-
mento de recursos, buscando a melhor relação 
entre o custo das táticas e atuação e o benefício 
gerado para a conservação das espécies e 
serviços ecossistêmicos. 
 
 19Mapeamentos para a Conservação e Recuperação da Biodiversidade na Mata Atlântica Brasileira
Conceitos em recuperação e restauração de áreas degradadas
Por Fernando Tatagiba
A base teórica para as ações necessárias ao estabelecimento de conectividade entre remanescentes da Mata 
Atlântica estão fundamentadas na ecologia da restauração. Ao longo desta publicação, assim como em 
diversos texto acadêmicos, científicos e instrumentos legais, são utilizados termos que, apesar de apoiados 
pela ecologia da restauração, traduzem práticas distintas.
Com vistas a orientar a leitura e aplicação desta publicação de instrumentos legais afetos ao tema, re-
produzimos abaixo alguns dos termos mais recorrentes, com os respectivos significados. Os conceitos 
foram extraídos da Lei do SNUC (9.985/200), do Decreto 7.830/2012, além do glossário desenvolvido 
por Aronson e colaboradores (2011). Devemos considerar também que alguns autores utilizam o termo 
\u201crestauração\u201d visando o objetivo final do processo, mesmo que através de ações iniciais que incluam a re-
cuperação da vegetação.
Recomposição: restituição de ecossistema ou de comunidade biológica nativa degradada ou alterada à 
condição não-degradada, que pode ser diferente de sua condição original (Decreto 7830/2012);
Recuperação: restituição de um ecossistema ou de uma população silvestre degradada a uma condição 
não-degradada, que pode ser diferente de sua condição original (Lei9.985/2000);
Restauração: restituição de um ecossistema ou de uma população silvestre degradada o mais próximo 
possível da sua condição original (Lei9.985/2000);
Recuperação de áreas degradadas, ou RAD (recuperation of degraded areas): da mesma forma que re-
cuperação ambiental, este termo tem sido amplamente utilizado no Brasil para referir-se indistintamente 
a diferentes técnicas aplicáveis visando reverter a situação de um ecossistema degradado para um estado 
desejável, independentemente do nível de degradação. Não deveria, portanto, ser utilizado quando a dis-
criminação da técnica se faz necessária. 
Regeneração natural (natural regeneration): conjunto de processos pelos quais plantas se estabelecem 
em área a ser restaurada ou em restauração, sem que tenham sido introduzidas deliberadamente por ação 
humana.
Regeneração natural assistida (assisted natural regeneration): conjunto de intervenções planejadas que 
visa potencializar a regeneração natural da vegetação em uma determinada área em processo de restaura-
ção, tais como introdução de elementos atrativos da fauna dispersora de sementes, controle da herbivoria 
causada por formigas, controle de espécies exóticas competidoras e criação de microssítios favoráveis ao 
estabelecimento de espécies nativas (Cf. Restauração passiva).
Restauração ecológica (ecological restoration): processo e prática de auxiliar a recuperação de um ecos-
sistema que foi degradado, danificado ou destruído (SER, 2004). Não deve ser confundida com várias 
outras atividades que visam à melhoria