A informação como utopia
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A informação como utopia


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J. PAULO SERRA
A INFORMAÇÃO
COMO UTOPIA
UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR
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Série - Estudos em Comunicação
Direcção: António Fidalgo
Design da Capa: Jorge Bacelar
Execução Gráfica: Serviços Gráficos da Universidade da Beira Interior
Tiragem: 500 exemplares
Covilhã, 1998
Depósito Legal Nº 129828/98
ISBN \u2013 972-9209-68-5
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ÍNDICE
Introdução ............................................................................ 7
Preâmbulo - Ideologia e Utopia ..................................... 17
I - A Tecnociência da utopia à ideologia .................... 35
II - Um novo paradigma da Ciência e da Técnica .... 67
III - Sociedade da informação, ideologia e utopia ...... 91
IV - A \u201cbiblioteca universal\u201d e a partilha do saber .... 119
V - As comunidades virtuais e a partilha do poder .... 145
Conclusão ........................................................................ 171
Bibliografia ...................................................................... 179
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INTRODUÇÃO
\u201cNasce um Deus. Outros morrem. A verdade / Nem
veio nem se foi: o Erro mudou.\u201d - Fernando Pessoa
O problema da informação - a informação como
problema - não é de hoje. Tal problema remonta, pelo
menos, a Platão que, no Fedro, citando um velho mito
egípcio, alerta para o perigo de, com a escrita, a mera
informação (considerada, pelo filósofo, como \u201cuma
aparênc ia de sabedor ia\u201d) i r, p rogress ivamente ,
substituindo a educação (sem a qual não pode existir
\u201ca sabedoria em si mesma\u201d).1 Já mais perto de nós,
em \u201cO Narrador\u201d (publ icado em 1936) , Wal ter
Benjamin constata, num tom não isento de nostalgia,
a cr i se da narra t iva , da \u201ccapacidade de t rocar
experiências\u201d, que se torna manifesta a partir da 1ª
Guerra Mundial. Segundo o filósofo alemão, essa crise
tem a sua origem mais remota (e fundamental) na arte
da impressão, que vai constituir um dos instrumentos
fundamentais da afirmação da burguesia; consolidado
o seu domínio, a burguesia cr ia uma forma de
comunicação que vai pôr em causa quer a narrativa
quer o próprio romance (que contribuira, a seu tempo,
para a perda de impor tânc ia da nar ra t iva) : a
1 - Cf. Platão, Fedro, 274e-275b, Lisboa, Guimarães Editores,
1989, pp. 120-123. Ver, acerca desta posição de Platão, Paul
Ricoeur, Teoria da Interpretação, Porto, Porto Editora, 1995,
p. 87. Uma interpretação desta posição de Platão no contexto
mais vas to das tecnologias aparece em Nei l Postman,
Tecnopolia. Quando a Cultura se Rende à Tecnologia, Lisboa,
Difusão Cultural, 1994, pp. 11-25.
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A informação como utopia
informação.2 Desde a época em que Benjamin publicou
o seu texto - e sobretudo após os finais da 2ª Guerra
Mundial - a problemát ica da informação (e da
comunicação) não de ixou de i r ganhando uma
importância crescente, começando-se mesmo a falar,
a partir dos anos 60, do surgimento de uma \u201csociedade
da informação\u201d.
À primeira vista, Platão e Benjamin nada têm a ver
com essa \u201csociedade da informação\u201d. No entanto - e
esse não será, porventura, o menor dos paradoxos da
sociedade da informação -, o problema colocado por
Platão e Benjamin, e da forma como cada um, a seu
modo, o coloca, só hoje é, de forma clara, o nosso
problema. A perspectiva de Platão sugere-nos, desde
logo, um conjunto de questões de que que se destacam
as seguintes: porque é que mais informação não
significa, necessariamente, mais saber? Qual a relação
entre informação e saber? Quem e como pode ter acesso
à informação e ao saber? Qual o papel da educação
(e da instrução) nesse processo? Quanto ao diagnóstico
de Benjamin acerca da crise da narrativa, da capacidade
humana de trocar experiências, não representa ele a
tomada de consciência do facto de, num século
constantemente chamado \u201cda comunicação\u201d, estarmos
cada vez mais informados mas, ao mesmo tempo,
2 - Sobre este conceito diz Benjamin: \u201cVillemessant, o fundador
do \u201cFigaro\u201d, definiu a essência da informação com uma fórmula
famosa: \u2018Para os meus leitores - costumava dizer - é mais
importante um incêndio numa mansarda do Quartier Latin do
que uma revolução em Madrid.\u2019 Isto explica definitivamente
porque é que, actualmente, se prefere escutar a informação
que fornece pontos de referência sobre algo que está próximo,
ao relato que vem de longe.\u201d Walter Benjamin, \u201cO Narrador\u201d,
in Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa, Relógio
d\u2019Água, 1992, p. 33.
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Introdução
termos cada vez menos coisas a dizer, a ouvir, a
par t i lhar com os ou t ros? Do empobrec imento
irremediável das próprias ideias de comunicação e de
comunidade?
Estas são algumas das questões que levam a que
a chamada \u201csociedade da informação\u201d esteja, de há
alguns anos a esta parte, na agenda de organizações
in te rnac iona is , de governos , de po l í t i cos , de
empresários, de universidades, de cientistas sociais e
de filósofos - suscitando um conjunto de atitudes e
de perspectivas de análise claramente dicotómico. Tal
dicotomia de atitudes e de perspectivas de análise
acerca da sociedade da informação pode ser reconduzida
a uma dicotomia hoje clássica nas ciências sociais: a
dicotomia entre ideologia e utopia
A caracterização da sociedade da informação como
\u201cideologia\u201d tem vindo a ser fei ta, por diversos
investigadores, num duplo sentido. Em primeiro lugar,
no sentido em que a \u201csociedade da informação\u201d não
constitui um conceito científico, mas (sobretudo) \u201cuma
forma emblemática de um certo discurso social
recente\u201d3 . Em segundo lugar, no sentido em que ela
pode ser vista como \u201cum conjunto de crenças, que
expressam as necessidades e aspirações\u201d dos grupos
que estão na base da produção e da venda dos sistemas
de informação.4
3 - João José Pissarra Nunes Esteves, A Ética da Comunicação
e os Media Modernos. O Campo dos Media e a Questão da
Legitimidade nas Sociedades Complexas , Tese de Douto-
ramento, Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas,
1994, p. 223. Ver, sobre a caracterização desta ideologia,
pp. 224 ss.
4 - Langdon Winner, \u201cO mito da informação na era da alta
tecnologia\u201d, in Tom Forester (Ed.), Informática e Sociedade,
Volume I, Lisboa, Edições Salamandra, 1993, p. 145.
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A informação como utopia
De acordo com esta caracterização, a \u201cideologia da
informação\u201d surge da necessidade de os países capi-
talistas mais \u201cdesenvolvidos\u201d - confrontados, por um
lado, com os poblemas crescentes da sociedade
industrial e a crise do \u201cEstado-providência\u201d, e, por
outro lado, com o esgotamento das velhas ideologias
políticas e dos projectos sociais mobilizadores -
encontrarem um projecto verdadeiramente universalizá-
vel e partilhável por todos os cidadãos do mundo; um
projecto que pudesse fazer cessar, finalmente, os
grandes confrontos políticos e militares entre países
e grupos sociais com interesses contraditórios. No
mundo que se perspectiva, todos (países e indivíduos)
terão, mais cedo ou mais tarde, o seu lugar no banquete
da informação - que se trata de produzir, fazer circular
e distribuir da forma mais rápida e eficiente possível;
todos os problemas, qualquer que seja o seu tipo e
a sua gravidade, terão na informação a sua resolução
última. Na \u201cnova\u201d sociedade, cada vez mais homogénea,
global e consensual, as ideologias e a política poderão,
finalmente, retirar-se da boca da cena, dando o seu
lugar à ciência e à tecnologia, agora que elas atingem
a sua realização plena. Neste sentido, a \u201cideologia da
informação\u201d representa não uma \u201crevolução\u201d (ou uma
ruptura) com o passado mas a sua continuação - ainda
que sob uma nova forma.
A eficácia (e o sucesso) desta ideologia reside, em
grande medida, no carácter das \u201ctecnologias da
informação\u201d que a suportam. Essas tecnologias
correspondem a um momento em que, para utilizarmos
a linguagem de Heidegger, a \u201clíngua\u201d se torna \u201ctécnica\u201d
- e em que, por isso