A informação como utopia
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A informação como utopia


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introduzidos o vapor e a ma-
quinaria, que vão revolucionar a produção industrial.
A manufactura dá lugar à grande indústria, a classe
média industrial aos milionários industriais, aos \u201cchefes
de exércitos industriais completos\u201d, aos \u201cburgueses
modernos\u201d. A grande indústria vai fomentar a formação
do mercado mundial, preparado pela descoberta da
América. O mercado mundial fomenta o desenvolvi-
mento incomensurável do comércio, da navegação e
das comunicações por terra - desenvolvimento que, por
sua vez, se repercute na expansão da indústria e no
desenvolvimento da burguesia, que relega para segundo
plano todas as classes provindas da Idade Média. Deste
modo, a burguesia vai ter um papel altamente revo-
lucionário, pondo fim às relações humanas e aos valores
feudais e tradicionais. A sobrevivência da própria bur-
guesia, enquanto classe, implica a revolução constante
dos ins t rumentos de produção, das re lações de
produção, do conjunto da sociedade. É justamente este
67 - Cf.: Herbert Marcuse, op. cit., pp. 373 ss; Theodor Adorno
e Max Horkheimer, Dialectic of Enlightenment, Londres,
Verso, 1995, pp. xii ss.
68 - No que se se segue acompanharemos de perto a análise que
Marx e Engels fazem da revolução industrial em A Ideologia
Alemã e no Manifesto do Partido Comunista. Cf. especial-
mente Karl Marx e Friedrich Engels, A Ideologia Alemã I,
Lisboa, Presença, 1975, pp. 61 ss; Manifesto do Partido
Comunista, Lisboa, Edições Avante, 1975, pp. 73-75.
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A tecnociência como ideologia
carácter \u201crevolucionário\u201d da burguesia que permite dis-
tinguir a época burguesa de todas as outras.69
Na incessante procura de mercados, a burguesia
lança-se para todos os cantos do globo, assumindo a
produção e o consumo um \u201ccarácter cosmopolita\u201d. As
velhas indústr ias nacionais são enfraquecidas e
destruídas, para serem substituídas por indústrias de
carácter cada vez mais internacional. E o que acontece
com a produção material acontece também a nível da
produção espiritual: os produtos nacionais \u201ctornam-se
mercadoria comum\u201d, e vai-se formando uma \u201cliteratura
mundial\u201d. Todas as nações são arrastadas na mesma
torrente de \u201ccivilização\u201d. Com a burguesia emerge,
verdadeiramente, a \u201chistória mundial\u201d. Ao longo des-
se processo, em cada um dos países, a burguesia sub-
juga o campo à cidade, cria grandes cidades, aumenta
a densidade da população dessas cidades, despovoa os
campos. Paralelamente, e a nível mundial, submete os
povos \u201cprimitivos\u201d aos \u201ccivilizados\u201d, os agrícolas aos
burgueses, o Oriente ao Ocidente. Suprimindo a \u201cdis-
persão\u201d, a burguesia procede à aglomeração da popu-
lação, à centralização dos meios de produção, à
concentração da propriedade, à centralização política.70
No entanto, nem todos - muito poucos, no entender
de Marx e Engels - participam na partilha dos bene-
fícios de toda a \u201ccivilização\u201d e de todo o \u201cprogresso\u201d
69 - Dizem Marx e Engels, no Manifesto: \u201cO constante revo-
lucionar da produção, o abalar ininterrupto de todas as
condições sociais , a incer teza e a mobil idade eternas
distinguem a época da burguesia de todas as outras. (...) Tudo
o que é sólido e estável se volatiliza, tudo o que é sagrado
é profanado, e os homens são por fim obrigados a encarar
sem ilusões a sua posição social e as suas relações mútuas.\u201d
Karl Marx e Friedrich Engels, ibid., pp. 63-64.
70 - Karl Marx e Friedrich Engels, ibid., pp. 64-65.
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A informação como utopia
trazidos pela revolução industrial. Não partilha de tal,
seguramente, a nova classe gerada pelo sistema burguês:
a dos proletários ou operários. Para estes operários -
que têm que se \u201cvender a retalho\u201d, que são uma
mercadoria entre mercadorias, sujeitos às leis da
concorrência e do mercado e cujo trabalho está
dependente da maquinaria, perdendo todo e qualquer
atractivo - a realidade quotidiana é a da vida em
tugúrios apinhados e insalubres, da falta de assistência
médica e social, do trabalho infantil e feminino, das
longas jornadas de trabalho, dos salários miseráveis.
A sociedade capitalista aparece, deste modo, eivada
de uma contradição fundamental: o incessante aumento
de produção, que se traduz em aumento de riqueza e
bem-estar para os proprietários dos meios de produção,
traduz-se em aumento da pobreza e da miséria para
os detentores da força de trabalho, criadora da mais-
-valia. Esta contradição - que impedirá, a breve trecho,
o próprio desenvolvimento das forças produtivas - só
pode ser resolvida mediante a revolução que permitirá
construir a \u201csociedade comunista\u201d. O capitalismo
desaparecerá, assim, vítima das forças e das contra-
dições que ele próprio gerou.
Convém notar, desde logo, que a crítica de Marx
e Engels à sociedade burguesa não vai dirigida à ciência
e à tecnologia - que, na linha utópica do Iluminismo,
continuam a encarar como uma força potencialmente
transformadora - mas à forma como estas se inserem
no conjunto das re lações de produção daquela
sociedade. O desenvolvimento dos instrumentos de
produção , poss ib i l i t ado pe lo desenvolv imento
científico-tecnológico, será mesmo o principal factor
que levará ao derrube das relações de produção
burguesas, incapazes de comportar tal desenvolvimento
desses instrumentos de produção. Segue-se, desta visão
de Marx e Engels, que a revolução comunista, tendo
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A tecnociência como ideologia
um cariz eminentemente político, não deve - mas antes
aprofundar a todo o custo - a componente científico-
-tecnológica da sociedade industrial/burguesa.71 Em
relação à crença no papel positivo da ciência e da
tecnologia há, pois, uma assinalável convergência entre
o positivismo e o marxismo - convergência que as
versões das duas correntes, posteriores a Comte e Marx,
não deixarão de acentuar.
Apesar de toda a sua importância - sobretudo em
termos de diagnóstico, que não de prognóstico - a
análise que Marx e Engels fizeram da sociedade
industrial (e do lugar da ciência e da tecnologia nes-
sa sociedade) revelou-se errada em três aspectos essen-
ciais. Em primeiro lugar - e ao contrário do preconizado
por Marx e Engels -, a revolução do \u201csistema capita-
lista\u201d acabaria por acontecer em 1917 na Rússia, um
país eminentemente agrário e feudal.72 Em segundo
lugar, longe de sossobrar nos braços da \u201crevolução co-
munista\u201d, o capitalismo internacional revelar-se-ia, ao
longo das diversas (e por vezes adversas) circunstâncias
71 - Não foi assim por acaso que, a partir da Revolução de 1917,
a União Soviética (e, mais tarde, os Países que entraram na
sua esfera de influência) encetou um programa de desenvol-
vimento industrial acelerado, baseado em fortes investimentos
na investigação científica e nas aplicações tecnológicas dessa
investigação. Processo a que Marcuse se refere falando das
\u201cconsequências terroristas da industrialização estalinista.\u201d
Herbert Marcuse, A Ideologia da Sociedade Industrial. O
Homem Unidimensional, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1978,
p. 57.
72 - Diz Ortega y Gasset: \u201cNinguém ignora que se o bolchevismo
triunfou na Rússia foi porque na Rússia não havia burgueses.\u201d
Porque aquilo que move o burguês é, de acordo com Ortega
y Gasset, \u201cum aumento da felicidade humana\u201d. Jose Ortega
y Gasset, op. cit., p. 201.
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A informação como utopia
históricas, capaz de contínuas adaptações. Em terceiro
lugar, a ciência e a tecnologia não tiveram, mesmo
nas \u201csociedades comunistas\u201d, o papel libertador e
emancipador que Marx e Engels lhe atribuíam. A
explicação para este triplo \u201cengano\u201d de Marx e Engels
reside, em grande parte, na mudança imprevista da
natureza da sociedade industrial. Esta mudança, que
se torna nítida sobretudo a partir dos finais do século
XIX, vai ser teorizada por Marcuse e Habermas como
transformação da tecnologia e da c iênc ia em
\u201cideologia\u201d.
A tecnologia e a ciência como \u201cideologia\u201d
Apesar de a ciência moderna produzir, logo a partir
de Gali leu,